Carlos Drummond Sofre por Viver
Poema Lenda do Pescador
No sul da terra, braços colhiam o alimento das águas.
Uma mulher de branco, sempre vinha à porta do pescador.
E lhe pulsava ao acenar e lhe enfeitava em redes de silêncios
Certa hora adentrou-se noite a fora a seguir-lhe.
Nunca mais retornou.
No local ergueram uma torre.
Segredam que desde então,
a luz do farol se encontra com a lua
e que o pescador se faz vento a soprar estrelas
para iluminar quem se fisga no mar, colhido de amor.
Carlos Daniel Dojja
POEMA PANDEMIA
Na rua alguém sem nome vendia sonhos.
Duas pernas aflitas percorriam os sinais.
Um violonista cego tocava Beethoven.
Um belo cão era transportado numa coleira de prata.
Duas crianças ciscavam comida, nas frestas do chão.
Uma senhora de óculos fumava esperança,
Outra fechava a janela para não ser molestada.
Um poeta sem livros anotava palavras.
Jornais destacavam novas guerrilhas.
Gritos anunciavam para breve a salvação.
Mascaras e grades resguardavam o futuro.
Namorados mandavam virtuais abraços.
Gente com sede comprava água com gás.
Num céu sem homens, até a lua parecia distraída de Deus.
Carlos Daniel Dojja
Poema QUINTANARES
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei,
Que há até uma encantada,
Que nem em sonhos, sonhei.
Mas se a mim me permitir,
A vida em redemoinho,
Quero me ir levemente sorrindo,
Como se vão aquelas folhas outonais,
Que varrem as ruas centrais da cidade que habito.
E se não for por ventura,
Que o coração se reparta,
Quero que arda em fogo árduo,
A pungente alegria, daqueles que se embriagam,
Simplesmente enamorados na claraboia da lua.
Há tanta coisa escondida, nestas ruas que andarei,
Até mesmo a própria vida, feita uma canção atrevida,
Que quiçá, talvez um dia,
Com as próprias mãos tocarei.
Carlos Daniel Dojja
Em Homenagem a Mário Quintana
MÉTRICA DA PALAVRA
Com que métrica, meço a palavra,
Que na profana finitude acena.
A palavra que não findo ou deslindo,
A espera da promissão do sentir.
Com que sina, exprimo, a palavra que desabitada não cabe.
Que quase de tudo no nada sente.
Com que reluto ou proclamo,
Antes de purgá-la ou expressar vivência.
A palavra que se define ou desdenha,
Que se sonha para fora de sua voz.
E que teima em ficar a espreita,
Em cada ver que verte a palavra existir.
Com que raiar, ilumino a palavra,
Que fibra se tece no esperar,
Pela palavra que aberta se esmera,
Em encontrar ser para recriar.
Carlos Daniel Dojja
"...Tudo se mostrava tão extenso, agregado,
Que nesse instante, dentro do teu silêncio,
Era como se uma profundidade entre nós se cingia.
Então, coloquei-me a teu lado, respirando-te.
Permanecemos emudecidos, por dentro acolhidos,
Guardando infinitos abraços em nossas almas..."
Carlos Daniel Dojja
In Fragmento Poema Recolhimento
LUZ DAS ESTRELAS
Certa feita estive numa aldeia.
Lá me deparei com uma menina,
Sua fome me olhava atentamente.
Tinha o nome de luz das estrelas.
Seu pai não se sabia e sua mãe não vinha.
Perguntei-lhe se sonhava. Disse-me que não.
Mas que quando deixasse de ser miúda,
iria ser médica para cuidar das pessoas e dos que vão nascer.
Você sabe o que é poesia?
Não, não a conheço, interpelou-me rapidamente.
Poesia é feita pra gente?
Passei a visitá-la.
Numa manhã que chovia, nova indagação.
Do que você gosta? Prontamente me disse:
Gosto de comida, de escola e de brincar de casinha quando faz frio.
E vou lhe confessar algo.
