Almeida garrrett
É difícil
Para mim ficar
Longe de você
Pois estou
Lutando contra o meu
Coração e contra
A minha mente.
A minha mente não esta deixando
O meu coração
Falar
Quando estou
Perto de você
Meu coração
Se encolhe todo
E minha mente manda
Mas quando estou eu vou dormir
Meu coração martiriza,
Pois você vem a minha mente
E então eu vejo que
Perdi a oportunidade
De esta ao seu lado
Devassa
Devassa e carinhosa
Será esse o motivo pelo qual amo-te tanto?
Se para uns causas espanto, para mim, este é o seu encanto
Meus valores definharam
Mas em que eram baseados?
Para te ter, esqueço o que é certo e faço tudo errado
Sua boca sabe por onde descer
Sua língua bem sabe o que fazer
Corpo em chamas, tem doutorado em prazer
Seu ser exala a paixão pelo que é
E, sendo, mantém a fórmula em segredo
Para não vulgarizar-se
A luz que sai de ti
É sábia e profana, rica e artística
Preenche o meu vazio
Do amor és o verdadeiro caminho
E quem carrega coragem para trilhá-lo
Mesmo sob olhares de reprovação
Não se arrepende, nem conhece tristezas
É
Vontade é não morrer
Desejo é amar
Pressa é não chegar
Preguiça é trabalhar
Tempo é inovar
Trilha é desviar
Velho é reciclar
Vento é navegar
Conhecer é renascer
Partilhar é cooperar
Amizade é confiar
Surpresa é desafiar
Sono é sonhar
Acordar é realizar
Tentar é persistir
Conseguir é acreditar
Bernardo Almeida
Recolher
Sonhar tornou-se pecado
Deita-te sob a lama que se forma
E conforma, resignação que me traz ânsia
Enojo-me dos seus beijos
Seu hálito é fétido
Diz-me que a vida é assim
Não quero entender seus propósitos
Você não tem alma
E ainda resta-me o direito de manter a minha
Abaixo da terra, sua dignidade
Acima dela, suas futilidades
Faço parte daquilo que foges
Imagens de pedaços de nada
Que juntas sem porquê
No entanto, continuas a recolher
Papéis aos montes
Como um catador de lixo
Abutre mórbido
Comes a carniça
E a vida que conhece e prova
Vem da morte alheia
Seu corpo está deformado
E ainda consegues sentir-se belo
A soberba é a bala que carregas na testa
Bernardo Almeida (Livro Achados e Perdidos)
Deuses e demônios
A mentira faz dos homens homo sapiens
Os demônios são todos assim
Tenho conversado com dezenas deles
Porém, os deuses aspiram a perfeição
Ambos falham e mentem em formas
E em conjecturas arrogantemente expostas
Mas subdividem-se em bem e mal
Sois o que podeis captar da natureza
Exércitos são formados em nome do ódio
Mas no amor de um Cristo qualquer, velho e ultrapassado
Encontram a sua justificativa para matar e oprimir
São todos servos de uma estupidez esquálida
De um sinal que não deveria ser dado
E de divindades mortas, mas logo ressuscitadas
Nos túmulos do fanatismo catártico das religiões
Bernardo Almeida (Crimes Noturnos)
Desapego real
Vejo do alto do sublime castelo do perdão
Rainhas e reis deitados com a face virada para o chão
Admitem e arrependem-se dos seus erros
E pedem que suas cabeças sejam cortadas com rapidez e zelo
Mas não precisa desta atitude radical
Chega de sangue derramado em nossos quintais
As sobrancelhas franzem-se todos os dias
Porque entre homens violentos e selvagens
Faz-se presente diariamente a covardia
Apenas levem em seus corações a lição
Larguem todo o ouro e a prata no chão
As vestes e os reinos, coletivize-os agora
E liberte-se da praga miserável do apego
Bernardo Almeida (Livro Crimes Noturnos)
Molho requentado
Um brinde à morte
Esta idônea rapariga
Que de tão especial que é
Restringe-se a aparecer
Uma única vez em cada e toda vida
Desnutrição
Ao chupar o seio da sociedade
Como um bezerro faminto que suga as tetas da progenitora
Engasgo-me sempre, não por ir com demasiada sede ao pote
Mas pela náusea e ânsia de vômito que me dá
Ao provar do alimento que ela me oferece
Bernardo Almeida (Livro Crimes Noturnos)
Vesti-me de pétalas,
caminhei com botas enfeitadas de flores!
