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POEMA NEGRO
Sob a mangueira imaginei minha infĂąncia
Como se tivesse sido sĂł um feriado
E as latas que eu catei,
EstĂŁo lĂĄ no meu quintal,
As pipas que eu soltei estĂŁo presas no varal,
Os piÔes que eu rodei foram até Portugal,
Minhas ex- namoradas estĂŁo de dietas,
Nem açĂșcar e nem sal,
Minha vida segue bem ou mal,
Neste feriado fui soldado e desertei,
Fui poeta e fugi da musa,
Agora colho mangas, comendo pitangas,
Encantado com o campo de alfazemas,
Pensando no poema para a minha vida,
Para o meu feriado.mas amanhĂŁ Ă© dia de branco
.Tem engenho, tem tronco tem canavial...
DEL CASTILHO
Havia um sofĂĄ...
Um âso farâ na proximidade
Da intransponĂvel solitude...
O toc-toc da Olivetti ou da remington
Para minha inspiração
E uma corda imaginĂĄria no teto
Para minha solidĂŁo...
Havia horas para se empacotar a vida
E fazer pilhas de paciĂȘncia...
O gotejar incessante de alguma torneira
No mais profundo silencio,
Passos pelas dependĂȘncias da minha ansiedade
Fantasmas de mil purgatĂłrios...
Havia o telefone para confidĂȘncias
De paixĂ”es inadimĂssiveis
Durante a madrugada...
Havia o corredor que conduzia `suburbana
Sangrenta e insaciĂĄvel...
Havia a igrejinha onde remiam nossos pecados
A nova AmĂ©rica que vestia o nosso paĂs
E um viaduto para problemas sem solução...
EMBARCAĂĂO
Nem tanto assim,
Os meus delĂrios sĂŁo sĂł meus,
Ă um refĂșgio,
Nada mais que enganar a ilusĂŁo,
Eu aprendi a ser assim fugidio,
Mais fugaz, que vagabundo e vadio
Pra escapar da paixĂŁo,
E se as vezes me sinto sozinho...
Ă solitude nĂŁo Ă© solidĂŁo,
Nem tanto assim...
Este deserto é plantação,
Nos descampados eu tenho o meu teto,
Nos absurdos percebo o que Ă© sĂĄbio,
BĂșssola e astrolĂĄbio Ă© este vazio,
Neste deserto sou embarcação...
NĂŁo faz assim, vai devagar
tem pena de mim
sĂł sei fazer poema
e tenho ponte de safena
o coração pode nem suportar...
HOMEM
um homem nĂŁo Ă© sĂł um homem
por ser um homem sĂł...
pode ser um homem sĂł,
pode nĂŁo ter ontem, pode nĂŁo ter tempo,
mas pode ter o amanhĂŁ, a manhĂŁ e o vento...
um homem nĂŁo Ă© pobre por nada ter,
nĂŁo Ă© vazio por ser pobre,
Ă© pobre por ser vazio,
um homem nĂŁo Ă© sĂł um homem
por ser um homem sĂł ,
um homem nĂŁo Ă© rico pelo que possui,
por que pode possuir castelo
e nĂŁo ter um lar,
pode possuir moto e nĂŁo ter movimento,
pode possuir aviĂŁo
e não ter espaço,
pode possuir passo e nĂŁo ter sentido,
um homem tem que plantar e colher,
tem que escrever e ler,
tem que amar e fazer filhos...
tem que saber seu nome,
um homem nĂŁo Ă© sĂł uma impressĂŁo digital,
um homem,
impressiona por saber,
e impressiona mais ainda por saber saber...
ah, mas se eu sonhei demais
nĂŁo foi sĂł culpa minha
seu corpo fomentou a minha fantasia
e se eu quis ser feliz perdoa
nunca mais vou sonhar assim,
nunca mais vou querer ser feliz
nunca mais vou pensar
que a vida pode ser boa
PERAS
Agora sĂł quero uma varanda
Um céu com estrelas e discos-voadores,
SĂł quero andores floridos,
Forrados com toalhas de renda
E sacros hinos reavivando a fé
SĂł quero o bafejar lilĂĄs
Dos deuses da poesia
E a alegria de sofrer pouco,
SĂł quero fingir que sou louco
E enganar psicĂłlogos e psiquiatras,
E a mim mesmo pensado que sou normal
Quero pegar tua mĂŁo
E sentir a emoção de trĂȘs dĂ©cadas atrĂĄs
Falar as coisas que eu disse aos dezoito anos
Como se entĂŁo os teus seios de peras
Amamentassem ainda os meus desejos...
