Camilo jose cela

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... e quanto
às nossas dores — especialmente as
indizíveis —, cabem duas questões:
remediar ou superar? Olhar
paratrás ou deixá-las
para trás?

... a Verdade,
caríssimos, limita-se a dois advérbios
sobremodo enfáticos, absolutos e simples: 
sim e não — considerando que tudo o que 
viola tal conformidade não passa de 
mero falatório ou
vista grossa!

... a sabedoria
é fruto da boa observância
do que seja a arte de viver — de
uma meticulosa percepção de seus 
fartos contrastes e encantamentos que
sempre têm algo a nos dizer,
por nos ensinar!

... vidas
jamais fecham para
balanço — de fato, são nossas 
expectativas, pontos de vista e atitudes contabilizando e registrando
o quanto já mudamos 
e crescemos!

... a tarefa de viver
não se trata de um monólogo
isolado, mas de um ação participativa
em que, na condição de 'emissores', vivemos
e partilhamos aquilo que já alcançamos — e,
ocupando o papel de 'receptores',sorvemos
saberes e princípios que por
agora nos faltam!

... segundo
a tradição oriental, a  
vida é inteiramente pedagógica — 
logo, o que não se manifesta com 
a intenção de nos ensinar 
não tem por que 
existir!

... o grande mal
do homem é o esquecimento.
E, por esquecer, nunca aprende.
Por não aprender, não evolui — e,
pior: abdica do mais caro dos
seus pertences, a sua
consciência!

... a vontade 
do nosso Criador está perfeitamente 
ajustada aos nossos mais justos quereres — ao que, 
por nós absorvido e aplicado, nos aperfeiçoe — pois, como acentuou Jesus, o Cristo: "tudo é possível 
àquele que crê", sobretudo, quando alinhado 
a princípios que já nos mostremos 
capazes de sustentar 
e viver! ⁠

... nosso Criador
jamais foi e tampouco será
um inflexível juiz ou ferrenho algoz
de nossas desfocadas precipitações — 
mas a fonte de misericórdia que nos
reabilita mediante a graça
dos recomeços!

... somos passivos
consumidores dos mais vis 'efeitos',
no entanto, sem jamais nos debruçarmos
sobre suas 'causas' que, sensatamente,
reconhecidas e evitadas, nos poupariam
dos mais absurdos perrengues
e desilusões!

... o chamado
senso de superação
é luz que nos oferece o destino;
uma espécie de sexto sentido
que nos imuniza do
conformismo!

... um 
paradoxo assaz curioso: 
não há como mudar o que somos
sem que primeiro, honestamente, 
aceitemos quem na verdade
somos!

... sem base
e sem freios, não
se chega a lugar algum!
Em suma: não moderamos
nosso próprio
destino!

... a desonestidade intelectual
dispensa o mínimo talento — qualquer um,
a seu gosto, pode gerá-la e propagá-la...
A coerência, no entanto, exige talento, 
abnegação e originalidade
para que transpareça
e reverbere!

... no fundo,
somos não somente as vítimas, 
mas os originários algozes dos nossos 
próprios infortúnios... E na justa ciência 
de tão factual dualidade íntima reside
ônus que nos permite desassociar o
que nos constrange das escolhas
que nos depuram!

... o que, 
por vezes, te provoca 
é o que, em verdade, te desperta 
e aclara — e, mesmo que repudies tão indigesta intromissão, ela surge para te
lembrar de que, não obstante os haveres 
que te propicia o mundo, estás fadado 
aos voos mais altos e 
expansivos!

... aquilo
que rotulamos como
privações materiais e culturais,
em nada serviu de 'escora' àqueles que,
de posse de idônea autodeterminação,
tornaram-se prósperos — mas, como
um desprezível artifício daqueles
que as exploram e
perpetuam!

... quando
um princípio se revela
bem à frente em relação ao
nosso discernimento, na verdade,
é o nosso discernimento que
está atrasado em relação
a ele!

... reconhecer
nossos erros, é, sobretudo, 
um favor que prestamos a nós 
mesmos — um primeiro passo no
 reencontro de quem, via de regra,  
profanamos: nossa integridade
como espíritos!

... quando diretos, 
em vez de indiretos — tanto
em nossas relações quanto em
nossas reservadas ponderações e
vereditos — economizamos ao menos
uma vogal e uma consoante...
Uma previdente postura em tempos
de vacas magras de sensibilidade
e empatia!