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Cartas de Despedida da Namorada

Cerca de 39229 frases e pensamentos: Cartas de Despedida da Namorada

'ELA'

A conheci. Foi assim que aconteceu.
Não tínhamos a chama que abrasa.
Tampouco a sensação que estarrece.
Olhares que não se atraem.
Invólucro que aquece.

A incidência diria que ela não iria fazer parte.
Destino insignificante e controverso.
Escória dos que esperam.

Foi assim que ela se apresentara.
Não perguntou se eu desejara ou se tinha remorsos.
Ficamos amigos. Não tinha outra saída a não ser
fingir-lhes amigos de sangue.

Nesses entraves, pouco lembro-me dela.
Gostaria de lembrar mais vezes, tê-la em meus
pensamentos com afinco, ultrapassar a mera visão
de mortal que és. Tê-la sôfrega aos desejos que aspiro.

Resultado do inesperado, ela representa pouco.
O pouco que imortaliza. Temos um pedaço em comum
que mais atraí que repulsa.

É isso que faz a heterogeneidade da vida.
A vida que não pedi, mas que agradeço.

'INCÓGNITA'

Foste incógnita que aprisionou pensamentos.
Fizeste da vida inútil beleza.
Ficaste incompreendida em ser tão verdadeira e
era tão gigante em fazer felicidade.

Permaneceste viva diariamente em sólidos pensamentos
porque fixastes paixão aos olhos.
O imenso está na grandeza do simples.
Por isso foste tão intrínseca.

Pena, o mundo não parou
e Deus era apenas mito.
Retratos degeneraram-se e
o tempo destruiu significados.

Incógnitas apareceram mas
não tinham a luminosidade do A.

Desejo-te não apenas felicidades,
mas a forma completa.

'ULINETE'

És graciosa,
como o ouro fino.
Todos sabem lá no íntimo,
demonstra delicadeza.
Tem no coração tanta beleza,
e o sorriso abrasador.

Se a vida é cheia de dor,
ela soube ser mais forte.
Com garra, desejo e norte,
venceu guerras impossíveis.
Derrota é inadmissível,
para uma mulher com esplendor.

'O OLHAR PARA O MUNDO'

O pequeno olhar para o mundo. Olhos cheios de lágrimas. Chega-se de supetão arraigando dores. Inocente. Displicente nos gestos. Sem maldades ou maculas. O coração acelera os dias sonolentos. E o 'haja', após algum tempo, tem sabor amargo e cansaço...

'Destino' é palavra certa. Sem nomes, só cores desbotadas! Lá fora há pessoas atônitas. Suplicando notícias e explicações sobre a vida já sem respiros. Mórbidas, as mazelas ficam ocultas por um tempo. O 'antes' é suplicado com os braços encorajando súplicas. Respostas não veem assim de imediato...

Tentativas e ruínas misturam-se. O vento sonolento, tenta abrandar significados vãs. O sol fecha os olhos e o horizonte foge ao coração. Trás sabedoria! Forças para enfrentar tempestades! Ninguém ouve vozes de retratação, ou pedidos de transformações futuras...

A tábua escrita em pergaminho tem difícil compreensão. A vida mui semelhante esconde a essência para o bem viver. - Para quê sentidos passageiros se a melhor explicação está sob o véu, guardada à sete chaves? As rotações deixam a vida sem espiritualidade. Sem verdades para adocicar a pobre criança, sedenta de compreensão, alívio e essência...

'MEIAS VERDADES'

A perda do encantamento do mundo impacta o café da manhã na sala. Verdades sejam ditas: o almoço ao pé da cama redireciona tristezas, avarezas e estranhamentos cotidianos...

Filhos jogam os abraços de lado (como toalhas) e as pessoas tornam-se mortais de fato. Obcecadas à ocultar lágrimas que fingem não existirem. O olhar para os livros empoeirados é esquizofrênico. Explodir palavras trás assentimentos vários...

