Lavínia Lins
"O tempo passa e nos mostra que é feliz quem decide SER...
SER mais atento aos seus instintos... pois há tantos caminhos que já se mostram, desde o início, tortuosos e incompensáveis, que é possível optar por neles não caminhar;
SER mais firme, quando necessário for, mas sem ser indelicado ou prepotente;
SER mais suave, nas horas em que se deve, sem deixar que as pessoas achem que você é tolo e, mais à frente, tirem proveito disto;
SER mais colorido, mesmo naqueles dias em que uma nuvem cinzenta decide acordar acima da sua cabeça, pois a gente bem sabe que, se der combustível, a tempestade virá com toda a força;
SER responsável e admitir que o é, tanto no que diz respeito aos acertos quanto e, principalmente, quando no cometimento de erros... pois, é só enxergando os tropeços e entendendo que se deve fazer diferente, que a gente passa a acertar mais;
SER grato pelas coisas que conquistou... e também pelas que não vieram, seja porque não seriam mesmo o melhor para a sua vida, ou porque ainda não está pronto para recebê-las;
E, mais do que tudo, SER fiel aos que lhe amam, no sentido amplo da palavra... amor só é bem pago com amor, por nós mesmos e pelo outro...
... não há notícias de quem ousa dizer que é feliz sozinho".
"A IDADE ESTÁ NA NOSSA MENTE", por Lavínia Lins.
Duas características que fazem a gente ficar na dúvida se são boas ou ruins: ser observador e ter boa memória. Eu carrego comigo o doce conflito. Estes dias, fiz mais um ano de vida. São 30. Sim, 30. Eu sei, eu sei, não pareço ser tão “velha”. Velha, eu?!
Mas, vamos lá. Cresci ouvindo meu avô dizer: “a idade está na mente de cada um. Eu, sou jovem!”. Achava, à época, que aquela era mais uma das estratégias dos mais velhos para parecerem mais novos. Ria, fazia elogios à pele conservada dele, mas, no fundo, ainda achava que era “conversa de gente mais velha”.
Quando se é muito “jovem”, tudo o que a gente quer é que venham boas notas nas provas do colégio; ganhar uma medalha nos jogos internos; que aquele “paquerinha” perceba a nossa existência - mas só quando os cabelos estiverem devidamente escovados e a pele sem espinhas. Mais à frente, passar no vestibular; sentir que está no curso certo; arrumar um namorado legal, que nos dê atenção e bombons... formar, ter um ótimo emprego, casar e ter filhos.
Simples, não? Mas, não é só isto!
A vida tem nuances que só quem a vive com observação aguçada e memória viva pode enxergar. Como disse aqui no começo, carrego estas características, nesse ser incontrolavelmente sedento por entender como tudo passa tão rapidamente. E como passa!
A vida vai cobrando, e a gente, sem perceber, vai correndo, freneticamente, sabe Deus pra onde. A gente só quer chegar. E quando se dá conta, nem sabe o porquê de ter vindo. Só que veio. Então, reflete sobre o tempo e sua efemeridade. Faz as contas, e não entende como fazer para dar conta do tanto que ainda há pra ser feito.
Os anseios vão sendo lapidados e os medos aumentam. Damos conta que aquela espinha, nada bem-vinda, era só um tolo detalhe; que os cabelos não escovados tinham até um charme; e que, talvez, não casar e não ter filhos seja uma possibilidade, tendo em vista que, lá fora, há tantas outras formas de se sentir realizado. Tudo bem, eu ainda quero casar e ter filhos... mas, e se não? Que mal haveria? E seu eu quisesse deixar aquela velha profissão cheia de burocracias e decidisse ir mais longe, além da fronteira mesmo, com mochila nas costas e sonhos nos pés? Tenho certeza que seria divertido. Muito, mesmo!
Mas, a gente acaba sem sair do lugar, porque tem medo de "fazer loucura", trocar "certo" por "duvidoso". E, tantas vezes, deixa escapar, pelos dedos, a oportunidade de ser mais feliz. Até porque, se não desse certo, a gente ainda poderia tomar um novo rumo. Há sempre chances de recomeçar...
