Paulo Fernandes
Abandono
As flores estão pelo chão
Estáticas e frias,
Sem cor e cheiro estão
Esparramadas nas noites e dias.
No transeunte que passa,
Com alheio tom,
Num vai e vem sem graça,
Não existe nem um gesto que o deixe bom.
E as flores continuam pelo chão
Mortas, sem viço e sem nada
Vazias, sem luz na escuridão.
São flores sem alma, abandonadas.
Trazidas pelo vento, no vão
Dessas coisas cotidianas, sem alegria.
São apenas flores pelo chão,
Sem vida, sem cheiro, sem poesia.
02/setembro-2000
PROMETERAM FICAR MAS SOLTARAM A MÃO
No começo, era fácil. Ela chegou com passos firmes, prometendo que dividiria a carga. Falava que o caminho seria mais leve porque agora seríamos dois.
Quando o entusiasmo inicial esconde a distância da jornada, tudo parece simples. Tinha garra, tinha promessa, tinha vontade. Mas o tempo… ah, o tempo é implacável
A caminhada começou a pesar. As respostas fáceis não vieram. A vitória rápida se dissolveu na realidade de um esforço diário, exaustivo e sem prazo pra acabar.
E foi exatamente ali. Na primeira tempestade de verdade. Quando percebeu que a batalha ia demorar… o ritmo mudou.
O entusiasmo deu lugar ao silêncio. E, sem avisar, a mão que segurava a mesma corda… simplesmente soltou.
Ficar sozinho no meio do caminho dói. Não é só pelo peso dobrado nos ombros, é pela decepção.
Mas o abandono ensina uma lição sagrada: nem todo mundo foi feito pra maratona. Tem gente que só aguenta a foto da largada.
A luta continua. Sozinho, sim. Mas com a certeza de que a sua persistência vale infinitamente mais do que a empolgação passageira de quem foi embora.
