Lilianmorais
Que a arte me consuma
até o limite do indizível,
até eu descobrir
o que ainda não sei de mim.
Lilian Morais
O problema não são as mulheres de hoje, mas o fato de elas não caberem mais na poesia de ontem. Ao falar delas, projeta-se um desconforto próprio e desloca-se a perda da própria centralidade. O discurso de Chico Boaco é datado.
Este trabalho nasce do meu desejo por Salvador. Não se detém na comemoração.
A cidade aqui é corpo: camadas, tempos sobrepostos, mãos que moldaram sua paisagem mesmo quando não foram chamadas a nomeá-la.
A pintura percorre o que sustenta a cidade para além do visível e do oficial, aquilo que permanece criando, apesar de.
Salvador aparece como matéria viva, onde a memória não se impõe; ela insiste.
No traço, monumentos reaparecem não como réplica, mas como escuta.
Releituras de gestos de Márcia Magno, Nádia Taguari, Eliana Kertész, Iêda Oliveira e Conceição Dias, inscritas não para ocupar o centro, mas para seguir habitando o tempo.
Eu me digo o que ninguém ousa
porque o silêncio sempre cobrou caro demais.
Aprendi que não nomear
é permitir que o erro volte
com outro rosto
e a mesma violência.
Eu não fui feita para a paz passiva,
mas para a vigília.
Observar é um gesto ético.
Falar é uma forma de cuidado.
Quando digo o nome das coisas,
não crio conflitos
eu interrompo ciclos.
Não carrego culpa que não é minha.
Carrego palavras.
E palavras, quando ditas no tempo certo,
impedem a repetição do horror.
Eu falo
porque existir em silêncio
nunca me protegeu.
Lilian Morais
Minha mãe
Hoje o tempo sentou ao lado dela
e eu senti o mundo encolher
na palma da minha mão;
há um silêncio crescendo entre nós
como quem aprende a ir ficando
longemesmo permanecendo.
Lilian Morais
Sankofa é o gesto político de voltar para resgatar o que foi silenciado, porque nenhum futuro é possível enquanto a memória estiver acorrentada.
Lilian Morais
sozinha
já não é ausência
amadurece em silêncio
quase doce
quase liberdade
penso no que nasce
quando ninguém atravessa
minha produção sem ruído
sem moldura alheia
sem o peso do olhar que mede
o que surge de mim
talvez seja mais cru
mais meu
descubro
sou eu
Lilian Morais
Minha pesquisa atua na tensão entre silêncio e forma, onde o íntimo se afirma como presença.
A partir desse território, expande-se para questões coletivas e políticas, atravessando os impactos da colonização, as violências contra povos indígenas e mulheres, e os conflitos ambientais ligados à monocultura do eucalipto, ao uso do mercúrio e à exploração de energia fóssil.
Lilian Morais
desconheço os relógios que os homens erguem para medir uns aos outros.
Não caminho pelos calendários, não habito as horas, não me curvo aos anos.
Sou feita de silêncios, de esperas invisíveis, de sementes que amadurecem nas profundezas da alma.
Por isso não me importam a juventude ou a meia-idade.
Quando chego, chego inteira.
Quando nasço, já trago comigo todas as estações que vivi dentro de quem me cria.
Há quem me procure cedo. Há quem me encontre depois.
Pouco importa.
Pois ao elaborar-se e ao materializar seus repertórios, o artista aprende aquilo que sempre soube em segredo:
tenho mais a ver com o tempo das ideias do que com o tempo de Cronos.
E é por isso que jamais chego tarde.
O atraso pertence aos relógios.
Eu pertenço ao instante exato em que uma ideia se torna eternidade.