Por fim, vamos concluindo que a vida não pode ser tão planejada, esculpida... no máximo, cabe uma breve idealização. Mas, ideal é coisa que vai se transformando; e, muitas vezes, nem se percebe esta mutação. No fundo, a gente só não quer é parar de sonhar. E ter tempo pra realizar os pequenos desejos que vão surgindo no decorrer dos dias.
Vamos mudando o rumo dos pensamentos e passamos a entender que aquela ideia de que “velho” era quem coloria os cabelos brancos; quem tinha netinhos; quem contava histórias citando, ao menos, o ano em que se passaram, é coisa sem sentido.
Não... “velho” não é nada disto. “Velho” é aquele que se sente cansado demais pra sonhar, pra desfazer e começar tudinho, de novo; é aquele que acha que a idade determina onde, quando e com quem se deve estar. É alguém que esquece de olhar pra dentro e deixa adormecer, sem retorno, aquela criança cheia de planos e desejos quase impossíveis, mas que lhe serviam de combustível pra acordar e seguir em frente, recheada de sorrisos e esperanças.
Vovô está certo. Sim, está! Ele vive, e vive melhor que muitos “jovens” por aí. Estou com ele. Hoje, na mesma faixa etária mental, posso dizer: SOMOS JOVENS, VOVÔ... bem jovens!
Abraço, com estas palavras, vocês, pessoas tão jovens quanto vovô e eu!
"A gente pensa que TER certas coisas é essencial, até que a vida nos mostra que essencial mesmo é SER".
"Seja noite ou dia, rodeado de pessoas ou sozinho, aja de modo que, ao fim, sinta orgulho de si mesmo".
"MAMÃE-LIMÃO"
"Eu sou amiga de poucos, mas muito bons. Isto é uma coisa que vai nos ocorrendo com o passar do tempo. Quando se é mais jovem, a quantidade parece ser algo indispensável, pois, só assim, temos a prova de que somos realmente queridos e felizes. Tolice.
O mais interessante é que amigos nos trazem novas famílias. Sim. Porque a gente não é só amigo de Luiza... mas, de sua mãe, seu pai, seus irmãos, daquela prima dela, que vem para a nossa cidade nas férias de fim de ano, e por aí vai. Quando a gente se dá conta, termina por achar que é mais ‘da família’ que aquele tio que só aparece nas festas de aniversário. Enfim...
Foi nessa de quase ser ‘da família’, que conheci tia Dulce - mãe de uma das minhas melhores amigas, a Camila. Desde o primeiro dia, Mila me disse: ‘essa é minha mãe, a ‘mamãe-limão’. Eu achei engraçado, sorri com ela, mas não cheguei a perguntar o porquê daquele apelido.
Seguimos pro quarto... músicas, histórias, fotos. Aquela velha rotina de sábado e, sem dar conta, já chegava lá chamando a tia Dulce de ‘mamãe-limão’. Era tão natural, que, às vezes, tinha que me esforçar para lembrar o seu nome verdadeiro.
Os anos passaram. Certa noite, já adulta e com a cabeça cheia de pendências a resolver, liguei para Mila, mas quem atendeu foi sua mãe. Sabe quando a gente está tão ‘inflado’ com os problemas do dia a dia, que só quer um pedacinho de atenção e se esborrar num ombro que se mostre amigo? O dia era esse. Mas, contive a agonia e perguntei por Mila. Ao notar a minha pequena decepção por saber que ela havia saído e esquecido o celular em casa, tia Dulce perguntou se podia me ajudar em algo.
Essas coisas são feito manteiga no pão quente: deslizam.
