Israel Soler
MINHA ESCURIDÃO É INFINITA
Eu medi a minha escuridão e descobri que ela é infinita. Diante disto, propus-me a me olhar com outros olhos. Procurei luz na alma, mas só havia sombras. Isso inquietou-me diante da improbabilidade de ver a luz. Então me recolhi, mantendo-me na minha pequena insignificância, porém, não me dei por vencido.
Eu já tinha visto a luz, mas o ego a sufocava. Procurei me despir dele; havia camadas, e lutei com as forças que me restavam. Eu estava cego, pobre de espírito e nu! Mas quem disse que eu estava nu? Meu próprio ego. A briga sempre foi intensa, de causar exaustão.
Procurei sair da bolha em que me meti. Tentei alçar voos, mas sempre era reprimido. Quase tudo que me cercava eram trevas, devido à bolha. Tornei-me um monstro, um ser sem vida, buscando vidas em outras dimensões.
A batalha dual se acirrou, sendo que eu mesmo era o espectador. Eu torcia pelo mais forte, só que, no momento, o mais forte era o obscuro. Os outros "eus" que existem em mim, ambos os lados, não levantavam a bandeira branca, e eu seguia inquieto na expectativa do vencedor!
Por fim, alcancei o chão e, de espectador, resolvi entrar na briga. Foi quando comecei a enxergar um filete de luz na minha vasta escuridão!
Tire as pedras do caminho, se puder,
Estas que te fizeram tropeçar.
Veja os espinhos nas rosas que aí estão,
Estes que te feriram a carne, então.
As orquídeas na primavera florescerão,
E o poeta continuará a fazer
Seus versos nas estações dos longos anos,
Revelando seus instintos e amores pagãos.
Eu quero ser o seu anjo da guarda,
Proteger-te do seu bel prazer,
Ensinar-te a amar-se
E beijar a tua face.
Quem sai na chuva
pode se molhar.
Quem semeia ventos,
tempestades colherá.
Quem busca, encontra.
Quem bate, abrir-se-á.
E quem julgar, julgado
Também será.
Eu quero ser o seu anjo da guarda,
Proteger-te do seu bel prazer,
Ensinar-te a amar-se
E beijar a tua face.
O Jardineiro do Cosmos
No jardim do cosmos, eu semeei estrelas,
Sementes de luz que germinam em sonhos,
Raízes de tempo que se entrelaçam no espaço,
Um jardim de possibilidades, onde o infinito floresce.
Eu sou o jardineiro que cultiva o universo,
Um arquiteto de sonhos que constrói o infinito.
Eu sou a semente que germina em estrelas,
Uma partícula da fonte que se expande no cosmos.
No espelho do tempo, eu vejo reflexos
De vidas passadas, de futuros possíveis,
Um caleidoscópio de experiências que se desdobram
Em lições de amor, de sabedoria e de luz.
Eu sou o jardineiro que cultiva o universo,
Um arquiteto de sonhos que constrói o infinito.
Eu sou a semente que germina em estrelas,
Uma partícula da fonte que se expande no cosmos.
No silêncio do vazio, eu ouço a música
Das esferas celestes, que cantam em harmonia,
Uma sinfonia de vibrações que ecoam no universo,
Uma linguagem secreta que só o coração entende.
Eu sou o jardineiro que cultiva o universo,
Um arquiteto de sonhos que constrói o infinito.
Eu sou a semente que germina em estrelas,
Uma partícula da fonte que se expande no cosmos.
CAMINHOS DO CORAÇÃO
Eu preciso aprender a ouvir, tua voz.
Eu preciso aprender me entregar por inteiro a você.
Cada vez, mais forte é, o desejo de estar junto a ti.
Cada vez, mais forte é, a vontade de te fazer o bem, toda vez que me perco de ti, não consigo ao menos sorrir...
Me disserem que você, anda a me procurar, também disseram que te viram dizer me amar....
Cada vez mais forte é, o desejo de estar junto a ti.
Cada vez mais forte é, o desejo de te fazer tão bem, toda vez que me perco de ti, não consigo ao menos sorrir...
E eu sei que você é, meu consolo então, e eu deixei você trilhar, os caminhos do, meu coração ...
DANÇA SOLITÁRIA
Romantizar o mundo
É ser tragado por ele
É ser devorado por lobos
É insistir numa inocência
Que já não existe...
Eu guardo em mim
Meu romance...