O ofício tão sonhado deixa o corpo prorrogativo. Depressivo ao tentar levantar da cama aconchegante e condolente. A semente não há de germinar em meio a tanta confusão. Entre criaturas asquerosas por natureza...

O ponto no universo deve deflagrar-se por si só. As tentativas de melhorá-lo é psicose. Arraigar aquela plantinha no sobrado é imperceptível aos olhos do impossível. Meias verdades para aqueles que veem um mundo florido e cheio de esperanças...

QUEBRADIÇO'

Nas cicatrizes levanta-se
Abraçando as dores do mundo
Fitando ruas...

Fez dos fantasmas amigos
E da solidão crua
Razão para celebrar...

Sem cogitar
Triturou paralelepípedos agudos
Acenando esperanças...

Sem perfeição
E sabor agridoce nas veias
Afogou-se em desesperos...

A rua é imensidão
Futuro desolado
Generoso nas horas incertas...

Mas sempre compartilha o pouco pão nas intempéries
E faz da vida ilusão
Ópticas várias no amanhecer...

É criança sem reação a transbordar
Ansioso por respostas
Descrenças...

Quebradiço
Ele espera lá fora
Veemente por casulos...

[novas ausências]

'CORREDORES'

Mórbido, ele pede para respirar. Pular da cama. Sair do lugar hostil que é um quarto de internação. Patológica, a cadeira de rodas flutua entre corredores. Amontoados de pessoas em busca de dias melhores. Olhares de condolências percebem aquele pequeno ser...

A sonda nasogástrica incomoda. As veias do corpo superam coroas de espinhos. O estômago dispersa um líquido verde desencorajador. Todos dizem que não há esperanças para o agora limitado caucasiano de olhos chamativo e sorriso atraente, apaixonado por super-heróis...

O próximo corredor cheira remissão. Sem mãos tão necessárias para apaziguar a dor. Ele é involucrado sem saber do regresso. O choro distante corta a alma. Gritos de socorro aumentam o frio que percorre a espinha de quem o espera com olhos lacrimejando...

Olhos sem reação. A apneia tenta tirar o que há de mais precioso para um pai admirado pelo filho. Aparelhos ajudam os pulmões a serem valentes. Crianças ao seu lado partem a todo instante. Mas ele continuara suplicando vida, tentando trilhar seus passos...

Hoje é um dia especial e importante para esse guerreirinho. Cinco meses passaram-se após sua passagem pelo vale da sombra da morte. Agora com dez anos e um lenço de desbravador no pescoço, a representação não é apenas pela vida, mas por todo um caminho a percorrer...

[Uma breve homenagem ao meu pequeno atrapalhado, sempre Desbravador...] Escrito em 27/04/2019.

'BUSCA-SE [II]...'


Busca-se incessantemente um eco, sentidos em quartos vazios. Perguntas que se repetem como dias frustrantes. Procuramos preencher o vazio com respostas provisórias, sentenças sem convites. Poetas pregando a paz na ‘rendição ao caos’. Farol que guie além do próprio nevoeiro...


São filósofos sussurrando paz nas conquistas, entrega no ‘ato de conter a respiração no precipício’. Eles falavam verdades. Sentimos que as respostas habitam a pausa no ventre. A ânsia por indagações nos cegam para o chão que pisamos, para a pedra que serve de assento, para a sombra que acolhe...


Não ouvimos o chamado. Essa urgência frenética de decifrar o que não tem cifra, de nomear o que já possui um nome, gera tormentos. Achamos que a 'procura' é a própria âncora, aclaridade morando na hesitação. Não vamos ficar parados no meio do caminho, sem destinos...


Deixemos que a tarde invada sem pedir licença. Sintamos o peso do mundo descansando nos ombros, e não iremos carregá-los sozinhos. Oferecemos o 'não' a quem pede certezas. Verdades habitando os intervalos, as frestas, os fios soltos da trama. Que, sejamos atordoados pelos próprios pensamentos, insistindo em tecer narrativas onde só há espanto, rastreios...