Então, acabei por desabafar toda a angústia que me tomava naquele momento. Falei do quanto estava frustrada, cansada e desapontada, com a vida, comigo mesma, com o tempo, com as pessoas. Ela foi ouvindo tudo, quietinha, sem nada dizer. Eu chorei, engoli o choro, chorei de novo. Só silêncio. Mas, aquele silêncio que soa compreensivo, sabe? Então, finalmente, ela se pronunciou: “querida, permita-me dizer algo. Se eu pudesse lhe trazer para dentro de mim, dentro do que sou hoje, seria a melhor fórmula para lhe mostrar o quanto esta aflição que sente é passageira. Como, infelizmente, isto não é possível, cabe, a mim, apenas dizer que tenha calma. Há coisas na vida pela qual temos que passar. Ainda que pareçam, de certa forma, injustas, são necessárias. Ao fim, seremos produto de todas as nossas experiências. Mas, é preciso saber pelo que sofrer. Lembre-se de que há sofrimentos inevitáveis. A gente se acostuma com as complicações da vida de uma forma tão cega, que nem sempre percebe que cria ciclos de autossofrimento. Mas, tudo bem. É tudo humano. Acalente seu coração. Respire e deixe que as coisas aconteçam no tempo que têm de acontecer. Lá na frente, tudo será história para contar. Tudo se resolve, de uma forma ou de outra’.
Senti, naquelas palavras, um calor tão grande. Elas tomaram meu corpo, fazendo as lágrimas secarem e o coração acalmar. Tomaram meu espírito, e senti paz e leveza. Agradeci e desliguei.
No outro dia, Mila me ligou. Tia Dulce não chegou a comentar sobre o conteúdo da nossa conversa; apenas, deu o recado sobre a minha ligação. Desta vez, não quis deixar passar a oportunidade. Perguntei o motivo do apelido. Ela riu, e disse: ‘achou que é porque mamãe é ‘azeda’, chata ou coisa parecida?’. Eu disse: ‘até pensei isto, por anos, mas não sei se estou certa. Ontem mesmo, ela me falou coisas tão incríveis ao telefone. Aí, lembrei de como a chama. Fiquei confusa’.
Então, ela concluiu: ‘mamãe-limão é uma espécie de incentivo diário, que ela mesma criou. Nunca lhe disse; você nunca havia perguntado... mas, minha mãe tem sérios problemas de saúde... luta contra um câncer há anos, que insiste em ir e vir. São dores e medos que batem à porta dela todos os dias. Ela faz tratamentos e mais tratamentos, que nem sempre surtem o efeito que se pretende, mas, no fim, acaba reagindo bem. Nem sempre é fácil. Há dias em que a tristeza bate, que a dor aumenta, e ela não pode fazer nada com isto, a não ser ter paciência e mais paciência. Acabou, então, criando um hábito, que mais parece um ritual mesmo: em dias assim, levanta da cama, com muito esforço, vai até a cozinha, corta uns limões e faz uma limonada. Ela acredita que, enquanto tiver forças para fazer de um limão, que é tão azedo e quase intragável, uma limonada, tudo poderá. Assim, renova as suas forças e acredita, com mais fé, no dia seguinte’.
O silêncio tomou conta.
Mila me perguntou, tentando me distrair: ‘mas, me fala, o que houve ontem?’. Eu respondi: ‘hum... posso ligar daqui a pouquinho para você?’. Ela: ‘claro, espero!’.
Desliguei.
E fui fazer a minha limonada”.
"Amor é coisa que vem, fica e não deixa a gente se sentir sozinho, mesmo quando há distância física no meio".
"Enquanto houver vida, que eu só queira viver... em paz e capaz de sorrir com o pouco do que faz a gente sentir que é feliz".
"MEUS DIAS SEM VOCÊ"
"Mais uma manhã chuvosa. Três passos me levam à sala - fria, tão solitária quanto eu. Já nem sei precisar quantas foram as vezes que repeti esse ritual: levantar, caminhar, voltar à inércia. Desde que você se foi, apenas poucos murmúrios de vida. Até as flores que davam cor à nossa varanda, deram-me adeus. Senti que elas também não viam razão em persistir nesta caminhada, não sem você por perto. Assim como elas, preciso que me regue, me cuide e me alimente. São dias de um cinza nebuloso. São dias sem você...".