Em uma luta brutal
Onde, o devorado da vez
É o amor nas coisas
Que deixei ir
E as que insistiram em ficar
Dançam na linha tênue
Da insignificância
Do infortúnio de estarem
Pois, há muito tempo
Já não sou mais eu
Mas, o eu que quer ficar,
Dança, uma dança, solitária!
A CANÇÃO QUE NÃO É MINHA
Existe uma canção em mim,
Uma canção que não é minha.
Ela vaga imortal no meu inconsciente
E arrasta sensações de tempestade e calmaria.
Nas poucas vezes que estou lúcido,
Sou arrebatado de forma cálida.
Eu, que não sou um entusiasta do meu pessimismo provocado por ela, devo esclarecer: entenda, meu pessimismo é meu bom vivant; não é tristeza, desesperança ou solidão, é apenas solitude.
Entenda: meu pessimismo foi construído com bases fortes na canção entoada na alma.
O pessimismo é meu, e ele se agarra a mim como se eu fosse a última fronteira entre a esperança e o desânimo.
A canção continua tocando, cadenciada e ressoando no caminho da alma, um caminho tortuoso e sem fim!
OLHAR DO TEMPO
Não posso, e nem quero, olhar a vida alheia, muito menos julgá-la: afinal, também tenho meu teto de vidro!
Eu observo, isto sim, o tempo que corre velozmente e me expõe nu...
A fadiga que hoje me pesa nos ombros, eu a criei. E das sementes que plantei, busco regá-las. Mesmo que não colha os melhores frutos, estarei pronto para a colheita, no tempo certo!
O tempo é o próprio jogo da vida. Rebuscar o passado requer coragem, exige nobreza; é uma questão de honra!
Ensinaram-me valores tais que me perdi neles. Não por culpa de outrem, mas pela minha própria visão tacanha sobre o mundo.
Eu vivo as ilusões que me foram ensinadas e busco aperfeiçoá-las, de modo que tudo que vejo se torne belo. Não para mostrar aos outros o caminho da felicidade, mas para provar a mim mesmo que também erro quando falho em entender os porquês da vida!
Eu ouço o despertar do relógio, e são 6 horas...
Logo mais, ouço o badalar dos sinos, e são 18:00 horas. Comprazo-me com o tempo: ele foi ajeitado em compassos lentos nos ponteiros do relógio... mas a vida... a vida passa, dando sinais de que o tempo que me resta jaz confinado neste corpo. Um corpo pueril e condenado à dor; a dor que eu não queria sentir, mas que, por consequência das horas, se desfaz involuntariamente nas veladas marcas do tempo.
O CARTÃO POSTAL
Eu fiquei pensando em nós. E, em cima da mesa, vi um cartão postal
De algum lugar onde você está, desde o dia em que você se foi.
Meio confuso estava nosso amor, entre outras histórias que a vida traz...
E eu me vi dizendo adeus. Na despedida, trouxe um cartão postal,
E eu me vi dizendo adeus; só então reconheci os erros meus...
Eu esperei o tempo apagar as lembranças que me perseguiram,
E no meu quarto já não mais estão memórias, sua e minha.
Meio confuso ficou o nosso amor, entre outras histórias que a vida traz...
E eu me vi dizendo adeus...
Lembranças
Lembrei-me de você
Tão longe, longe de mim.
Eu faço barcos de papel
Que vão pelos mares a ti,
Como uma lembrança.
Lembre de nós, quando crianças,
Juntos a brincar, a sorrir.
O mundo era nosso:
Você a lua e eu o sol,
Com olhares inocentes.
Quem ouvir o nosso pranto
Vai entender que não queremos
Ouvir a palavra "adeus".
Se algum dia nos unirmos,
Falaremos a sós
Nossos segredos:
Essa nossa dor por não ter
A quem amamos.
O Caminhar
Vou me desconstruindo
ao longo do tempo,
sem alardes e sem pressa.
Vou me desmaterializando
de corpo, alma e espírito.
Vou me desmistificando
da carga que trazia;
já não faz sentido algum
estar preso a ela.
Eu preciso caminhar
sem dar ouvidos ao acaso.
A sorte não é amiga,
apenas a competência
diante dos ardis da vida
que nos colocam frente
às adversidades,
desafiando o nosso pesar.
Vou me contestando,
sentindo o frio gelado na espinha
por mais uma batalha vencida
ou perdida.
Vou me destituindo
dos meus "eus",
para estar pronto
no fim do caminho.
"Que o universo em sua infinita sabedoria sempre conspire a favor dos corações que escolhem o bem."
POEMA INEVITÁVEL
Eu queria falar sobre deus, sexo, política, amor e trivialidades; mas me colocaram uma carapuça, e fui treinado a ser um personagem.
