Rafael Benizio
Acho que a grande diferença entre mim e bons escritores é que, apesar de tudo, eles escrevem.
Eu faço muita cerimônia.
Silêncio. Tudo é processado melhor em meio ao silêncio. Dores; angústias; inseguranças; dúvidas; decisões; sentimentos intensos. Eu quero fazer do silêncio uma terapia. Eu quero me calar — por horas e horas. Eu quero me calar. Eu quero ficar de boca fechada. Eu quero calar a boca e que todos os outros também calem a boca. Eu quero exterminar todo o ruído e todo o barulho agressivo, estressante e que machuca. Eu quero apenas deixar o pensamento voar. Eu quero ouvir o que está aqui dentro; o que me tortura, mas também que me motiva.
Silêncio.
Ele alivia o barulho externo, mas estimula e concentra aquele que é interno.
Podemos ficar em silêncio e eliminar os sons que vêm de fora, mas e quanto ao que pensamos?
Esse é um dos principais motivos que explicam o porquê de ser difícil manter o silêncio: aquilo que pensamos, imaginamos, sentimos, lembramos, às vezes podem ser coisas turbulentas e complicadas de se processar.
E fazer isso em meio à amplitude do silêncio torna a experiência mais densa e profunda.
Nos lembra de quem somos; das nossas inseguranças; dos nossos defeitos; dos nossos fracassos.
Silêncio também é dor.
Silêncio também é espelho.
Se, um dia, finalmente chegar o momento em que me perguntem como eu realmente me sinto, talvez eu responda, de uma vez por todas, que sempre carrego comigo o sentimento de que fui jogado no mundo sem qualquer consentimento prévio meu, e obrigado, dia após dia, a me adaptar e aprender a viver de uma maneira minimamente organizada, inteligente, madura e com qualidade.
Digo talvez, porque nunca sei se um dia vou me sentir verdadeiramente confortável para decidir compartilhar uma experiência tão profunda, significativa e íntima minha com mais alguém.
Cada dia parece uma briga e um exercício diferentes para mim. Eu sinto a necessidade furiosa e quase insatisfeita de estar alerta a quase todo momento; a sensação de ter que estar preparado, para o bom e para o ruim. Em geral eu me sinto estressado, eufórico e, em especial, machucado: tudo ao mesmo tempo.
A vida machuca. Viver machuca. Viver dói. Estar vivo é não encontrar paz mesmo estando com ela, pois mesmo aí, lá no fundo, os pensamentos inconscientes e ruminosos continuam a passar e vibrar, lembrando que estar vivo é estar acordado — sentindo, processando, pensando, acumulando emoção, colocando-a pra fora — às vezes furiosamente e de forma quase agressiva —.
Talvez a minha resposta... seja apenas a de uma pessoa que reconhece o fato de estar vivo — e de como isso fascina e pesa, ao mesmo tempo.
O silêncio, os pensamentos, os olhares, a postura, aquilo que estiver, ou não, fazendo.
É um teste. Um teste de nós com nós mesmos. Um teste de tolerância própria e individual. Um teste de carregar o próprio peso, sem os outros olhares, sem ninguém observando, avaliando e opinando.
Como você se sente? Bem? Mal? Abra o coração e deixe que os sentimentos mais enraizados saltem para fora.
Está aí. Tudo está aí. Você os conhece, sabe o que significam (ou ao menos o que deveriam, verdadeiramente, significar).
É difícil, duro, cru e por vezes insuportável, mas, também, esclarecedor, maleável, criativo, e, talvez a parte mais importante, necessário.