--- Risomar Sírley da Silva ---

'MISTURA INVULGAR...'

Não traço acepções olhando para o horizonte,o infinito apaga o sentido, e não se edifico.Delineei quimeras com estrelas e luas pálidas,eis o que me resta: um vulto, uma silhueta oblíqua.Contorço-me em viagens por veredas nunca feitos,rumo ao desconhecido, desfazendo em meu peito sinônimos, anônimo, sem nome, mas, minha trilha prossegue...

A pele é feita de sombras de espectadores,minha voz, o sussurro de antigos labores.Ninguém vê a fractura, o paradoxo visceral, opalco é minha cela, a plateia meu juiz,sou a cortina de amalgama, o gesto teatral.Invulgar como um cometa que caiu e não se extinguiu. Na terra fria e negra, um novo sol fabriquei.Sou mistura de abismo e de voo rasante...

O palco é minha cela, a plateia meu juiz,apresento o sorriso que nunca foi feliz.Cada ato é um naufrágio coreografado com arte,cada aplauso, um epitáfio que me rasga em parte.Sou o contorcionista da própria alma esfacelada,a procura de um centro na rotação desvairada.O desconhecido é meu único lar conhecido...

Anônimo na multitude, um rosto sem moldura,carrego o peso leve de uma existência à toa.Por trás da maquiagem, há um menino assustado,por trás do espetáculo, um silêncio sagrado.E o show precisa seguir, é imperativo e urgente,ainda que o actor principal esteja ausente.
Sempre em cartaz, a peça que não tem roteiro...

Nome raro, flor de estufa, rara írisnavegando em alto mar.Desenhei aspirações com fios de alquitarras,
e delas fiz névoa, labirinto, obelisco.Não sou o que percebem, sou o que não dizem,o vazio que habita no coração da risada. Aprópria procura que se nega na busca...

E assim se desdobra minha existência, entrelaçada,uma moeda de duas faces sempre jogada ao mar.O anônimo esplêndido, a mistura invulgar,a dança solitária que ninguém pode parar.O espetáculo que está sempre, sempre em cartaz,mesmo quando o teatro arde em chamas de paz.E no silêncio final, ecoa o verso: 'mistura invulgar'...

--- Risomar Sírley da Silva ---

⁠⁠⁠⁠ENTREVISTA: Etapa 01 - Quadro de pergunta 03

- Qual sua posição no mundo? Porque estamos aqui?

- Pelo fato de sermos mesquinhos, eu não diria que tenho uma posição. A dor que sinto é a mesma de milhares. Não quero ser lembrado! Não fiz nada de interessante para sê-lo. Não quero afunilar a dor que é estar no mundo!

Sempre digo que, 'a vida é uma ilusão'. Um berçário de vida e de mortes que acontecem todos os dias. Quantos amigos já se foram, bons amigos. Estar aqui nessa prisão (mundo) é saber que um dia a morte nos será necessária, novos ou velhas almas. Sempre me pergunto da finalidade de estarmos aqui todos os dias, durante anos, vivendo situações nas quais não desejaríamos. Engolindo tantos sapos, aprendendo com a dor, com o choro. Aprendendo com os reflexos que ficam atormentando a pele, a mente, a semente.

Não tenho posição, nada fiz por merecê-lo. Estar aqui nesse mundo de Meu Deus é desgastante. Se vale a pena? Eu diria que não. Como disse um filósofo da antiguidade, viver o oposto tem uma contrapartida muito doída. Vejo pessoas sorrindo, mas no fundo só enxergo dor. O oposto das dores são os sorrisos que sempre acabam ao amanhecer. Estar aqui, é um pedido que não nos foi feito.