Depois, quis me tornar poeta, músico, filósofo e até ator. Porém, descobri que, desses, eu já tinha me tornado ator, não por opção, mas por imposição das situações, e sufoquei os outros personagens.
Eu quis me tornar um humanista, um sociólogo, talvez antropólogo, filólogo e até defensor de causas perdidas ou ganhas. Acontece que meu personagem não discute muito com minha dignidade: meu lado ator sempre vence quando a conveniência grita mais alto!
Enfim, decidi partir para as trivialidades da vida, já que não me restavam muitas escolhas. Eu tentei ser muitos, e acabei não sendo eu. Então, fiz da vida minha luta, minha sobrevivência, minha causa (também por imposição). Ergueri um castelo de sofismas, e o meu estandarte foi tremular pequenas ideias que não eram minhas. Lutei bravamente para anunciar, dentro de mim, um poema inevitável, confrontando meu personagem que, por conveniência, acabou sufocando o eu iludido que achava que era eu!!!
#israelsoler
DOS RUMOS DO MUNDO TRANSITÓRIO
Como hei de sustentar // minha alma corrompida?
Como hei de conseguir // avançar no meu tempo?
A alma está inquieta: // são tempos transitórios,
tempos muito mutáveis, // onde o mundo me convida
ao grande baile da vida, // em cenário que é tosco,
e que é impregnado // de falsos sofismas.
Eu desci alguns níveis // para tentar compreendê-lo,
e por fim senti // uma enorme compaixão.
Procurei um salvador, // mas o que eu vi foi
a luta de "Eu" // versus o mundo.
O mundo que eu vi // era uma terra arrasada;
não havia ternura // e o colorido era opaco.
Desviei o meu olhar // para a outra banda do mundo,
e vi o caminhar // de um velho sábio que dizia:
"Tudo é pura mudança: // o amor, a paixão,
a integridade // e tudo quanto se toca!"
Eu perguntei-lhe: // "E a essência dos homens?"
A resposta veio forte // como espada de dois gumes!
"A essência," disse ele, // "já vem de outros mundos!"
A turbulência em mim // aumentou e não pude
entender o mundo // das coisas ao meu redor.
Tudo é um cenário // de cartas já marcadas,
e também um teatro // que é simples e barato!
Mas eu segui o meu caminho. // Quem sabe o que virá
nestes novos tempos? // Tempos sombrios de luta,
onde quase tudo // é tão transitório e temporal!
Eu insisto no amor // e na essência do perdão,
pois o que resta é // aquietar a minha alma
e aguardar os tempos // que ainda são vindouros;
sem ter muitas expectativas // para não dar vazão
à negra desesperança. // Hei de combater
de maneira intrínseca, // e afastar o bem precioso
da Vida, com sua essência, // dos rumos deste Mundo
das coisas que transitam // ao redor dos meus passos!
E se eu vier a falhar, // ao menos tentei...
MEU PURGATÓRIO É VOCÊ
Meu purgatório é você...
Meu inferno astral é tudo aquilo que pressupõe meu desejo.
Tudo e todos estão incutidos em mim:
As palavras, as ações, as aspirações e inspirações, tudo se volta como redemoinhos causados por inquietudes.
Porém, há algo novo dentro de mim.
Descobri minhas limitações e sorri de forma que deixei escapar um sorriso nervoso e triste, por saber que o super-homem que habita em mim falha todas as vezes que tenta salvar-me de perigos iminentes.
Desta forma, ando entre o certo e o duvidoso, só para saber se estou equilibrado. Mas cá entre nós: o que é e como equilibrar-se entre o tortuoso e o reto?
Eu já nem sei; só caminho e deixo-me pagar as dívidas cobradas pelo tempo.
Meu purgatório não é mais você; descobri ser eu mesmo, uma dualidade que não tem fim. Mas, insistindo em segurá-la para construir um paraíso só nosso, desvelando um inferno que se tornou só uma faísca no tempo perdido que resultou do contato de almas, eu me refiz.
Agora, almas que buscavam equilibrar-se na mesquinhez do ego saltam e dançam, ouvindo a música que toca em algum lugar fora do eixo dual de ambas!
Joguei fora para fora toda experiência de luz. Confrontei minhas trevas e não saí vencedor, mas descobri que em mim havia um lugar que não conhecia, um lugar sombrio, um limbo que descobri ter vários eus.
O purgatório se desfez, o inferno se foi e o paraíso não alcancei. Porém, segui meu caminho sabendo das novidades que existiam dentro do meu eu, e fui me equilibrando estrada afora. Sobre o quê?
