Se, um dia, finalmente chegar o momento... Rafael Benizio

Se, um dia, finalmente chegar o momento em que me perguntem como eu realmente me sinto, talvez eu responda, de uma vez por todas, que sempre carrego comigo o sentimento de que fui jogado no mundo sem qualquer consentimento prévio meu, e obrigado, dia após dia, a me adaptar e aprender a viver de uma maneira minimamente organizada, inteligente, madura e com qualidade.


Digo talvez, porque nunca sei se um dia vou me sentir verdadeiramente confortável para decidir compartilhar uma experiência tão profunda, significativa e íntima minha com mais alguém.


Cada dia parece uma briga e um exercício diferentes para mim. Eu sinto a necessidade furiosa e quase insatisfeita de estar alerta a quase todo momento; a sensação de ter que estar preparado, para o bom e para o ruim. Em geral eu me sinto estressado, eufórico e, em especial, machucado: tudo ao mesmo tempo.


A vida machuca. Viver machuca. Viver dói. Estar vivo é não encontrar paz mesmo estando com ela, pois mesmo aí, lá no fundo, os pensamentos inconscientes e ruminosos continuam a passar e vibrar, lembrando que estar vivo é estar acordado — sentindo, processando, pensando, acumulando emoção, colocando-a pra fora — às vezes furiosamente e de forma quase agressiva —.


Talvez a minha resposta... seja apenas a de uma pessoa que reconhece o fato de estar vivo — e de como isso fascina e pesa, ao mesmo tempo.