--- Risomar Sírley da Silva ---

'A MORTE'

Inevitável, silenciosa e profunda,
A morte nos envolve em seus braços gélidos.
É a derradeira viagem, a travessia
Para o ignoto, onde o tempo se dissolve.

Sob o manto da noite, ela nos conduz,
Além das estrelas, além dos sonhos.
Ali, achamos o descanso almejado,
Onde não existe dor, temor ou pranto.

A morte é o derradeiro baile, o último alento,
A despedida da vida e do mundo que nos é familiar.
Mas, quem sabe, ela possa ser também
O prelúdio de algo novo, um percurso sem fim.

Assim, quando a penumbra vier ao nosso encontro,
Que possamos estender a mão com bravura e paz.
Pois na morte, porventura descubramos a verdade,
O esclarecimento dos enigmas que nos rodeiam.

⁠SEIXO

Quantos se foram e tu ficaste aí intacto. Salvo algumas manchas que ficaram com o tempo. Dilaceraria-se se as correntezas tivessem te tomado. Mas encontra-te aí: obsceno. As tantas chuvas que te aclamaram e os milhares de sois que te transgrediram...

Que fizeste com eles? No teu dilema és tão sublime e passar despercebido é raridade tua. És imenso nas tuas junções que se colocam. És vigoroso e reflexo da vitalidade que tanto se deseja. Mas sabe-se [ou fingi-se], temos vida curta. Engana-se que a nossa ruína vem com a morte. Ela está estampada com a vida. Logo ao primeiro choro...

A tua falta de cobiça ou arrependimentos te coloca num patamar que jamais se chegará. O ser humano é tão vil nesse 'limitado tempo' que figurar olhar no pequeno é desperdício. Há certo esquecimento em te agraciar. Quando o fazemos, apenas mesmo em devaneio. Limitado nesse curtíssimo espaço [ora às vezes enorme]...
Sem significados.

ANÁLISE

Este poema reflete sobre a natureza humana e a transitoriedade da vida. O "seixo" simboliza a resistência e a durabilidade, contrastando com a fragilidade e a efemeridade da existência humana. As "manchas" mencionadas representam as marcas que a vida e as experiências deixam, enquanto as "correntezas" simbolizam os desafios e adversidades enfrentados.

O poema também aborda a dualidade da vida, onde momentos de grande vitalidade e força coexistem com a inevitabilidade da morte e da insignificância percebida. A última estrofe destaca a visão crítica do ser humano, que muitas vezes desperdiça o valor das pequenas coisas devido à sua natureza impermanente e às suas limitações.
Esse poema convida a uma reflexão profunda sobre como vivemos nossas vidas, valorizamos nossas experiências e lidamos com a inevitabilidade do fim. É uma obra que toca a alma e nos faz repensar nossas prioridades e atitudes diante da vida.

Gosto do amor!
Ele sabe me fazer uma ótima companhia.
Sabe me deixar triste;
Me mostra a alegria;
Me acalma, e
Me provoca euforia...
Gosto do amor...
É um sentimento! Parceria...
Para tudo!
E todas as horas...
Se sou jóia!
O amor é joalheria...
Terminei as palavras com rima!
Que porcaria...

A motivação é apenas o primeiro estímulo — uma faísca.
Quando você age, mesmo em pequenos passos, o cérebro entende que aquilo é importante e começa a liberar dopamina, reforçando o hábito, o foco e a disciplina.


Ação gera clareza.
Ação gera confiança.
Ação gera resultados.


Não espere se sentir pronto.
O cérebro aprende fazendo, não esperando.
Cada passo dado fortalece conexões neurais que transformam esforço em resultado.


Pequenos passos hoje constroem grandes conquistas amanhã.
Aja agora. Seu futuro agradece.