Não sei. Só sei que fui, vou, estou e voei!
ME PROPUS
Eu me propus...
Me propus a ser quem sou,
a andar de cabeça erguida,
sem olhar o mundo à minha volta.
Aaah, o mundo das coisas
que permeia a minha volta...
Com seus encantos e lamúrios,
balbuciando aos meus ouvidos
sons e conselhos vãos,
atestando em minha alma
seus conflitos inglórios,
transformando cada passo meu
em um fardo que não carregarei
por culpa ou desatino.
Sofrer as consequências por ter
simplesmente nascido não me faz
atirar-me sem máscaras a esmo
em um mundo que já
cambaleante caminhava na sua autoestrada.
Pois então, neste exato momento,
estou confinado no agora
e já não tenho qualquer compromisso
com o futuro que me resta.
Sim, o futuro sempre é feito de especulações.
Não posso aguardá-lo,
não sei se estarei no seu presente.
Por hora, faço em mim morada
e caminho na autoestrada onde fui colocado.
Mas, desatento, fabrico minhas passadas
e vou de encontro àquilo que era meu anseio.
Vou sem receios, sem bagagens e sem
muitas lembranças; só o que restou de mim
do hoje é o que levo.
Talvez, no meio do caminho,
haja um novo despertar,
anunciando o agora que não é mais presente,
observando que o que é vindouro
está logo ali, diante de tudo que rejeitei,
refazendo momentos gravados em mim
como quebra-cabeças em um jogo
de vida ou morte.
Transformando, assim, meu eu,
em um espectador das minhas escolhas
e o carregador das decisões tomadas.
A vida anuncia seu início, meio e fim.
Ficar a esperar o fim desse jogo
traz a pressa dos afazeres
e das pequenas promessas sutis
que delineadas estão no caminho.
Então vou, sem pressa...
Pressa? Para quê?
Se no final, morremos no presente,
sendo que quem acaba de nascer
sonha com um futuro
e irá percorrer a mesma autoestrada,
a autoestrada da vida.
Um ciclo que não se acaba,
um recomeço que todos almejam
e um agora que poucos vivem.
Viver é sonhar...
E poucos têm sonhado em vida.
Eu, acomodo-me no sofá
e me proponho a sonhar
sem me dar ao trabalho
de nenhuma reflexão,
deixando tudo como está,
sendo o contraponto
da vida, do mundo e do eu
que me propus a apenas estar aqui!
"ABECEDÁRIO DA MUNIFICÊNCIA SINGULAR"
Apaixone-se
Busque-se
Conheça-se
Doe-se
Eleve-se
Firme-se
Guie-se
Habilite-se
Importe-se
Jubile-se
Kamikaze-se*
Legitime-se
Munificie-se
Navegue-se
Ovacione-se
Poeme-se
Queira-se
Ramifique-se
Sofistique-se
Tranquilize-se
Urja-se
Versatilize-se
Web-se*
Xerete-se
Yogue-se*
Zele-se
Neologismos (Explicação Adicional)
* Yogue-se (reconecte-se/una-se a si mesmo)
* Kamikaze-se (venteia-se divinamente/atire-se de forma transcendental)
* Web-se (teia-se/conecte-se em vários pontos/entrelace-se)
I
PRAZER
Escrevo pelo prazer
de ver a minh'alma vagar
entre linhas e letras,
tecendo palavras em verbos simples
que possam tocar outras almas
e dissipar as sombras dos nossos dias.
Crônica: O Mapa dos Textos Inacabados
Existe uma tirania da página completa. A exigência de que o pensamento seja redondo, a frase, lapidada, a ideia, finalizada e assinada com um ponto inquestionável. Mas a vida, convenhamos, não é feita de tratados; é feita de sussurros interrompidos, de notas de rodapé que nunca chegaram ao livro e de rascunhos rasgados.
Aqui reside o poder dos pequenos textos inacabados e eficazes, intrépidos e vorazes que falam sobre você.
Eles são a nossa verdade mais bruta, a confissão não autorizada pelo censor interno. Pense nas listas de supermercado rabiscadas, que revelam não apenas a fome, mas a pressa, a desorganização charmosa, a prioridade daquele dia. Pense nas mensagens de texto digitadas e apagadas, aqueles dez segundos de fúria ou de amor inarticulado, que morreram no limbo digital, mas que continham a essência do que a sua alma gritava.
Esses fragmentos são eficazes porque ignoram a burocracia do bom-tom. Eles não têm tempo para introdução, desenvolvimento e conclusão. