William Frezze
A Justiça é tão procurada nos tribunais que, se continuar desaparecida, será preciso abrir um inquérito.
Ninguém volta atrás. Há apenas pessoas suficientemente habilidosas para chegar ao mesmo lugar e jurar que sempre estiveram indo naquela direção.
Há militantes que consideram ofensivo dizer que todas as mulheres são iguais. Sobre os homens, entretanto, só conseguem se expressar no plural.
De tanto combater o homem como medida de todas as coisas, as feministas conseguiram transformá-lo na causa de todas elas.
A igualdade é uma causa magnífica. Infelizmente, alguns de seus defensores só a consideram justa quando a desigualdade lhes é desfavorável.
A misandria aperfeiçoou o sistema judicial: aboliu o inquérito, dispensou as testemunhas e tornou o réu culpado desde o ultrassom. A cor azul no chá de revelação é o anúncio de mais um opressor do patriarcado.
A feminista considera toda a discordância masculina uma prova irrefutável de opressão. A militância resolveu definitivamente o problema do debate: já começa vencedora.
Para certas feministas, a mulher que concorda com elas é emancipada; a que discorda foi manipulada por um homem. Criaram, assim, uma curiosa teoria da autonomia feminina: a mulher é livre para pensar por si mesma, desde que pense como elas.
Alguns combatentes do patriarcado têm tanto horror às generalizações que reservam todas as suas para os homens.
As feministas não querem abolir os estereótipos. Querem apenas a patente: preconceito contra a mulher é opressão, já contra o homem, progresso.
Há quem exija que o homem desconstrua sua masculinidade, mas conserve intactos os deveres masculinos que lhe são convenientes. A emancipação, nesse caso, termina onde começa a conta do restaurante.
Para a feminista, se o homem discorda dela, tenta silenciá-la. Se concorda, é paternalista. Se argumenta, oprime. Se escuta, condescende. Se fala, interrompe. Se cala, é cúmplice. Se se defende, é narcisista. Se admite o erro, manipula. Se pede desculpas, faz-se de vítima. Se não pede, é arrogante. Só lhe resta não ter nascido. Mas até isso seria abandono de responsabilidade. E, se, ao nascer, pedir desculpas por ter nascido homem, será acusado de protagonismo masculino.
Afinal, até para se desculpar, o homem insiste em tomar a palavra.
O discurso feminista moderno descobriu que não precisa demonstrar que um homem está errado. Basta demonstrar que é homem.
O feminismo conseguiu uma façanha: transformou a hostilidade contra metade da humanidade em prova de superioridade moral.
As feministas acreditam que criticar uma mulher é misoginia e criticar um homem é consciência social. É uma admirável igualdade de critérios, desde que não se examinem os critérios, é claro.
Certas feministas conseguiram uma façanha: emanciparam a mulher de tudo, inclusive das consequências das próprias escolhas. Ela prefere admitir a existência de uma conspiração patriarcal milenar a reconhecer que fez uma besteira na terça-feira.
O pai ausente é um irresponsável. O presente, um inconveniente. Para certas pessoas, o pai ideal é aquele que desaparece sem deixar de pagar, é claro.
O homem que não participa da criação dos filhos é um pai ausente. Quando participa, é controlador. Se reivindica convivência, é possessivo. Se exige participar das decisões, é abusivo. Se desiste, confirma o abandono. A paternidade moderna é uma instituição curiosa: o pai deve estar presente para pagar, ausente para decidir e disponível para ser culpado. E se reclamar, aplica-se a perspectiva de gênero.
Há quem defenda a guarda compartilhada com uma ressalva: as decisões também serão compartilhadas, assim que deixarem de depender de quem as tomou.
