Juan ramons jimenez
AMAR
Amar envolve tantas coisas,
Amar facilmente me deixa em coma;
Coma induzido,
vejo todos os dias se repetindo.
Amar é uma das coisas mais belas,
Amar é andar sobre o muro,
Amar é saber o momento,
Momento em que se deve parar.
Amar requer entendimento,
Controlar o amor é difícil,
Amar faz sentido;
As vezes dói amar,
E isso me alertar a parar.
Dois corações não se quebram de uma vez,
Um sempre sofre primeiro,
Um carrega a dor,
A dor de amar primeiro.
INÍCIO
Desprezavam meus sentimentos;
Me tratavam como máquina;
Colocavam-me em potes,
E os abriam na hora errada.
O oxigênio se esvanecia com o tempo;
O medo tornava-se meu aconchego;
E a precipitação do infarto,
já era de se acontecer.
Fingiam se importar com a minha morte;
Quando na verdade choravam pelas minhas mãos;
Naquele momento eu já não podia;
executar nenhuma ação.
A bolsa que me protegia, estoura;
Viver sem oxigênio,
Já não me importa;
O mundo me espera;
A terra me afoga.
Eu posso ser feliz,
e por não querer,
não devo tirar de você a sua felicidade...
Por que devo julgar tanto o seu olhar!? se é o meu que não reluz as estrelas.
Por que a brasa da minha fogueira cessa todos os dias? Por que a ampulheta do tempo, se tornou a minha praia!?
Por que as minhas nuvens sempre se tornam à precipitar? Por que eu não te deixo ser feliz? Se é o meu mar que não possui ondas.
EU
Eu costumava usar muito "eu",
Eu iniciava as frases com o "eu",
Eu lutava por eu,
Eu vencia por eu,
Eu me afundava pensando em eu,
Eu me perdia sendo eu,
E pelo excesso do meu eu,
Agora posso ser somente eu,
Mas viver no meu eu é deprimente,
E a cada dia eu me enterro no meu eu.
A CRIAÇÃO DA FACA
Eu inventei a faca, nutri expectativas sobre a faca, acreditei que ela seria única, e a deixei existir.
Um dia, enquanto eu caminhava pela rua, tropecei em um homem irritado, manchei toda a sua camisa de café. O homem tirou dos bolsos o que eu não esperava, o objeto era uma faca.
Ele veio em minha direção, sem que eu pudesse explicar o que havia acontecido, pegou a faca e afundou diversas vezes em meu peito, até que o barulho dos gritos ofuscasse seus atos.
Nesse dia, a faca que criei foi a responsável pela minha morte, pois do que vale o bom coração na intenção de progredir, entregar nas mãos de qualquer um, o fruto da sua criação.
SENTIMENTOS
Jaz o ouro do pó da terra, onde as palavras não podem expressar sentimentos. Jaz da água tanto sentimento que palavras são poucas para nós dois. Jaz o medo do amor; medo do final feliz; medo de gritar ao mundo, aquilo que sempre quis. Se eu julgo os teus olhares, encontro-me no paraíso, se jaz aqui o vento inquieto, amarei-te eternamente, sendo com ou sem teto.
Somos como o início e fim do dia, tão parecidos e, ao mesmo tempo, tão distantes. Somos a chuva que outrora desfaz a seca, e por momentos causa destruição. Temos o dulçor do mel e o poder na (diabete), somos o dia chuvoso em pleno sol; o calor das cobertas no inverno; a irritação dos que anseiam o pior.
O amor nem sempre é justo, e quem disse que seria? Deveria acreditar nas improváveis da desdenha!? Aposentar-me na loucura do ser único? Deveria abraçar-te e encerrar todo esse amor, pois ele, não é justo.