- Também brinco de agarrar nuvens com as mãos
Carlos Daniel Dojja
Para Luz das Estrelas, em Angola.
O FAZER DE ALGUNS
Alguns dentre nós moldam o ferro,
E dele fazem surgir esculturas.
Por vezes vergam o pinho,
E talham marcados amuletos.
Outros há que se apossam,
De variadas matérias.
Edificam templários ou casebres,
Lapidam jóias ou feitiços,
Ardem no frio ou no fogo,
Sua humana semeadura.
A mim, dentre alguns,
Coube-me outra quimera:
A de esculpir o querer,
Numa árdua arquitetura:
- Não me aprendi estrada reta,
Fui-me pontes carregadas de atalhos.
Enxerguei partidas, mais cedo do que pulsar chegadas.
Vejo-me assim: Do afeto sou inteiro ou recomeço.
E só o sentir construído, como a palavra viva, me afaga.
Carlos Daniel Dojja
In Poema para Crianças Crescidas
A mente é como um músculo do corpo para ser exercitado, como um fogo pra se acender, e não um vaso sanitário pra ser preenchido com o que não presta de alimento a nossos corpos!
Dessegregação
Pai, posso ir no espetáculo que vai acontecer no final de semana?
Não filha isso não é da sua cultura...
Talvez nós já vivemos ou tivemos notícias de casos assim.
Em um país que as diferenças são evidenciadas, não é muito difícil as pessoas quererem impor suas preferências ou costumes.
Mas como fazer isso mudar?
Acredito que a palavra mais oportuna e adequada é dessegregação.
A evolução ao contrário do que se falam não está sendo tão acelerada como o que é praticado. Pelo menos não em minha simples opinião. A tecnologia e a inovação em alguns setores até é visível, porém a absorção de conceitos que podem proporcionar esses avanços através também dessa modernidade ainda engatinham.
As diferenças sociais, raciais, religiosas, políticas, entre outras continuam atravancadas na percepção das pessoas. Isso faz com que o desenvolvimento de uma sociedade se limite. É claro que cultura e tradição devem ser levadas em consideração, afinal sem passado não teríamos origem, só que vejo necessidade de ampliar um diálogo para se chegar num equilíbrio e a partir daí não fazer que os indivíduos sejam pressionados para opções que muitas vezes acontece quando uma grande maioria demonstrem essas tendências.
Um país que quer se tornar desenvolvido precisa ter essa construção de liberdade, contudo sem extrapolar. Respeitar opiniões, sabendo não constranger e humilhar. Essa regra é fundamental, assim como opinar é também ter coerência e sensatez nos diálogos. Tenho como princípio que saber se comunicar é o fato mais virtuoso que podemos praticar. Há um tempo atrás tive a felicidade de conhecer o que significa comunicação não violenta e aprendi que se praticado promove resultados e consequências relevantes. Ignorar pessoas, suas preferências,visões e experiências fazem de nós egoístas, absolutas e inconsequentes. Mas sobre isso eu escrevo numa outra oportunidade.
Todo esse contexto dentro de um espírito democrático, legal, harmônico e fundamentado seria mais descomplicado e a colheita desses frutos mais instantânea. Esse é o melhor caminho.
Das inúmeras coisas que sou fã, duas de que me orgulho muito é o lema das bandeiras do Brasil e de Minas Gerais. Elas traduzem aquilo que sonho para o Brasil.
Então que sejamos "Ordem e Progresso", sem esquecermos os princípios de igualdade, liberdade e fraternidade.
A saudade chega em proporções que nosso coração não consegue aguentar, é ai que precisamos dividi-la entre sonhos e realidades...
A tristeza é um jogo de quebra cabeça, onde algumas peças são lembranças, alegria e felicidade, mas não consigo encaixa-las nesse tabuleiro do jogo...
O xadrez é um jogo de concentração e pensamentos, difícil mover uma peça, onde todas reflete sua imagem como rainha...
Nosso tempo é tao confuso e desgastante porque...A ignorância e a mentira, transitam pela mesma complexidade da verdade...
