Carlos Drumond de Andrade Contagem do Tempo

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Um homem que acaba de arranjar um emprego já não faz uso do espírito e da razão para regrar a sua conduta e as suas atitudes perante os outros: toma de empréstimo a regra do seu posto e da sua situação; donde o esquecimento, a altivez, a arrogância, a dureza e a ingratidão.

O pensamento da morte engana-nos, pois faz-nos esquecer de viver.

Não falar para o seu século é falar com surdos.

Pouco dizemos quando o interesse ou a vaidade não nos faz falar.

A sabedoria é geralmente reputada como pobre, porque não se podem ver os seus tesouros.

Não há livro tão mau que não tenha algo de bom.

O homem sem paciência é como uma lamparina sem óleo.

O avarento mais preferiria que o sol fosse de ouro para o cunhar, do que ter luz para ver e viver.

Mors Amor

Esse negro corcel, cujas passadas
Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
E, passando a galope, me aparece
Da noite nas fantásticas estradas,

Donde vem ele? Que regiões sagradas
E terríveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
Não sei que horror nas crinas agitadas?

Um cavaleiro de expressão potente,
Formidável, mas plácido, no porte,
Vestido de armadura reluzente,

Cavalga a fera estranha sem temor:
E o corcel negro diz: "Eu sou a morte!"
Responde o cavaleiro: "Eu sou o Amor!"

Fazemos ordinariamente mais festa às pessoas que tememos do que àquelas a quem amamos.

É mais fácil refutar erros que descobrir verdades.

A razão também tiraniza algumas vezes, como as paixões.

Sem as ilusões da nossa imaginação, o capital da felicidade humana seria muito diminuto e limitado.

Um marido, como um governo, nunca deve confessar os seus erros.

Fica provado que uma inovação não é necessária quando se torna demasiado difícil implementá-la.

O homem que despreza a opinião pública é muito tolo ou muito sábio.

Os acontecimentos políticos humilham e desabonam mais a sabedoria humana que quaisquer outros eventos deste mundo.

Todos reclamam reformas, mas ninguém se quer reformar.

Preocupa-nos mais que falem de nós, do que a maneira como falam.

Vive mal quem só vive para si.