FAMÍLIA CONSTELAÇÃO
Juntos, as estrelas brilhavam, formando a família constelação. Quem olhasse o céu pelo norte, encontraria as mesmas estrelas daqueles que olharam pelo sul, pois, há coisas que a distância, o tempo, a dor, o caos, e todas as coisas que remalinhem agora a tua mente, não são capazes de separar. Houve um dia, em que certa estrela observou uma luz cair do céu, achou haver perdido um membro de sua família, mas nunca houve de existir estrelas cadentes, aquilo que se via era apenas meteoro. Nascemos, e é preciso que cortem o cordão umbilical, mas há laços que nunca hão de separar.
FORMIGA
Você era uma das formigas mais formosas que se podia encontrar naquele lugar. Por vezes te vi julgar a aparência dos ratos, girafas, rinocerontes e tantos outros animais... Você é uma formiga linda! Mas, seu interno te tornou pequena. Do que adianta a mais rica beleza, se somente aqueles que estão no mesmo patamar de visão que você, conseguem enxergá-la. Quão grande é a riqueza que vêm de dentro, e transborda a beleza da qual não se ver, apenas sente.
FILHOTE
Vi tanto amor nos olhos daquele filhote que me ponho a questionar se realmente sei amar. O seu acalento abraçou-me no mais profundo do que sou, o seu amor curou a minha alma. Por um momento te perdi; meu mundo desabou! Pois, sabia que não encontraria outro ser, que mesmo irracional, me amasse tanto quanto você amou. Por sorte, pude te reencontrar, e as lágrimas que passeavam pelos meus olhos declaravam que aquele amor, só havia crescido mais e mais. Como posso amar tanto um filhote que nunca existiu? Como posso sentir saudades daquilo que nunca se fez carne? Como posso desacreditar na pureza do amor, se somente o amor me põe a repousar.
O PODER DO AMOR
Em um mundo julgador, havia uma mulher, líder de uma aldeia. Ela não julgava roupas, aparências, estilos musicais e tantas outras coisas superficiais que o mundo afora apontava cruelmente. Como era bom estar ao lado daquela mulher; todos queriam visitá-la. Com ela, eles se sentiam bem para serem que são, pois sabiam que não haveria julgamento. Ali não existia idolatria! Eles simplesmente amavam aquela companhia, que por sua vez, amava os amar.
Um dia ela se foi, mas seu amor ficou no coração de cada um que a visitava frequentemente; esses, honraram a sua morte abraçando o mundo, assim como ela o abraçava.
PAPAGAIOS
Sempre admirei muito os papagaios. Amava as cores vivas, seus olhares profundos, e a sua fiel inteligência. Ao contrário dos outros, ele diferia, era especial, sabia falar. Por muito tempo admirei somente a forma em que se expressava. Ele sempre ME dizia o que EU queria ouvir, repetia as minhas palavras exaltando MEU ego, chamava por MIM a todo instante. Com o tempo fui deixando a infância, e como consequência comecei a questionar as falas e o comportamento raivoso do meu papagaio; toda vez que lhe dizia, "Por que você está me tratando dessa forma?", ele repetia a mesma fala, mas eu era criança demais para entender, e sempre me culpava. O papagaio que muito admirei quando criança, para mim já não fora mais o mesmo, mas ele era, ele sempre foi assim.
A VISITA DA MORTE
Às vezes a morte grita nos meus ouvidos, por sorte, já não me assusto mais. Tornou-se comum para mim, gritar, buscando ofuscar o grito do fim. A morte não tem feição! Aparece sempre quando estou sozinho, me oferecendo seu abraço em meio a carência, e por mais doloroso que seja recusar, nunca o aceitei. Vivo nessa torre como Rapunzel, esperando que pelos meus cabelos alguém me salve; a verdade é que há anos aguardo esse momento, mas é difícil encontrar alguém! Eles nunca pensam que quem está em cima precisa de ajuda para descer.