Entre sombras de gentis cavalheiros
e mãos entrelaçadas,
segui minha estrada
de versáteis camaleões.
E por várias vezes e razões,
também mudei minhas cores...
O mais importante não é ter ou não ter. O que realmente importa é ser ou não ser.
A escolha é sua!
Arrisque-se! Seja você!
FRAGMENTO DO INFINITO
Defronte uma folha em branco, tentei escrever algo sobre o amor amigo.
Depois da lixeira cheia de papéis amassados, descobri que os amigos moram em um cômodo no coração com proteção acústica. Apurei os ouvidos mas foi impossível ouvir o que saía de lá… Mas deu para sentir as vibrações! Parecia uma festa, daquelas de arromba, danças em sincronia e coloridos fogos de artifício em composição.
Não fiquei satisfeita e procurei um doutor pra tirar uma “chapa” (eu precisava ver aquilo!)… Mas por mais que eu apurasse o olhar, não consegui enxergar nada de diferente naquele plástico escuro e manchado. Percebi que onde os amigos moram é invisível aos olhos, está tão diluído, faz tão parte da gente que acaba correndo nas veias, explode em sorriso e aquece a nossa alma!
Por fim, faltou-me inspiração e tentei em vão folhear o velho dicionário procurando palavras mais adequadas, e percebi que os melhores e mais queridos amigos surpreendentemente ouvem o nosso silêncio, lêem o nosso olhar, compreendem a nossa distância e ausência, entendem quando desmarcamos um compromisso, quando adiamos um abraço, quando não podemos brindar a felicidade compartilhada… E acima de tudo, são capazes de nos amar quando menos merecemos…
O amor amigo é um mistério para poucos revelado. Um elixir para ressignificar e nutrir a vida e germinar os nossos íntimos terrenos áridos. Amigos são mágicos que nos encantam e envolvem sem coelhos na cartola; são alienígenas que nos abduzem sem espaçonaves tecnológicas, nos levando para lugares recônditos e ocultos… Dentro de nós mesmos.
Concluí então que o amor amigo é um fragmento do infinito: quanto mais você oferecer, mais você receberá…
Às vezes, parece-nos estar chegando ao fundo do poço, mas não, o Criador tem planos para cada criatura Sua. Ele as idealizou e, com pinceladas únicas as desenhou... E, cada uma delas, tornou-se Sua maior obra...
...e, há aquele momento que você acha que entende tudo, mas não entende nada. Você é apenas um floco de neve que caiu em lugar errado... Vai derreter ao primeiro raio de sol...
Pessoas vão... Pessoas vêm...
Assim somos nós, passageiros...
Itinerantes!
Rompantes!
Um cometa!
Uns com cauda, outros sem glamour algum.
Uns brilhantes como flashes em noite escura...
Outros se perdendo em opacidade,
pequenez e amargura...
Irrequietos, todos, quase sempre!
Ora, estamos aqui e ali...
E, de repente, nos perdemos...
De igual, temos a jornada [imprecisa]!
Talvez, lá adiante, tornemos a nos encontrar
Para falar...
Dos feitos que não fizemos,
[ou ficou a desejar]...
'Res-Guardados'
Reorganizando a vida,
a começar pelas gavetas reviradas,
de histórias embaralhadas,
não contadas,
lá, jogadas,
como arquivo não mais usado, por ora (...)
Já, com as portas distorcidas, que nem fecham,
extravasado, meu armário...
Não por roupas, que nem sobram,
pois me basta o necessário
que me cubra! Mas por sentimentos,
igualmente, lá esquecidos,
escondidos!
De modo a serem protegidos
da falta de amor lá fora...!
Se, ficou em mim
algum encanto
dos cantos das cantigas
e contos das fadas
Se, ficou em mim
uma fiapo da esperança
da criança que eu fui,
então, eu posso esticar
meus braços e alcançar
o céu...
brincar as brincadeiras
das ruas...
das cirandas,
das estrelas
que com os dedos,
apontava!
Se, ficou em mim,
ainda está comigo
essa força inocente,
veemente,
então, eu posso esticar
meus braços e agarrar
a luz da lua...
E iluminar meu carrossel...