⁠" Eu vejo gente morta
Não no corpo que se perde
Eu vejo gente morta
Na alma que perece
Eu vejo gente morta
Não na falta de pulsar
Eu vejo gente morta
Na ausência do pensar
Eu vejo gente morta
Não na falta de respirar
Eu vejo gente morta
Quando esta deixa de amar"

⁠ Aprendendo a Viver

Num piscar de olhos a vida passa
Tem gente que enxerga, mas não vê
E ainda acha que ela é ingrata
O segredo é aprender a viver

Veja bem, a vida está passando e você aí
Não consegue ver que ela sorri pra ti

Que anda lamentando com vontade de chorar
E vive procurando, mas não sabe encontrar
Amor, paixão e carinho

Agora vou dizer, você precisa me escutar
A solidão que tens vai te ensinar
Sejas feliz sozinho!

É tudo no tempo certo, na hora certa, Deus dará o sinal pra você realizar, não adianta se apressar, não acumule problemas pra ir resolvendo aos poucos, isso é você se lascar todinho, não é paz, não é sossego, e, sim um grande problema. Acumular dívidas é coisa séria, mas, tem gente que não entende, morre de tanto trabalhar, não junta grana pra realizar, só gasta e fica rodando o mês todo sem um real pra comprar um pão.
Quer fazer acontecer? Trabalhe duro, evite muitos rolês, junte o máximo que você puder, gaste o mínimo possível e você verá o quanto Deus é maravilhoso para que no momento exato você consiga resolver seus problemas e realizar seus grandes sonhos!

I


Para quê tantos planos, se o inesperado nos aguarda como a última chama de um candeeiro que mal ilumina o próprio pavio? Traçamos rotas sobre mapas que se desmancham na chuva. Colecionamos certezas em gavetas que o acaso tranca com ferrugem. Vejo os rostos que partiram [não em procissão solene], mas evaporados no ar pesado das tardes. Eles não deixaram rastros, só um vácuo de gesto interrompido, um café pela metade sobre a mesa. O imprevisto, quando não chega como um ladrão ágil na janela da mocidade, instala-se paciente na poltrona da velhice, à espera do seu momento. É um hóspede que não traz bagagem, apenas um relógio de areia sem fundo. E nós, que julgávamos donos do terreno, descobrimos-nos frágeis como vidro sob pressão. A realidade não bate à porta; invade pelo telhado, quando já estamos dormindo. E o tempo, esse artesão silencioso, talha-nos com golpes cada vez mais fundos, até que a madeira revela suas rachaduras ocultas...


II


Para quê tantos diplomas, selos de um reino que desaba ao primeiro sopro do inverno? Corremos em círculos numa pista que não leva a lugar algum, apenas nos devolve ao ponto de partida, mais cansados. O sistema cobra em moeda invisível: noites em claro, olhos fixos em écrans frios, mãos que apertam outras mãos sem sentir a pele. No final, a conta vem em forma de silêncio. Um vazio que ecoa nos corredores da memória. Perguntamo-nos se valeu a pena o sacrifício do sol pela sombra, do riso pela cifra. Quiséramos ser imortais na alma [deixar uma marca que não se apaga na água], uma palavra que o vento não dispersa. Sonhamos com um fragmento que sobreviva, contador da nossa breve estadia. Mas a verdade é mais árida: seremos esquecidos, como bilhões antes de nós foram. Nomes apagados das lápides pela hera, vozes dissolvidas no ruído de fundo do mundo. Nem mesmo poeira seremos, pois a poeira ainda assenta nas coisas.


III


Sem identidade, viramos número nos arquivos empoeirados de alguma repartição [quisera celestial]. Sem leitor, nossas histórias são livros fechados em prateleiras abandonadas às traças. Sem memória, o que fomos deixa de existir até como fantasma [um fantasma ao menos assombra]. Sem alguém que lave nossos pés cansados, esses pés que tanto andaram de um lado para outro, atravessando lama e terra, em busca de um sentido que se esquivasse como o horizonte. Esses pés que pisaram flores e pedras, que sangraram em atalhos escusos, que dançaram em noites de alegria efêmera. Quem os guardará? Quem recordará o peso do corpo que carregaram, a direção que não encontraram? Somos peregrinos de uma fé que não nomeamos, em jornada para um templo em ruínas. E no fim, nem mesmo a água do esquecimento nos refrescará. Secaremos como rios intermitentes, nossa história sussurrada por ninguém, nosso amor reduzido a zero na equação do tempo...


