Jovênio Borba
O Velho e o Cavalo
A manhã desperta fria, trazendo consigo o rastro da madrugada na grama ainda molhada de orvalho. Sob o céu pálido, ele caminha com passos firmos, guiando seu animal com uma determinação que desafia o próprio tempo. O destino é a cocheira, onde o sustento espera por ambos.
O velho carrega no rosto e nas mãos as marcas profundas de quem já viveu um tempo que parece interminável. O cansaço pesa em seus ombros, mas não abate sua vontade. Ao seu lado, caminha uma força da natureza: um cavalo imponente, de espécie dominadora e vigor inquestionável.
Cena de um contraste sublime: a força bruta e o ímpeto daquele animal colossal são, no fim, docilmente controlados pelas mãos calejadas e pela alma pacífica de um homem frágil. Ali, não é o vigor físico que impera, mas sim o respeito silencioso e a conexão de uma vida inteira.
E o Fim
Ela finalmente percebeu que os anos se foram.
Agora, olhando para trás e depois de tudo o que passou, a conclusão a que chega é dolorosa, mas inevitável: você não consegue mudar as pessoas. Esse sentimento, outrora tão vivo, hoje parece apenas subtrair o tempo que passou ao lado de quem não soube caminhar junto.
Nessa jornada, houve um profundo amadurecimento, mas também o peso de frustrar as próprias expectativas ao longo dos anos. Hoje, a clareza é soberana: já não há mais espaço para se ver ao lado de alguém que não acrescenta, que não transborda.
A decisão de um término nunca é fácil. Romper os laços da convivência e do sentimento construído exige uma força hercúlea. Como encontrar o equilíbrio emocional quando o coração ainda pesa?
Mas a decisão está tomada. Daqui para frente, só resta a resiliência. O caminho escolhido, por mais solitário que pareça agora, é o único que levará a uma nova descoberta de si mesma.
No fim, a dúvida e o questionamento sobre a escolha feita não são sinais de fraqueza; são apenas os ecos naturais daquilo que se encerra. É o recomeço. É o fim.
Conexões
O dia amanhece e a rotina, inevitável, segue o seu curso.
No espelho do cotidiano, os sentimentos se colocam à vista, expostos. É quando o cenário comum se transforma: cenas vistas e revistas ganham a forma de um déjà vu constante, materializado em pessoas, objetos, lugares e expressões. São fragmentos que parecem flutuar no tempo, desafiando a lógica e confundindo, aparentemente, a nossa mente.
Diante disso, uma dúvida sutil desperta: será que estou me tornando saudosista?
A verdade é que, a cada dia que passa, essas imagens do passado se fazem mais vivas e presentes no agora. E todos esses questionamentos, cruzando o pensamento em silêncio, me guiam a uma única e intrigante suposição:
Se passo os dias observando e enquadrando o mundo nas minhas memórias... será que, neste exato momento, também não estou sendo enquadrado pelo ponto de vista de alguém?
A Plantação
O vento sopra baixo, mas não há som de folhas se movendo. Ali, cercado por paredes verdes e douradas que se erguem em direção ao céu, ele parece engolido pelo cenário. O milharal é um labirinto vivo, denso e infinito, isolando-o do resto do mundo. Quem olha de fora não nota sua presença; ele passa completamente despercebido, fundido à imensidão da plantação.
O silêncio no local é absoluto, quase sagrado. A única quebra nessa calmaria é o som rítmico, seco e metálico de sua enxada ao golpear a terra preta. Golpe. Pausa. Golpe.
De olhos fixos no solo, sua expressão é profundamente séria. Não é uma seriedade de cansaço ou amargura, mas sim de reverência. Diante daquela terra que acolhe a semente e faz brotar a vida, ele sente o peso de um mistério maior. É o semblante de alguém que contempla a grandiosidade ao seu redor e se dá conta de que, por mais que tente, jamais conseguirá medir ou mensurar a verdadeira maravilha da natureza
