Miguel delibes
Nunca e sempre são duas palavras que só deviam existir nos contos de fadas. São palavras que fazem parte de promessas geralmente impossíveis de serem cumpridas. Mas como é bom ouvi-las, não é mesmo? Graças a elas, não sentimos tanto medo e insegurança quando o futuro parece tão incerto.
O que todos nós queremos no fim das contas? Alguém que nos ame, nos assuma, nos perdoe. Sim, porque quase sempre amar é uma grande troca de perdões. Quem não sabe perdoar ainda não está pronto para o amor!
Agora,
o remédio é partir discretamente,
sem palavras,
sem lágrimas,
sem gestos.
De que servem lamentos e protestos,
contra o destino?
Albert Einstein dizia que: "Só há duas maneiras de viver a vida: A primeira é vivê-la como se os milagres não existissem, a segunda é vivê-la como se tudo fosse um milagre!" E por isso, meu amigo, jamais se desespere em meio às sombrias aflições da vida, pois é das nuvens mais escuras e pesadas que cai a água mais limpa e fértil.
As grandes almas sofrem em silêncio porque entendem que a dor é como uma dessas varetas de ferro que os escultores enfiam no barro para sustentar a estrutura e sabem que só nos livramos de um sofrimento depois de o haver suportado até o fim!
O amor é um sentimento tão profundo que nos deixa cegos para tudo mais.É uma verdade absoluta: se a paixão é capaz de transformar o mais hábil dos homens em um louco, o amor é capaz de transformar a mais louca das criaturas em uma pessoa muito hábil. Hábil até demais!
É um fenómeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto. Falta-lhe o romantismo cívico da agressão.
Somos, socialmente, uma colectividade pacífica de revoltados.
Cada um de nós escreve com cuidado o capitulo da propria vida,
mas nem todos nós somos capazes de le-los com os olhos do coração.
Porque quando entendemos uma passagem desse livro, quando percebemos
que ela está ali por algum motivo maior, então ela é muito mais do que um amontoado
de palavras ou acontecimentos. Ela passa a fazer parte daquilo que somos na essência.
Triste mesmo é a gente nem saber que o fim ainda nem começou e que perdemos a pessoa amada logo no começo.
Não perturbes a paz que me foi dada. Ouvir de novo a tua voz seria matar a sede com água salgada.
Livro de Horas
Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que vão ao leme da nau
Nesta deriva em que vou.
Me confesso
Possesso
De virtudes teologais,
Que são três,
E dos pecados mortais,
Que são sete,
Quando a terra não repete
Que são mais.
Me confesso
O dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas,
E o das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
Andanças
Do mesmo todo.
Me confesso de ser charco
E luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.
Me confesso de ser tudo
Que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
Desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.
Me confesso de ser Homem.
De ser um anjo caído
Do tal Céu que Deus governa;
De ser um monstro saído
Do buraco mais fundo da caverna.
Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui, diante de mim!
Os corações humanos são como instrumentos de muitas cordas.E ao longo da vida vamos aprendendo a tocá- las todas.Como se fossêmos músicos, intérpretes de nossas próprias emoções!
Esse é o mundo das possibilidades e as coisas só são impossíveis até o momento em que deixam de ser. Estamos sempre repetindo: não é possivel! Não é possível. Mas é! É possível!
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.
Mas, francamente: fé em quê? Num mundo que almoça valores, janta valores, ceia valores, e os degrada cinicamente, sem qualquer estremecimento da consciência? Peçam-me tudo, menos que tape os olhos. Bem basta quando a terra nos cobrir!
Há dias que as portas não deviam ser abertas.Há dias que a compainha que toca é um sinal de alerta e não nos damos conta disso.Mas ninguém foge do próprio destino.
A verdade alivia mais do que magoa. E estará sempre acima de qualquer falsidade como o óleo sobre a água.