SORVETES
Te avisei que minha sobremesa favorita era bolo, com uma xícara quente de café, e você mesmo sabendo, trouxe-me sorvetes gelados e sem sabor. Não fui egoísta em esclarecer, pois, meu estômago não aceita nada frio, e você sabia disso, mesmo assim os trouxe outra vez. Por muito tempo aceitei machucar a mim mesmo a ter que recusar o teu sorvete, mas você não teve a sorte de me encontrar assim dessa vez. Machuca ver a tua indiferença, assim como me machuca ter que agir da mesma forma. Se ao menos o bolo não for trazer-me, não me venha com sorvetes gelados.
HORMÔNIOS
Apenas falando, você me injetou serotonina. Fiquei louco de alegria e minha única vontade era de partilhá-la com o mundo. Assim o fiz, compartilhei, compartilhei, compartilhei, até o momento em que o efeito da injeção passou, e eu me vi carente do teu afeto. No dia seguinte você não me aplicou serotonina, fiquei triste, e mesmo sem intenção, compartilhei... Custou entender que meu humor já não pertencia mais a mim, e sim ao reflexo da forma que você me tratava. Bobamente acreditei que tudo era reciprocidade, quando somente perdia-me em ti, a ponto de, agora, não saber quando realmente estou feliz.
TREM DAS 05:00AM
O dia mal havia raiado e você estava lá, acordada, na estação de metrô, esperando por ele. Tantos "bom dia" lhe foram dados, visto que todos ali já te conheciam. Ninguém nunca entendeu o porquê de sempre chegar no mesmo horário, sentar muitas vezes no mesmo lugar, e não fazer nada, além disso. Você esperou tanto por ele, e ele sempre esteve lá, vivendo como sempre vivia. Você desmarcou compromissos para encontrá-lo, mas quem disse que ele abriria mão dos próprios compromissos? Quem disse que ele retrocederia a própria vida por você?! Você o amou e esperou, e agora estava ali, entrando no primeiro vagão daquele trem, pois percebeu que devia amar alguém, que pudesse te encontrar na mesma estação.
AMOR CEGO
Uma vez disseram-me que o amor é cego, acreditei em parte; outra vez falaram que ele estava cego de amor, e por mais contraditório que isso represente, eu acreditei sem hesitar. Ao contrário do amor, há pessoas que cegam seus próprios olhos, pois assumir que está amando outro alguém, é difícil demais, e quebraria toda ética interna do bom samaritano. Então não, o amor não é cego! Ele é puro, verdadeiro, envolvente! Mas sim, alguns estão cegos de amor.
365 DIAS
Nosso amor contrária toda lógica existente. Somos como a lua cheia que ainda aparece durante o dia, como o vento no dia de calor. Já me perdi tantas vezes entre te amar ou não, que já não sei ser constante. Nosso amor é sobre o chocolate que um dia perderá sua validade, mas quem sabe não estejamos dispostos a enfrentar uma dor de barriga, a troco do nosso encontro.
A UNIÃO DOS PONTOS
Na escrita posso entregar os meus sentimentos de bandeja, ou, camuflá-los a ponto de causar dúvida. Escrever me faz livre, dado que por mais que tentem, nunca saberão a minha real dedicatória, sem que eu os conte. Algumas vezes me faltam palavras, pois comigo não aceitam ser tratadas de qualquer maneira, nem unidas em prol de mágoa. Sobre você, elas nunca terminaram o pensamento, apenas me trataram como distração, fugiriam deixando em aberto o fim, foram um verdadeiro espelho seu, mas não se turbe a mente, o ponto se depôs a ficar, e se agora te escrevo, significa que...
CICATRIZ
Desde criança sempre gostei das minhas cicatrizes! Nunca lhes olhei com dó ou piedade, pelo contrário, as amei muito. Não amei pela dor que me foi causada, mas por cada história ali contada.
As cicatrizes que agora habitam meu cérebro, trazem consigo a dor, mas também as memórias de dias felizes que nunca se hão de partir. Para cada curativo, lhe dedico o viveram felizes para sempre! Nem sempre juntos, mas felizes sempre.