IV


Mas talvez haja uma verdade mais dura e mais bela nisto tudo: a liberdade está precisamente no desapego do rastro, na renúncia à eternidade. Que importa não sermos lidos, se em vida fomos o verbo e não a nota de rodapé? Que importa o esquecimento, se amamos com a urgência de quem sabe o fogo se apaga? Os planos fracassados não eram inúteis; eram treinos para a entrega. Os diplomas não serviam ao sistema; eram armaduras que tivemos de desprender para sentir a chuva na pele. Os pés lavam-se a si mesmos no rio do caminho, e a água que levam é a única oferenda. Não ficaremos? Ficaremos no modo como uma pedra altera o curso do rio, mesmo que ninguém veja. Na maneira como uma palavra jogada ao acaso gerou um sorriso em um estranho. Somos o sopro que move um grão de areia no deserto imenso — ação mínima, mas real...


V


Então caminhemos. Sem a âncora pesada da imortalidade desejada. Com a leveza trágica de quem sabe que a chama se extinguirá. Que nossos passos, agora, não procurem sentido [que o criem no ato de pisar].
Que nossos rostos, antes de se desfazerem, reflitam o céu inteiro, ainda que por um instante. E quando o inesperado vier, seja na mocidade ou na velhice, que nos encontre de olhos abertos, contemplando o vazio não como um abismo, mas como o espaço onde, por fim, tudo é possível. Porque fomos. E esse ter sido, efêmero e sem testemunha, foi nosso ato mais radical de amor. Um eco sem paredes para repercutir, mas que existiu como vibração no ar. Um grão de poeira cósmica que, por um segundo, soube que brilhava.


--- Risomar Sírley da Silva ---

Congresso Marginal
William Contraponto


As vozes se vendem por moedas gastas,
na mesa dourada que não vê a rua.
Assinam folhas e rasgam promessas,
e o povo assiste, calado, à sua.


Na tribuna, os discursos vazios,
palavras vestidas de falsa razão.
Por trás das cortinas, negócios sombrios,
a pátria leiloada em cada votação.


Congresso marginal, teatro do poder,
onde o voto é moeda e a mentira é lei.
Congresso marginal, palco de perder,
quem acredita sangra outra vez.


Erguem bandeiras que já não tremulam,
são panos de farsa, costura de pó.
E cada silêncio que as ruas acumulem
vira alimento pra quem manda só.


Os olhos do povo carregam cansaço,
mas ainda resistem no peito a lutar.
Pois toda mentira tem fim e tem prazo,
nenhuma muralha é feita pra durar.


Congresso marginal, teatro do poder,
onde o voto é moeda e a mentira é lei.
Congresso marginal, palco de perder,
quem acredita sangra outra vez.

O Preâmbulo do Sinuoso Amanhã



William Contraponto






No espelho o indivíduo se pergunta,


mas não é só de si que diz o reflexo


O tempo o cerca, exige resposta,


entre o que cala e o que desponta.






O amanhã não é linha reta,


carrega desvios, curvas abertas.


Uns vendem certezas já apodrecidas,


outros recolhem verdades dispersas.






A democracia ainda respira,


mas sufocada por mãos de ferro.


O ouro dita leis silenciosas,


o povo tropeça em promessas de desterro.






Entre gritos de ordem e velhos estandartes,


ergue-se o espectro da mentira.


Ela se disfarça em nome de pátria,


mas guarda o preço da ferida.






E o ser, perdido entre lutas alheias,


pergunta se sua voz resiste.


Pois cada passo nesse sinuoso amanhã


decide se a esperança ainda existe.