Herta muller
Desculpe essa minha profundidade, se te levei algumas consciência a cima do seu necessário, se despertei agitação do seu tédio
Seu coração frio, vazio e frustrado
Não abala meu palco
Eu vim do nada, não tenho medo de nada
Ninguém nos deu nada
Vai ser preciso muito mais que as suas palavras
De onde eu vim, vc é pouco, quase nada.
A vingança do inesperado
Para o que é falso: "é que nada é para sempre"
Quem dirá "o que foi forçado acontecer
Ser escolhido sem barganha"
Vitórias e derrotas por um fio
Tanto esforço me tornou mais frio
Ratos, bitches e ego
Prefiro ser o errado quе persiste
Que o cеrto que desistiu.
Ret.
Não estimo o estilo de vida de um homem comum
Pq eu quero realmente esta com uma mulher que seja alma e cérebro
Anos de promessas e tudo que eu posso ver na sua força e na sua masculinidade é uma irônica impotência.
Era amor e sempre foi e continua sendo. E isso nos assusta por que nos achávamos incapazes de nos amarmos desse modo, mas não somos. É o amor da confiança, da parceria, da cumplicidade. E o que nos fez ver isso, foi a tentativa falha de alimentarmos nossa sede carnal. Eu deslizando por tuas mãos, e tu se prendendo nas minhas. Furiosos, famintos, malucos, apaixonados, fugazes. Acabamo-nos. Como fogo e pólvora que num beijo se consomem, já dizia Shakespeare. E, já que citei isso, acabo de me lembrar também de que nossas alegrias foram bem violentas. E alegrias violentas, tem fins violentos.
O Galo
Impotência, inutilidade, medo, pequenez. Chame como quiser. A verdade, é que as palavras jamais conseguirão expressar com exata precisão o que eu sinto ao ver aquilo. O que? Um galpão. Um imenso, fedorento e decadente galpão. Milhares de olhos tristes emolduram os rostos grandes. Bolas negras de inocência dilaceram meu coração em bilhões de pedaços. São os olhos da carne. É a comida demonstrando sentimentos adversos, tentando impor, de forma inútil, a vida que nunca lhes pertenceram.
O que acontecerá depois de hoje? A quem pertencerão?
Um futuro incerto, recheado de crescimento econômico está sendo pactuado em contratos legais de compra e venda. Eles não são animais, são coisas. Bens que nos pertencem e podem ser vendidos, assassinados, comidos ou amados. Nas jaulas frias, flashs de câmeras fotográficas inibem uma psique descontrolada. O bico frenético do galo negro morde, com demasiada ansiedade, meus dedos trêmulos.
“Você vai ficar bem”, tento dizer de forma inútil, enquanto percebo a mentira que escorre pela minha fina linha de voz. Falo como um sopro. As lágrimas me veem aos olhos, transformando diversos sentimentos em uma gota de agua palpável, a matéria da minha subjetividade não compreendida. O galo tem o olho esquerdo machucado, as patas são enormes, o corpo beira o absurdo. Hormônios. O animal foi vendido por quinhentos reais, as placas indicam que ele é o vencedor no quesito de reprodução de matrizes. Misturar raças e rações é o segredo para essa geração de aves mutantes. Claro, precisamos de galinhas fortes, recheadas com proteínas induzidas para nos dar alguma dose de energia. Mas ele não sabe, não percebe. Seu instinto diz que precisa reproduzir, seu corpo pede por comida, seus olhos ardem. O estresse diminui sua produtividade como galo. Meu Deus, será que o galo sabe que é galo? Acho que não. Está perdido na escola do professor Xavier para super dotados. O galo é um super galo. O galo me bica, pra tentar impor sua grandiosidade. O galo é apenas o galo que engole medalhas pela garganta e, ainda assim, não deixa de ser galo. Mas eu, a garota de fora que esconde o choro, sei que ele é apenas um galo que foi induzido a ser, literalmente, grandioso.
Vou embora, me despedindo daquele ser perturbado. Dobro à direita e encontro mais jaulas. Gaiolas pequenas enfestadas de animais sensíveis de pelugem branca reluzente. Eles são os melhores no quesito de pelugem, os melhores no quesito de carne, os melhores no quesito de venda. São coelhos. As orelhas pontiagudas saem por fora dos buracos minúsculos, os flashs desafiam a capacidade visual dos animais, induzindo-os a um estado de torpor. Os corpos trêmulos demonstram fragilidade. As placas brancas de madeira rústica, demonstram preços. Eles são separados de acordo com seus quesitos mais impressionantes. Crianças se amontoam à minha frente, com os dedos pequeníssimos a tocar-lhes o pelo premiado. Mães sorriem, tiram fotos, explicam a vida do ser que está enjaulado como algo banal, um destino certo, uma beleza que está ali para ser vista e depois esquecida. Nada de nos aprofundarmos. Corações tão rasos quanto seus interesses. Eles são a base sólida de um mundo já corrompido, a ignorância em massa que carregará para sempre os mais aptos nos ombros. A ignorância que alimenta a violência, que educa com cegueira, que vive em vão, que morre sem orgulhos.
Ao lado, uma loja de roupas vende casacos de pele, paralelo a uma loja de filhotes de chinchila. Mais fotos, mais crianças. O peso de não se ser ignorante em uma terra enfestada de burrice. Tento sair dali, trancar minha respiração, fechar meus olhos. Temo não suportar o abismo que se abre em frente aos meus passos febris. Mas suporto. Suporto o suficiente para chegar até o galpão ao lado, onde o meu principal destino se encontra: os bovinos.
Nada de jaulas, nada de flashs. Aqui, há somente vacas, bois e cheiro de estrume. Placas enormes indicam os melhores matadouros, a melhor vaca para alimento, o melhor touro para reprodução. Cartazes esplendorosos exibem, com certa soberba, o orgulho de um boi em especial. Não lembro com exatidão o nome dele, mas sei que era muito, muito especial. Seu Sêmen foi vendido para dois continentes. Sua espécie, sua raça, ou sei lá o que, eram do mais alto escalão de linhagem bovina. Se você quer carne macia e animais dóceis, venha até mim. Se você quer animais submissos e uma linhagem mais rápida, venha até mim. Meu boi é o melhor e maior reprodutor do mundo. Venha até mim.
Eu vou.
Vou até o boi de quem tanto falam e não vejo nada além de um boi. O boi que, de tanto ser exaltado como boi, também pode se ter esquecido de que era boi. Mas eu... Ah, eu sabia que ele era um boi. Ele não me vê, estava ocupado demais regurgitando aveia. Mas eu estava lá. E eu via. O tamanho anormal, o pelo excessivamente penteado. O principal objeto de consumo, a melhor propaganda possível do objeto mais caro. O capitalismo agindo na sua forma mais pura para manipular a pecuária de que tanto dependemos. Continuo olhando e vejo apenas um boi. Um boi lotado de compromissos, fotos, folders, medalhas, filhos e linhagens inteiras de comida. Ao lado, mais bois. Todos os tipos de bois. Não conheço raças nem nada, mas sei distinguir cores. Bois brancos, bois marrons, bois pretos. Todo tipo de boi. E todos os bois que eu vi, devolviam o olhar meio incerto. O destino que nada lhes trazia, a compaixão que não lhes era devida. Olhos tristes. Bolas negras, repletas de mistérios e amores não percebidos. Bolas negras que continuavam a perfurar meu coração.
Será que o galo sabia que era galo ou apenas se convencia do contrário?
Por que estou começando a perceber falhas na minha identidade que não condizem comigo mesma. E, talvez, também ache que sou um galo. Na minha fraqueza, na minha pequenez. A indústria que consome meu dinheiro, de forma indireta. A pecuária que me engole pelas pernas contra a minha vontade. O mundo gira, enquanto acho que sou galo. E, nesses giros em descompasso, me perco numa identidade já não tão natural. Sou um galo que não se reconhece como galo, e, talvez por isso, me intitule como humana.
Análise de uma menina-mulher
Para uma mulher de mais de trinta, algumas descobertas podem fazer com que seu mundo caia.
Não desmoronei por não ser forte, não caí por não aguentar a vida e não me machuquei por não conseguir brincar. Apenas desmoronei, cai e me machuquei quando descobri que o príncipe não iria mais vir, e que ele, na verdade, não estava perdido no caminho com seu cavalo branco, e sim que realmente ele não chegaria. Demorei anos para aceitar esta verdade e até hoje, no fundo do meu coração, ainda tem uma parte de mim que ainda acredita. Me tornei uma pessoa estranha, confusa e perdida por não querer aceitar esta realidade. Hoje sou mais sonhadora do que antes e tenho ainda esperanças que um dia irei acordar e estar vivendo o meu conto de fadas e com o tão esperado final feliz e o príncipe salvando a princesa da bruxa má.
Será que sou normal por pensar assim? Por ser tão sonhadora? Por acreditar em contos que sei que não existem?
Apesar de todos os males que os contos me provocaram, eles também me ensinaram a ser esta pessoa cheia de esperança que sou hoje, apesar de viver num mundinho só meu: tenho minha família, minha casa, meu trabalho. Acordo todos os dias às 6 horas da manhã e saio para a batalha. E à noite, quando chego em casa, faço comida, preparo tudo para o próximo dia e só então quando todos já estão dormindo, me perco em meus pensamentos até a madrugada, com príncipes, princesas e muito amor, mas nestes meus pensamentos a princesa não sou mais eu, e sim outras.
A verdade é que sei que não existem príncipes, mas existem homens protetores que salvariam, sim, a mulher que amam. Aquele que destrói meio mundo para se vingar de alguém que fez mal a quem amam ou então aquele que acorda no meio da noite ouvindo barulhos e sai pela casa para ver o que é.
Este, sim, seria o príncipe encantado: o super protetor, apaixonado e companheiro.
Quem sabe um dia...
