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Jean la bruyère

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Lá fora está frio e chuvoso e as ruas se encharcam de silêncio. As gotas escorrem nas janelas como se fossem lágrimas antigas que o céu já não consegue conter.

A nossa vida é comparada, a uma estrada para caminhar, mas quem lá no fim chegou, nunca mais voltou e nem voltará.

A maior das guerras acontece dentro de mim, e é lá que me torno invencível.

A escuridão não tem o poder de apagar a sua luz, ela apenas te ensina a acendê-la por conta própria, com muito mais intensidade.

Cada “não” que ouvi me empurrou para dentro, lá dentro encontrei razões para persistir, fiz delas alavanca.

A chuva incessante lá fora assemelha-se à minha fé, não se interrompe, não se exaure, apenas persiste.

Deus não me poupou da dor, mas me deu força pra suportá-la.

Chorei diante do impossível, e ele cedeu, o pranto abriu espaço para o talvez, a persistência das lágrimas ganhou caminho, o impossível se curvou ao desejo fiel.

Vivi o silêncio de deus e vi que ele estava lá, ausência de voz não foi abandono, foi espera, no silêncio, aprendi que a presença persiste, mesmo calado, Deus se fez companhia.

No meio do medo existe uma paz que fala mais alto que o pavor, aprende a ouvi-la como bússola.

A busca na noite e a força do amor
nas fendas do rochedo, onde o mundo nos procura, é lá que a nossa voz se torna suave e a nossa figura é vislumbrada em sua máxima pureza.

Mas quem lá no fim chegou, jamais voltou e nem voltará, valorize a jornada, pois o destino é uma viagem só de ida.

O corpo guarda um manual de guerras antigas. Lá estão listadas derrotas que ninguém lê, exceto eu. Cada cicatriz é uma frase do diário que o tempo esqueceu. Volto a esses capítulos com os dedos, procurando cura no toque. E descubro que a linguagem da cura é pequena: atenção e tempo.

A dor tem uma língua própria, poucos se oferecem para traduzi-la. Conto-a com as mãos e às vezes com olhos partidos. Não peço aplausos, só que alguém tente entender o sotaque. Quando encontro esse ouvido, a dor muda de tom e emagrece. Dividir o idioma do ferimento é já metade da cura.

Não temo mais minhas falhas, elas moldaram minha identidade, sei onde piso porque já caí lá, sei quem sou porque me quebrei, e sei o que quero porque sobrevivi.

A dor só é insuportável enquanto a gente se recusa a nomeá-la, o reconhecimento é o primeiro passo para a anestesia.

A dor é um idioma, nomeá-la devolve silêncio ao que antes era ruído antigo.

Às vezes o perdão é uma mesa posta para ninguém. A comida está lá, mas faltam mãos para compartilhar. Fico olhando o prato vazio e aprendo sobre abandono. Algumas refeições só alimentam a memória. E ainda assim a mesa insiste em ser hospital de esperanças.

Meus sonhos se enrolam como fios de lã mal tricotados. Às vezes puxo um fio e desfaz tudo que fiz. Outras, consigo transformar em manta para me cobrir. A habilidade é saber quando parar de puxar. E aprender a tricotar com as mãos que tenho.

O silêncio é uma cidade onde aprendo a falar devagar. Lá as frases caminham com sapatos macios. Não há pressa de entender, só desejo de existir. E nesse lugar, até o pensamento encontra abrigo. Volto diferente de cada visita.