Sandro Paschoal Nogueira
Amor de mentiras...
Feito de promessas impensadas...
Enquanto m’enganava a esperança...
Sonhos de olhos abertos...
Entre idéias e espíritos que pairavam...
Entre o lá e o cá...
Nas ansias mortais e das angústias que palpitavam...
Errante, ao turbilhão dos ventos...
Houve perfumes d’amor...
Houve doces venenos d’alma...
Entre destinos que já não me oferecem o acaso...
Razão tive, de viver bem magoado...
No duro aprendizado fiz-me escravo...
Ceguei-me...
Diante tanta ansiedade...
E desse que era meu já me não lembro…
Labirinto de um cego encantado...
Que a mim Deus então me salve...
De incômodos, de penas, de cansaços..
Desse sonho secreto e fascinante...
De meus olhos buscando os teus por toda a parte...
Sandro Paschoal Nogueira
Ele não bebe pra esquecer,
bebe pra lembrar do desejo,
cada gole é um lampejo
do que insiste em acontecer.
O olhar promete e não fere,
Deixa rastro no chão.
A noite sussurra pecados antigos
e ele brinda aos inimigos
Não pede amor, nem perdão,
oferece presença inteira
Boêmio não por costume...
Há corpos que são origem
do incêndio que ninguém assume.
E no fundo do copo escuro
não mora o fim, nem a fuga —
mora um homem que seduz
sem pressa, sem culpa
Na luz fria da calçada,
um olhar firme, sem pressa,
o tempo passa — não pesa...
Há silêncio que revela
mais verdade do que a brisa.
Entre flores da camisa
e o brilho discreto do anel,
O copo erguido não é fuga,
é brinde à própria história...
No rosto, a noite repousa,
não como sombra ou cansaço,
mas como quem fez do passo
um verso que não se ousa.
Quem olha vê só a imagem,
quem sente entende o sinal:
há homens que viram poema
sem pedir permissão ao final.
Sandro Paschoal Nogueira
Saio sem mapa...
Sem promessa no bolso...
A noite aberta...
Um talvez no olhar...
Não espero milagres...
Só deixo o vento decidir onde vai dar...
Levo expectativas leves, quase nada...
Pra não pesar o passo...
Nem o coração...
Se vier riso, ótimo.
Se vier estrada, que seja canção...
Talvez um encontro...
Talvez o vento...
Um bar qualquer...
Conversa sem fim...
Ou talvez apenas um simples momento...
Vou assim: “vamos ver o que acontece”,
Sem cobrar do mundo...
Sem pedir um sinal...
Porque às vezes é quando a gente não espera...
Que a vida resolve surpreender no final.
Sandro Paschoal Nogueira
O LOBISOMEM DE TAMANDARÉ
Pé na areia, coração disparado,
Passo apressado, olhar assustado,
Dizem que o uivo corta a escuridão,
É o lobisomem solto na escuridão.
Trova antiga que o povo repete,
Entre um gole e outro de aguardente:
“Se ouviu uivar, não fique a olhar,
Corre pra casa, vai te pegar!”
Metade homem, metade fera,
Maldição antiga que nunca espera,
Quando a lua cheia vem clarear,
Em Tamandaré ele sai pra caçar.
Mas há quem diga, rindo baixinho,
Que o medo é maior que o próprio caminho,
Pois o monstro vive mais no falar
Do que nos passos que vão te pegar.
Ainda assim, se a noite chamar,
E o arrepio subir sem avisar,
Reza, corre e não olha pra trás…
Vai que o lobisomem corre mais!
Quando a lua sobe mansa no mar,
Tamandaré começa a se escutar.
Não é só uivo, não é só temor,
É a alma chamando quem se esqueceu do amor.
O lobisomem não corre na rua,
Ele desperta quando cresce a lua.
Mora no fundo do peito humano,
No instinto antigo, no medo arcano.
“Vai me pegar”, diz a mente em aflição,
Mas quem persegue é a própria emoção.
É a sombra pedindo para ser vista,
Não como fera, mas como conquista.
Metade luz, metade escuridão,
Somos todos essa divisão.
Homem e bicho num mesmo olhar,
Aprendendo quando é hora de uivar.
Se você foge, ele cresce em poder,
Se você encara, começa a se dissolver.
Pois o lobisomem, ao se revelar,
Quer apenas ensinar a integrar.
E quando a lua enfim se deitar,
Você entende sem precisar falar:
Não era ele que vinha te pegar,
Era você chamando pra se libertar
Sandro Paschoal Nogueira
Malandro tem cheiro de noite,
de rua quente, de tentação.
Não toca, mas deixa nos dedos
a memória da intenção.
✨
Quem olha sente o risco,
quem fica perde a razão.
É calma que acende incêndio
sem pedir permissão.
✨
Ele dança parado,
provoca sem se mover.
O desejo se oferece
só de imaginar o que é.
✨
Não promete eternidade,
mas entrega o agora inteiro.
Quem cruza seu passo lento
nunca sai do mesmo jeito.
✨
Malandro não seduz —
ele deixa acontecer.
E quando você percebe,
já quis sem nem querer.
Sandro Paschoal Nogueira
Eu já vi rio secar da noite pro dia
Já vi corrente mudar de direção
Aprendi cedo com a água barrenta
Que quem endurece perde o chão
Eu não brigo com o vento que passa
Nem bato de frente com temporal
Tem hora que o silêncio é o caminho
E esperar também é sinal
Eu vou seguindo conforme a maré
Sem me perder do que sou por inteiro
Porque nesse mundo de pedra e vaidade
Quem força demais chega por derradeiro
Crocodilo que não abana o rabo
Morre afogado no fundo do rio
Eu aprendi a seguir com a água
Sem me perder do caminho
Eu fico quieto, mas vejo de longe
Eu sou do brejo, do tempo e da espera
Meu rumo é o rio quem vem ensinar
Sabedoria é saber esperar...
Crocodilo que não abana o rabo
Morre afogado no fundo do rio
Eu aprendi a seguir com a água
Sem me perder do meu caminho
Crocodilo que não abana o rabo
Morre afogado, pode acreditar
Quem quer viver muito tempo nessa vida
Tem que aprender a esperar...
Sandro Paschoal Nogueira
Não é a força da idade
que faz alguém florescer;
é viver com dignidade
e nunca deixar de crer.
Não é o rosto sem marcas,
nem a juventude fugaz;
são as lutas que embarcas,
e a paz que a alma refaz.
Os cabelos prateados
não anunciam o fim;
são capítulos dourados
que Deus escreveu em mim.
Há beleza na experiência,
há nobreza em prosseguir;
quem cultiva a consciência
sempre encontra um porvir.
Pois o tempo não destrói
quem aprendeu a amar;
quanto mais a vida corrói,
mais ensina a recomeçar.
E assim segue a caminhada,
entre a esperança e a luz;
uma existência honrada
é a mais bela que reluz.
Não se mede a mocidade
pela idade a aparecer;
vale mais a dignidade
e a vontade de viver.
Sandro Paschoal Nogueira