Democracia nĂŁo deu certo
Vivemos muito perto da loucura
E aquela ternura que imaginĂĄvamos
Era sĂł uma utopia...
Esquece London London
Esquece Baby
Nevermore Alegria Alegria
Precisamos de uma Dita mais Dura
De uma Cracia mais Demo
Meu irmĂŁo Caetano onde andam
Dadda, Pinochet, Salazar e Fidel
Agora precisamos dessa gente
Pro trabalho indecente
De mandar alguém pro inferno ou pro céu...
AZUL TURQUESA
Quando era sĂĄbado eu era magro
E sĂł tinha a ilusĂŁo incandescente de um adolescente
O céu era azul turquesa
Como as minhas poesias,
Julieta jamais morreria se eu tivesse um romance,
Mas antes, muito antes
Quando eu ainda nĂŁo ousara sonhar
Eu só tinha as pipas e piÔes
E muitas indecisÔes
Eu jĂĄ idealizara o olhar dos olhos dela...
Enquanto contemplava
Påssaros, borboletas e libélulas
Eu jĂĄ era poeta e nĂŁo sabia
E o olor de viver, o ardor de sobreviver
A dor de subviver era poesia
Eu sĂł precisava daquele beijo
Pra perceber a abĂłboda azul turquesa,
Pra saber que nos sĂĄbados somos magros;
Nos domingos somos lindos
E nas segundas... nas segundas-feiras
Percebemos de quem sentimos falta...
deixa eu te olhar sĂł mais um pouco,
ainda sei sonhar e amanhĂŁ Ă© sexta-feira
e a minha semana nĂŁo tem sĂĄbado nem domingo
a vida nĂŁo pode diluir-se assim
como se fossemos abstratos,
e essa paz, essa paz que abriga agora a tua alma,
essa paz tem que ser dividida
deixa eu te olhar e assimilar esse vermelho
porque a minha paz tinha a palidez dos dias invernosos
e a frieza glacial dos polos
deixa eu te olhar, e essa manhĂŁ nos teus olhos
clarear os meus caminhos
quero ver de novo teu sorriso
e acreditar que nĂŁo sonhei
nĂŁo quero perder meu juizo
sĂł porque me apaixonei
TALVEZ
eu nem te amo tanto assim
eu nem te amo tanto
eu nem te amo
talvez sĂł um pouquinho ao amanhecer
quando um restia de sonho me induz
e depois sĂł um pouquinho
porque ninguém é de ferro,
também preciso de carinho
preciso precisar o que preciso
talvez nem seja amor
mas se nĂŁo for o que serĂĄ ao entardecer
ao te querer por perto
o que serĂĄ esse deserto
a te esconder de mim
o que serĂĄ esse fim do mundo
ao nĂŁo ter fim este querer
talvez eu ame mais a mim que a vocĂȘ
talvez eu queira mais
nĂŁo ser amor este te amar enfim
eu nem te amo
eu nem te amo tanto
eu nem te amo tanto assim
Gosto do frio que faz ser sĂł,
das palavras perdidas e amargas como jilĂł
da frieza inesperada de nunca mais
eu gosto de reminiscĂȘncias
da inconsequĂȘncia de amores impossĂveis...
eu gosto de ficar olhando a chuva
e imaginar que os deuses choram de solidĂŁo
eu gosto de ser triste,
de imaginar-me um boneco de neve
perdido numa montanha
depois de uma avalanche...
essa rajada de vento gelada
compĂ”e o meu espĂrito
eu gosto de ficar olhando o infinito
