Lulena

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GRAMÁTICA DO CAOS
(Quando a vida ignora as regras da sintaxe)

O passado virou futuro num pretérito que se fez presentepontuadopor reticências e ponto de interrogação, esperando oavaldo ponto final, nessa jornada da vida semnexoelógicaverbal, o que resta é exclamação!

Lu Lena / 2026

CASTELO DE SONHOS
(O despertar do tempo)

A menina, até hoje,
brinca com sua boneca de pano.
Com seu sorriso indulgente,
desabrocha no jardim da vida
pétalas em flor...
Em seu castelo pueril,
observa agora, atentamente,
suas mãos enrugadas
e as marcas de expressão
no rosto que ficou...
Mas ela continua sonhando,
convicta, que o tempo não parou.

Lu Lena / 2026

O AVESSO DO DIZER
(O Verbo que o Silêncio Esconde)


Assim, vou vivendo entre sonho e realidade,
essa ilusão é como a bruma que borda o amanhecer,
e vivo assim em passos lentos caminhando sem saber...
tropeçando em letras para juntar o que não consigo dizer.
Se no meu silêncio mora a poesia desconexa,
aí eu pergunto:
— Palavras pra quê?


Lu Lena / 2026

SINFONIA DA TRANSIÇÃO
(Quando o tombo da menina revela a força da mulher)

Sorridente, ela corre pelo campo verdejante. Seu balão branco contrasta com o céu azul-anil e com as borboletas coloridas que dançam a sinfonia dos anjos. Mas a menina tropeça e cai. Eis que um anjo desce do céu e entrega-lhe um lencinho para enxugar as lágrimas dos olhinhos brilhantes. Nesse instante, sua alma retorna e acopla-se num corpo de mulher que, mais uma vez, desperta para a vida... E o balão? Continua flutuante em seus sonhos infantes.

Lu Lena / 2026

Inserida por Lulena

TERRAS SEM FRESTAS
(A arquitetura que o desejo não atravessa)

Não construa sonhos onde as muralhas do castelo já foram alicerçadas. Há solos que não aceitam novas sementes, pois as pedras antigas sufocam qualquer tentativa de jardim.

Lu Lena / 2026

O VOO DO SER
(Entre o sopro e a luz)

Sou como uma nuvem passageira,
Sem forma fixa, sem peso ou chão;
Voo livre que separa o tempo
da finitude.
Nesse toque divino me desfaço,
Desprendo-me das amarras de quem julguei ser,
Deixando o ego perdido
Para um novo sentido poder florescer.
E finalmente, dentro dessa luz, me encontro,
Pois no ponto mais alto me liberto
Dessa impermanência no infinito.
Lanço um suspiro ao campo estelar que sorri para mim,
No sopro que acabo de soltar.
É nos dedos de Deus que me encontro,
Como um verso escrito em pleno ar,
No silêncio que desata esse nó da existência
E me ensina o segredo de apenas estar.

Lu Lena / 2026

A JAULA


Ele inerte seguiu no canto. O cadeado enferrujou, o carcereiro partiu e ele já não lembrava como caminhar sem bater nos muros. A grade caiu.


Lu Lena / 2026

DIVAGAÇÃO DA POESIA
(O Despertar do Poeta)

Contemplo o anoitecer
e a vejo sempre ali…
fulgente, a lua minguante,
naquele vaivém como uma
gangorra; as estrelas
cintilantes fazem algazarra
num torpor pueril e brincam
com ela no céu…
As demais, sorridentes e
arfantes, dançam graciosas
com fadas e querubins, feitos
num esboço colorido e vibrante
em pedacinhos de papel…
Sinto-mecativo e emoldurado,
onde o vazio permeia meu espírito
num rebuliço de ideias…
Ou será apenas a ribalta
de um cenário infante?
Onde estão as palavras? Onde
está a poesia que emoldurava
a minha mente?
E o papel pergaminho, onde eu
fazia manuscritos soltos e os
soprava pelo caminho?
Onde andará a minha inspiração?
Serei eu umlírico solitário, orbitando
dentro de mim mesmo, nessa fugaz
divagação?
Ouço, agora, o tique-taque do relógio,
do tempo que me desperta desse
instante…
Onde, mais uma vez, o meu sonho
élúcido e eloquente.

