Káliston Samuel
(Natal do Gueto)
Luar de Natal,
Da noite é o Graal,
Jingle Bell, jingle Bell,
Lá vem o Papai Noel.
Esse ano ele virá com a inflação,
Até que do pobre não sobre um tostão,
Governos se perderam na ganância,
Enquanto seu povo pela comida tem ânsia.
A ceia vira dor,
O Natal vira ardor,
A esperança já se vai,
Em um país que ainda assim se sobressai.
Ardor de cor neon
Da vida, você tem o dom.
Dias de escuridão sem fim
Farão parte do cotidiano ruim.
Alegria há de chegar
Para o seu coração se alegrar.
O conhecimento é a chave do abismo,
O pódio cruel do existencialismo,
O último degrau da felicidade,
Com ele, se enxerga a droga da verdade.
A mais ríspida forma de viver,
O peso insuportável do ser,
Toneladas de pensamentos,
Perdido entre olhos sangrentos.
A magnitude do raciocínio
Arrasta a mente ao declínio.
Ficção do pensar,
Verdades para duvidar,
Mundo ilusório,
Cores em brólio,
Pálido terror,
Da vida, o ardor.
Morte tão fria,
Mente vazia,
A dor de existir,
A vida a rir.
A solidão a rondar,
Pensamentos a pairar,
Madrugada a rolar.
Noites em perdição,
Os versos de humilhação,
Sentimentos em podridão.
O frio do vento,
A sensação de relento,
Cenário violento.
Final de paz,
Um agora sagaz,
Já não dói mais.
O espelho se quebrou,
O infinito se multiplicou,
Reflexo da realidade,
Perdição da vaidade.
Para sempre é só ilusão,
Do eterno apenas na imaginação,
Finitude e brevidade,
Um dia chega com a idade.
Raça maldita,
Terra bendita,
Planta e colhe,
O carma escolhe.
Dor e labor,
Amor e rancor,
Fé e esperança,
Desprezo com bonança.
Fruto da maldita serpente,
Inveja do paraíso ardente,
Desejo de ser como o Pai,
Dali ele apenas cai.
Eva coagida pela fala marcada,
Adão tolo seguiu sua amada,
Consequências do pecado original:
Homens no sol a plantar,
Mulheres no parto a gritar.
Ateísmo pela ausência de experiência,
Incrédulo pela própria ciência,
Difícil aceitar um deus que tudo cria,
Fácil não acreditar nessa afirmação vazia.
No princípio criou?
O universo inflou!
Teoria mais racional,
Para os atuais religiosos ela é banal.
Cegos pela doutrina,
A religião é deles a ruína!
Liberdade de pensamento,
O incrédulo vive em todo momento.
O homem cruel sombrio,
Da sua alma via o brio,
Fugia da realidade todo dia,
Sua sombra interior ele ouvia.
Tal qual velhos amigos,
Eles conversavam ambíguos,
A prosa era esquisita,
Do seu íntimo era parasita.
Verme do gatilho mental,
Quisera ele ser só um cara mal,
A escuridão assumiu,
Sua consistência sumiu.
O alarme nuclear tocou,
Com isso ele acordou,
Olhou e não acreditou,
Ele era o último que restou.
O único homem vivo,
O novo nativo,
Pensando altivo,
A solidão o fez intuitivo.
Pensou e chegou a ideia,
De nada adianta ficar em apneia,
Mexeu-se e foi viver o seu eu,
Já que era a única coisa que a humanidade lhe deu.
Com sete dias de morte,
Putrefez a carne,
Evadiu-se a alma,
Nada mais além da calma.
Rarefeito ar do cemitério,
Quente é o mistério,
Quem o matou?
Dizem que o esquartejou.
O caixão foi fechado,
O velório cancelado,
Fadado ao esquecimento,
Sua alma vive em lamento.
O autor da sua partida,
Disseram a ele na despedida:
“Quem pode te tocar e viver para contar?”
Homem influente e destemido.
Amigos dizem que foi o patrão,
Tudo por um comentário em reunião.
“Quem é esse que pode ser?”
Ele é o algo além do enlouquecer.
Mística é essa frase,
Todos ficaram em análise.
De fato, o patrão pirou,
Não suportou o peso e surtou!
Afrontosa frase intelectual,
Pelo visto, ele a entendeu mal,
O questionamento era sobre o eu do patrão:
Quem ele poderia ser se fosse tudo o que pode.
Caridade ou vaidade?
Falsidade ou insanidade?
Finitude da virtude!
Alforje da benignidade!
Lisura da última unidade,
Compartilham a imaturidade,
Piora muito com a idade,
É visto no cotidiano da cidade.
Listo a longevidade,
Quisto a saudade,
Mórbida necessidade,
Ignóbil é tal agressividade.
Na cachoeira do existencialismo,
Há ignorância no moralismo,
A humanidade se perde em abismo,
Inoperante é o egoísmo.
Na queda livre da busca do eu,
A mente dele se perdeu,
Dizem que ele enlouqueceu,
Essa é sua filosofia que morreu.
No mar do pensar,
Nesse instante a nadar,
As ondas escutar,
O vento a pairar.
O nevoeiro do bem estar,
No furacão do apagar,
Rumo ao tsunami do sonhar,
Ao Rio do bem falar.
A temperatura a alternar,
À deriva de um lar,
Em direção à praia do mofar,
Da ilha que veio a abandonar.
O horizonte quisera somar,
Dar um Norte insular,
Talvez um Sul de congelar,
Ou mesmo um frio sem par.
O sofrimento tem régua individual.
Nunca se compare a qualquer outro.
Cicatrizes de guerra podem ser sentidas como orgulho ou vergonha; depende da cosmovisão do ser.
Para alguém cujo cachorro é o seu mundo, perdê-lo pode ser a coisa mais dolorosa da existência.
Já outra pessoa, vivendo em um país em guerra, mas que nunca teve nada para chamar de “meu mundo”, talvez não sinta perder sua pátria com a mesma intensidade.
As dores são medidas pela proporção com que enxergamos e atribuímos valor ao mundo.
A inovação é vista como loucura ou errado aos olhos de mentes retrogradas, o novo parece loucura até que seja útil.
O silêncio é a melhor resposta para uma mente altiva que o confronta.
Não para debater, mas para denegrir e forçá-lo a abandonar a própria razão.
É equivalente a um predador em sua caça:
silencioso, porém forte e letal.
