Bem-assombrada Numa casa certeira Lá em... poeticos
Bem-assombrada
Numa casa certeira
Lá em frente a São José
Entrou senha-primeira,
mas não fez o seu café.
A casa pôs tapete,
mas ninguém quis pôr o pé.
E dentro do filete,
rachadura diz “quem é?”.
Bateu segundo nome,
Encantou-se, moradia.
E dentro do que some
Acostumou-se, mais-valia.
Disse que ali nada seu podia
Sem jamais ter feito coisa de
Decoração.
Alegou, bravura, falta de harmonia
Sem nunca, outrora,
Outr’adaptação.
Porta arrombada, entra outro vão.
Derrubou a casa, reforma a-temporal.
Acabou que desfez onde entrava o clarão.
Derrubou até mesmo parede estrutural.
Na rua vizinha número-cem, apavoravam
Quem se dispôs.
Casa-mal-assombrada, difícil ir também
Melhor-não, berrava outros dois.
Fim de tarde, noite, casa abandonada.
Sozinha, serralheira, se observou.
Batente bonito, curvilínea na escada.
Bate-se outra senha
Que se repousou.
Esse que sujava os pés sempre lá fora
E nunca usava o carpete ao adentrar.
Culminou na guerra de “Onde você mora?”,
Aos berros: “Casa porca!”,
Mesmo sem limpar.
De janela aberta, entrou a ventania
Casa recebeu planta que voou.
Pólen, ares, outra joaninha,
E ela não pensava
Em fantasma que assombrou.
Viu-se na vista, casinha-horizonte
Montanha bonita, parte do terreno
Numa Sevilha, fruta ao monte
Parte arrancada a fez ver aceno.
Não pelo desgaste, sim pela paisagem.
Lá na vilazinha, alguém disse.
“Que potencial, pena, coragem”.
E casa aprendeu a adorar velhice.
Numa sala, cachecol esquecido
No gabinete, blusa de frio.
Um conjunto teria surgido
Se não fosse o seu vazio.
Depois de tanto tempo,
com a pia já cansada,
entra ali moço servente,
como quem já não quer nada.
Põe-se no assoalho,
tira a meia, sente chão,
descansa o seu baralho,
na madeira onde põe grão.
E de tão calado, assim,
como quem diz,
fez flor lá no jardim,
fez marcação de giz.
Viu cadeira quebrada
no cantinho da varanda.
Casa viu fadada,
Ele viu ciranda.
Casa teve porta
Reformada, bem-vindo.
Uma nova horta
Foi-se construindo.
Numa casa sozinha, juntada, amada
Ganhou-se até porta d’onde ver sol.
Tornou-se obra de arte a cadeira quebrada.
Bem em um pedestal, rara com lençol.
Casa sem teto ainda tem o céu.
O senhor pensava enquanto faxinava.
Oh, meu Deus, caneta e papel.
Na mesa de trabalho, a casa descansava.
Vanessa Brunt