Lu Lena / 2026

ORAÇÃO DA MÃE ATÍPICA
(O Caminho da Mansidão)

Que Deus derrame Suas bênçãos e fortaleça a fé em nossas almas cansadas. Que enxugue as lágrimas de nossos olhos — tantas vezes pesados de sono e de entrega — e nos conceda a paz de quem confia em Teu desígnio.
Recebemos como missão zelar por Teus filhos de luz, essências divinas de pureza e almas vítreas em corpos terrenos. Onde a caminhada é longa,que a paciência seja nossa guia e cada pequeno passo, um valioso aprendizado.
Pois Tu venceste o mundo e nos ensinaste que o amor tudo transforma. Nós, mães, O seguiremos com mansidão e coragem.
Amém!

Lu Lena / 2026

Inspirada pela estética densa, científica e melancólica de Augusto dos Anjos, esse foi um dos poemas mais intensos que já compus.

PAIXÃO PETRIFICADA
(O Transe das Almas de Rocha)

Insana nessa aventura fugaz e transitória, sigo nesta trilha desventurada…
Vejo revérberos de sombras desfragmentadas em histórias já sepultadas.
Lágrimas que borbulham dessa alucinação caótica; sinto que se deteriora esta minha capa carnal, perene e febril.
Ouço murmúrios deletérios e sussurros inaudíveis em minha memória desfigurada. Sinto frio.
Minha alma, por segundos, levita ébria, manchada em gotículas de suor que corta e congela. Num transe anímico, faz-se o registro: o coração — intangível e ao mesmo tempo uno — pulsa descompassado em vivências de outrora que nas lembranças rolam como pedras.

Lu Lena / 2026

Inserida por Lulena

O RASCUNHO DEFINITIVO
(A ilusão de que podemos passar a vida a limpo)

Quando nascemos, trazemos conosco um bloquinho de notas, um lápis e uma borracha.
Ao longo dos dias, vamos anotando nossa história. Algumas vezes corrigimos o que foi feito; outras, apagamos. Muitas vezes, arrancamos uma folhinha inteira para refazer o caminho, e assim o bloquinho vai diminuindo.
Chega um momento em que decidimos comprar um caderno bonito, bem encadernado e com muitas folhas, com a intenção de passar tudo a limpo. É aí que nos damos conta: o lápis já está gasto e sem ponta de tanto usar, e a borracha já nem existe mais...
Por quê?
Porque tudo já estava escrito!

Lu Lena / 2026

​CAVALOS SELVAGENS
(​Quando o relógio corre mais rápido que a coragem)

​O problema é que sempre esperamos que o outro dê o primeiro passo para que possamos dar o nosso; assim, vamos tropeçando em nossas próprias pernas enquanto o relógio voa, com seus ponteiros derradeiros num galopar de cavalos selvagens e misteriosamente imponentes, aguardando o apito para a corrida do nosso tempo.

​ Lu Lena / 2026

​PROJEÇÕES
(A percepção por trás da mente)

​Acredito naquilo que vejo...
mas, às vezes, não quero acreditar.
Percebo quão fugaz é crer em meus pensamentos,
ao notar que são apenas criações daquilo que penso.

​Lu Lena / 2026

JANELA DO TEMPO
(A brevidade dos ciclos)

Olho para trás e tenho certeza de que tudo passa; nada é para sempre. O dia pode ter sol, chuva ou ser nublado; são apenas dias que nascem e morrem, em constante metamorfose — ora casulos, ora borboletas. Simplesmente observo, calada, na janela do tempo.

