Andre guide
...inventou uma palavra nova, mas de significado antigo, do tipo que mantém alma a salvo e o corpo em perigo. “Sonhecer”, é conhecer alguém ou algum lugar através dos sonhos. Não te conheço pessoalmente, mas te “sonheci” essa noite.
VOO DE SILÊNCIO
Fico a pensar
e tudo ecoa em pedras
Pedras que são poesia
sólidas, de líquida dureza.
Então o amor
derrete em duro líquido.
Minha mão não traça
mais versos de amor,
que antes vazavam do peito
e tomavam tua alma,
tua alma com letras tristes.
Hoje, embora tristes
Não vibram para alcançar
teus ouvidos
que eram violados e possuídos
pela minha língua,
antes de possuir teu corpo
A flor nasceu sem perfumes,
Pois foi picada por répteis
com asas feitas de pedaços
de pântanos.
Suas pétalas caem
em pó que cobre meu rosto
e cega meus olhos.
Vivo na sombra
que me produz em gesso.
A tenho moldada na brisa
da manhã do orvalho frio
onde a relva benze meus pés,
pés que comem as distâncias.
Busco teu rosto
na distância dos trovões
que pousam nos campos
agarrados ao vento
tocando o lábio da noite.
Os gritos da escuridão
estremecem o cheiro
úmido do chão,
mas a morte persiste
transpassando os dias.
Minha língua
não tem paladar e a tristeza
é não poder mostrar-te o campo
após a chuva cálida
mas apenas dar-te a dor
de um punhado de argila
para dissolver n`água.
Colheria areia do céu
Para escorrer entre teus dedos.
O clarão ao iluminá-la
Não diminui minha tristeza.
Escuto as fontes frescas
que cantam moldando
sua passagem
entre canteiros de margaridas.
Os pombos brancos
Perdidos entre nuvens
Num lençol tingido de vermelho.
Aqui está a mão lançada
no crepúsculo
Não consigo alcança-la
Tarde! Tarde eterna!
Sem revoada de pardais,
sem o sol se por,
sem luz e sem sombra.
O tempo acabou
e a espera continua
acreditando poder
enfeitá-la de amor.
Um amor que insiste
em perfumar a eternidade.
Não sofra se minhas lágrimas
deitar sobre teus seios.
É assim que nós dois
fizemos nossos caminhos
por entre pedras e flores.
Hoje resolvi busca-la,
não para aproximar-me
do teu corpo,
mas para percebê-la
no pulsar dos corações
que habitam num único peito.
Aprender a lição de pouco
chorar e muito sofrer.
Um voo de silêncio
levando-me em passeio
pelo mundo de sonho,
um sonho de corpos,
entrelaçando de imensidão.
Desejos diversos,
desejo que não acabam
e existem nas lembranças
do teu corpo entregue
as minhas mãos imundas
que tingem de pardo
a brancura do teu ventre.
Mas o sono desfez-se
E restam os fantasmas.
Vejo que os sonhos
não são meus,
porque a noite os levam
os dissolvem e os destroem.
Uma estrela acaba
de deixar o firmamento
e a escuridão se faz maior
como um imenso sepulcro.
Eu sou pedaço
Para estar aqui e ali,
Tenho salvação dividido.
Estou livre e preso
E vou esquecendo do nome,
Atravessando o jardim
Repleto de suas flores.
Tenho apenas o sol para olhar e amar.
Tenho a vida, mas não tenho vivência.
Tenho seu olhar e não tenho nada.
Tenho o seu amor mas não como eu quero.
Tenho tudo e não tenho nada.
Quando alguém me ofende eu uso a minha tranquilidade natural
pra deixa quem me ofendeu irritado e eu calmo como sempre
Sorrir vale a pena só por prazer, só para enganar os outros e pior a nós mesmos? Mas como se o sorriso é o choro da alma. Não sou triste, sou claro, choro de prazer, choro de alegria, choro por ensinar e mais por aprender, choro por você... porque a vida não é só alegria e quando me ver sorrindo saberá que realmente estou feliz.
Um dia uma estrada vou pegar
Sem olhar pra trás,
Sem arrependimento
Seguirei meu caminho sem suspirar
Pois conto com a coragem,
Não com o lamento
Essa certeza,
Sem mesmo saber onde chegar
Às costas,
Vai ficar todo o sofrimento
O BOM POETA
O bom poeta gosta de mediar
A luta entre a pena e a espada
Não cala nem procura se emendar
Quando exagera ao contar sua toada
O bom poeta conhece os anseios mais quentes
E a natureza humana vive a espreitar
Entre suas paixões e desejos ardentes
Sua mente afiada cria vida ao recitar
Esse poeta que endurece no sofrimento
Sabe rir, entre a lágrima e o lamento
E derrama no papel sua tristeza
Ele goza, esse poeta, de merecimento
Se seus versos envolvem por um momento
Revelando a todos sua destreza
AA
Só um dia mais
Um de cada vez, uma vez prometi
A mim mesmo que um por vez, ia viver
sem olhar pra trás e nem pra frente
Um dia de cada vez
Prometi que hoje ia viver só o hoje
Só um por vez
Sem pressa e no tempo certo
Os problemas iam posar na fila pra resolver
Sem colchão e nem cobertor
E porque? Porque o sorriso do amanhã
Me olhando, obsceno, acenando
Me assustava e torturava.
