Lucci Santz
Eu sempre soube ficar.
Pelos outros.
Pela família.
Pelos amigos.
Pelas pessoas que estavam quebradas.
Pelas pessoas que não sabiam pedir ajuda.
Pelas pessoas que precisavam de alguém.
Mas ninguém me ensinou o que fazer quando sou eu quem está quebrada.
Talvez seja essa a grande descoberta:
Algumas pessoas gostam de você.
Algumas precisam de você.
Algumas dizem que amam você.
Mas poucas sabem permanecer quando você deixa de conseguir carregar o mundo nas costas.
Dor não grita sempre.
Às vezes,
fica quieta,
muda hábitos,
encurta abraços,
apaga vontades.
Depois, chamam isso de superação.
Não é.
É adaptação.
Um recomeço nem sempre chega acompanhado de uma grande descoberta.
Às vezes, começa com uma decisão simples:
Hoje eu começo.
E desta vez,
o passado não precisa autorizar nada.
Algumas pessoas não são feitas para ficar. São feitas para atravessar a nossa história, deixar alguma coisa em nós e seguir. E talvez aceitar isso seja uma das formas mais difíceis de entender que nem toda partida significa que o que vivemos foi menos verdadeiro.
'Enquanto o tempo não Decide"
Eu te esperarei,
não como quem conta as horas
ou implora ao tempo que não vá.
Esperarei como a noite espera a aurora,
sabendo que a luz, cedo ou tarde, chegará.
Não guardarei teu nome entre promessas,
nem farei do passado um altar.
Há amores que sobrevivem às pressas,
mas morrem quando alguém deixa de lutar.
Eu te esperarei onde ninguém me alcança,
onde o silêncio aprende a dizer.
Sem transformar saudade em esperança,
sem esquecer de mim para esperar você.
E se um dia teus passos encontrarem os meus,
não perguntarei por que demorou.
Talvez certos encontros sejam escritos por Deus,
depois que o mundo inteiro nos desencontrou.
Mas se não vieres, eu também partirei.
Não por falta de amor, nem por esquecer.
É que até quem espera precisa viver,
e há portas que o coração precisa fechar para sobreviver.
Ainda assim, se a vida te trouxer de volta,
se o acaso resolver nos aproximar,
encontrarás minha alma já sem revolta,
mas com espaço suficiente para te abraçar.
Eu te esperarei.
Não parada.
Não perdida.
Apenas vivendo a minha vida,
até que o destino decida
se você era chegada
ou apenas despedida.
Até quando alguém importa quando já não pode lhe servir?
Há quem ame a presença.
Há quem ame a utilidade.
O verdadeiro afeto aparece quando você já não pode oferecer nada e, ainda assim, alguém escolhe ficar.
Porque quem só permanece enquanto precisa de você não ama sua essência. Ama aquilo que você entrega.
Não é minha orientação que precisa de defesa.
É o preconceito que precisa aprender
que respeitar alguém não significa
inventar sobre ela aquilo que se quer temer.
A Arte de Refazer-se
Reconstruir não é voltar ao lugar
onde a ruína aprendeu a morar.
É olhar cada resto, sem se iludir,
e escolher o que fica, o que vai ruir.
Depois da queda, muda-se o mapa,
a voz já não pede, a presença não escapa.
Muda-se a língua, o jeito de falar,
porque quem se refaz aprende a se nomear.
Também muda o acesso, a porta, a janela,
nem toda presença merece a sala mais bela.
Existem distâncias que não são abandono,
são muros erguidos para proteger o sono.
Reúne-se tudo: silêncio e memória,
feridas, desejos, fracassos, história.
Nada é varrido para fingir perfeição,
até o que doeu ganha outra posição.
E então se percebe, no fundo da pele,
que mudar não é negar aquilo que fere.
É retirar da ferida o direito de mandar,
sem deixar que o passado escolha onde ficar.
Quem se reconstrói não volta igual,
troca o caminho, recalibra o sinal.
Não distribui chaves por medo de perder,
nem abre a própria casa para qualquer querer.
E se perguntarem por que tudo mudou,
não foi o mundo: foi quem se encontrou.
Mudou a linguagem, a porta e a direção,
porque reconstruir também é mudar a própria posição.
A língua é pequena, inquieta e precisa. Prova, toca, reconhece, provoca. É músculo que também carrega palavras, capaz de ferir com uma frase ou incendiar o silêncio com um único movimento.
Nem todo olhar
sabe te ver por inteiro.
Alguns amam
o que você faz.
Outros,
ficam pelo que você é.
Quando tudo o que você
oferece se vai,
o que fica...
é o que realmente importa.
E é nesse silêncio
que a verdade aparece:
nem todo mundo merece
a sua presença.
Mas quem merece,
nunca te deixa
em pedaços
Um “te amo” vale exatamente o que a pessoa está disposta a fazer quando amar deixa de ser confortável.
“Se um dia você não conseguir encontrar palavras, não conseguir me procurar, não souber por onde voltar... ainda existe uma coisa que pode me alcançar"...
🎵
O Eclipse Vermelho
A lua vestiu-se de vermelho
e mergulhou devagar na escuridão,
como quem guarda no próprio silêncio
uma antiga transformação.
Por um instante, cessou o brilho,
o céu perdeu sua direção...
e aquilo que parecia vazio
podia ser outra dimensão.
Há mudanças que chegam caladas,
sem anúncio, sem explicação,
fundem antigas partes quebradas
numa nova forma de inteireza e chão.
Quando a sombra deixou o céu,
a lua voltou a respirar...
não era outra, nem deixou de ser ela,
apenas aprendera a se transformar.
E talvez todo eclipse seja assim:
um breve mergulho no que não se vê,
até que o que estava disperso em nós
encontre um lugar onde possa florescer.