Lu Lena / 2026

AROMAS DE MIM
(O despertar dos resíduos adormecidos)


Magnetizada pelo aroma das flores,
Sobrevoo os mais silenciosos recantos.
O meu pensamento vem delineando
E penetra no ar o meu encantamento.
Mais uma vez, deixo-me embalar,
Nesse sonho que mexe com o que sou.
Ele penetra fundo na minha alma,
Em busca de resíduos adormecidos.
Buscam também partículas indecisas,
Que, repentinamente, dentro de mim,
Se despertam em um novo pulsar.
São essências que ganham vida,
Misturas de um tempo guardado,
Em confusos aromas que surgem,
E que somente eu sinto.


Lu Lena / 2026

A ENGRENAGEM DO CAOS
(Onde a matéria se corrompe e o espírito silencia.)

​O homem destrói a matéria,
adultera a própria essência.
E a humanidade mergulha
nessa turbulência caótica.
​Surge, então, a pergunta:
— Pai, por que me abandonaste?
​Agimos como seres irracionais.
Desprovidos de fé,
fizemos do mundo uma paisagem morta.

​Lu Lena / 2026

​Nunca dependa de ninguém. Lembre-se sempre: você nasceu sozinho e morrerá só. Portanto, a única pessoa que precisa de você é você mesmo — e Deus.
​Respire fundo, olhe para o céu e diga:
— Mostre-me o caminho, Pai!


​Lu Lena / 2026

​MILAGRE EM CADA SUSPIRO
(A santidade da existência humana frente à impermanência)

​E, do sopro divino, uma vida é canonizada num corpo ignoto, que morre e renasce a cada suspiro nesse mundo imprescritível.

​Lu Lena / 2026

​O MALABARISMO
(​A arte de não soltar o céu)

​Com uma mão eu toco o céu e a outra eu toco o chão,
e assim vou seguindo fazendo esse malabarismo chamado vida.
​Suspensa pelo fio da esperança
e ancorada pela corda da realidade.

​Lu Lena / 2026

​ONDE O SOCORRO SE ENCONTRA
(Um pedido de cura para o mundo e um convite para olhar para o alto.)

Que Deus cure todas as doenças e direcione a humanidade de volta ao caminho da luz. Nos perdemos de tal forma que nos esbarramos, mas não nos encontramos mais...
​Mas que, no silêncio de uma oração ou na delicadeza de um gesto, possamos aprender a enxergar o outro novamente. Que o amor seja a ponte que nos resgate desse desencontro, nos lembrando que nunca estamos sozinhos enquanto houver fé no coração.

Lu Lena / 2026

​A ARTE DE SOLTAR AS ÂNCORAS
(​Entre o conforto da companhia e a liberdade do ser)

​Observei, olhando para o horizonte, o sol ao longe e pensei na lua. Mesmo distantes, nunca se encontram. Foi então que veio esta reflexão: como a presença do outro, aos poucos, pode nos fazer desaprender a caminhar lado a lado, sem perder o próprio eixo?
​Ser independente é garantir que, caso todos os outros partam — seja vínculo familiar ou não —, teremos a nós mesmos. Isso quer dizer que devemos ser livres e não depender de ninguém. Às vezes, essa dependência surge porque o outro facilita nossa vida e nós nos acomodamos. Passamos a nos aproximar, ou nos deixar aproximar, por essa escolha — ou melhor, por esse comodismo de estar sem agir.
​Essa conexão inconscientemente passa a ser: "por favor, me preencha, mas saiba que sou completo; caminhar ao seu lado me dá segurança, mas sei que um dia terei que me libertar". Porque, no fim das contas, nascer e morrer só nos lembra que somos essências únicas e responsáveis pela nossa caminhada. Afinal, a liberdade reside em saber soltar o que prende e permitir que flua, com leveza, tudo o que a vida nos entrega.