Optei por uma dieta mental
Esse apetite pelo amanhã vai ficar
Nas rédeas curtas
Me chamaram de louco, devo mesmo ser, pois criei um grupo novo
Confesso: agora participo do AA
Os Ansiosos Anônimos
VAIDADE
Vaidade das vaidades
Dizia o pregador
Se tudo é vaidade
Só aumenta nossa dor
Nós nos sacrificamos
Por imensas ilusões
Sempre nos entregamos
A viver nossas paixões
Construímos castelos
Vamos ao fundo do mar
Adeus gestos singelos
Sentir, amar e chorar
A vida vai passando
Esquecemos de viver
Tumores, se criando
Preenchendo nosso ser
E quem escolheu viver
Sem seguir a boiada
Noutros olhos pode ver
A crítica velada
Vaidade das vaidades
Dizia o pregador
Se tudo é vaidade
Esse é o seu valor?
TEMPLÁRIO PERDIDO
Como enfrentar nossos demônios?
Criaturas terríveis e imortais
Que dia a dia matam os ânimos
De quem disse não voltar atrás
Não há mais fé, religião, nem magia
Que traga paz à alma ferida
Essa luta que travamos todo dia
Verter o sangue e tirar a vida
Morte, luta, sangue e vitórias
Com sabor de derrotas, cicatrizes
Vim em busca de honra e glórias
Nos olhos dos mortos: que fazes?
Nem em livros sagrados e profanos
Encontrei esperança e explicação
Tudo o que fazemos e planejamos
É derramar o sangue de nosso irmão
Não acredito mais naquelas palavras
Que Deus, em sua imensa sabedoria
Inflama nosso ódio, tal qual larvas
Que corroem e violam com rebeldia
O que pode justificar, meu Senhor
Tanta ânsia de sangue, tanta traição
Seu sumo sacerdote, pra mim traidor
Manipula nossa fé, pra sua ambição
Perdoe-me Senhor, se me levanto
Questionando suas ordens, do altar
Não encontro mais nenhum acalanto
Não consigo mais matar e pilhar
Minha alma triste chora, padeço
Vou-me embora, me esconder de Vós
Chorarei minha tristeza e me despeço
Talvez um dia perdoem todos nós
OLHOS DE TIGRE II
Existem pessoas especiais
Que quando sentem pressionadas
Focam no intento ainda mais
E não se sentem mal, derrotadas
Têm essa certeza tão maluca
Sem sentido e nem evidência
Parece até gente caduca
Os tombos viram experiência
Eles têm esse querer insano
De fazer tudo, enfim, dar certo
Apanham, sofrem, ano a ano
Cuidado! Melhor nem ficar perto!
Predadores, nessa atitude
Um ar de superioridade
Talvez seria uma virtude?
Têm confiança sem falsidade!
Pessoas com um olhar estranho
Impressiona, mas não denigre
Não gostam de seguir o rebanho
Carregam esse olhar de tigre
OLHOS DE TIGRE
Pessoas firmes, tão especiais
Que vibram de forma diferente
Têm força viva, tal qual animais
Energia estranha se sente
Pessoas que apanham da vida
Na morte não são afortunadas
Almas tristes tal qual ferida
Sangram, doendo, sofrem caladas
Mesmo assim, com tantos percalços
Sem perder a presa, reconheço
Seus dentes rangendo, pés descalços
Fronte erguida, pagam o preço
Levam a vida sempre fluindo
Não param na dor, nem na trapaça
A tempestade, fitam sorrindo
Olhos de tigre fixos na caça
O PINTO REVOLUCIONÁRIO
Pinto que pia
Pia esse pinto revoltado
Pia e cria
Revolta quem manda no pecado
Pinto coitado!
Revolta quem manda no pecado
Pia safado!
Provoca piando e calado
Pinto cuidado!
Provoca piando e calado
Pia seu brado
Piando acaba ajaulado
Pinto calado
Piando acaba ajaulado
Foi alegado
Sumiu esse pinto, algemado
DESTINO FEBRIL
Engraçada e formosa criança
Sem cultura nem bonança
Esquece-se de sua herança
E o futuro? Traz a cobrança
Ah! Como és infantil
Vê novelas e crimes mil
Apaixonado pelo ardil
Criando um futuro vil
Pobre de cultura e temperança
Rico de falácias e lambança
Vive a vida na lembrança
De que sexta tem festança
Assuma o destino febril
Seja janeiro, seja abril
Transforme o país gentil
No que sonhamos, o Brasil