​Lu Lena / 2026

​A SINFONIA DO LABIRINTO ATÍPICO
(O canto da cigarra e o silêncio da exaustão)

​Entro nas redes sociais e a pergunta de praxe no feed: "Quais as novidades hoje?". Fico pensando... Pois então, são essas as novidades que não tenho. Por mais que eu tente buscá-las, elas evaporam em frações de segundo e tudo volta ao ponto de partida. É como caminhar por um labirinto de círculos ébrios, vazios de cor e de emoção — um percurso onde as olheiras cinzas e profundas moldam o caminho, marcas de noites de insônia e da exaustão de ver meu filho desregulado.
​Nesta tarde de sol escaldante de março, que parece sorrir ironicamente desse meu vazio existencial, sigo com as pernas estendidas no pufe da sala. No intervalo onde o autismo tira uma folga e o sono finalmente o venceu, fico atenta aos murmurinhos inaudíveis do mundo externo. Mas o que realmente preenche a sala é o zumbido na audição que insiste em parecer uma cigarra cantando.
​Essa é a minha única novidade. Não só hoje, mas todos os dias a cigarra insiste em cantar. Ela é o meu mantra de uma rotina atípica que não encontra início, meio ou fim. É o som do meu silêncio possível, o eco de uma exaustão que já faz parte da mobília. É nesse ínterim que a novidade acorda e sai do quarto; a cigarra se despede, o sol acena. As cortinas do palco se fecham e a rotina se abre.

Lu Lena / 2026

​O REVERSO DO ESPELHO
​(Um despertar inconclusivo)

​Folheando álbuns de recordações, fui resgatando épocas através de fotografias amareladas — algumas borradas, sem nitidez, carregando o peso de eras; outras de uma leveza que não consta nos mapas.
​Uma saudade estranha do que o medo me impediu de batizar, de passos que ensaiei e nunca dei, temendo que o chão fosse miragem. Recordações que marcaram histórias e esculpiram memórias.
​A nostalgia tomou conta de mim. Senti falta do que fiz acreditando no acerto, para depois descobrir que o destino ria noutra direção. É uma saudade feita de tudo e tecida com o nada; um desejo urgente de gritar enquanto a garganta dá um nó cego no tempo que ficou para trás.
​Em algum canto, a pureza da infância ainda observa. Enquanto seguro cada fotografia, em silêncio, a mulher que agora habita em mim — na maturidade dos fios brancos que teimam em dizer que o ciclo continua — decide, subitamente, sorrir e dançar entre as ruínas que se transformaram em alicerces. Tudo guardado ali, naquele álbum de retratos esmaecidos de outrora.
​Sinto saudade do que as mãos seguraram e do que escorreu pelos dedos. Saudade até do abandono, do que vivi e do que deixei morrer na beira da estrada. Habito a contradição exata entre o "sim" que me salvou e o "não" que me definiu.
​Entre um sorriso contido e uma lágrima que desce, recordo-me da pérola que eu desenhava na infância toda vez que a professora pedia um desenho do mar. Eu, automaticamente, pensava em uma sereia admirando uma ostra em suas mãos.
​Ao fechar o álbum e guardá-lo na caixa forrada de cetim lilás, olho pela porta de vidro. Os raios de sol refletem o agora, e a pergunta ecoa em minha quietude:
​O que, dessas lembranças, sobrevive em mim hoje?

Lu Lena / 2026

​POUSO EM GALHOS SECOS
(​A liberdade insólita de quem aprendeu a voar enquanto dorme)

​Quando adormeço, saio de mim e estendo a matéria no varal do tempo; a alma voa para lugares que minha realidade não habita. Sinto-me um pássaro livre, fazendo pouso em galhos secos que não quebram.
​Minhas asas se abrem libertas e meus olhos se fecham como cortinas de um teatro cujo espetáculo se chama vida. Ao voltar dessa jornada etérea, percebo: despertar é recolher do varal os sonhos que ficaram ao vento.

​Lu Lena / 2026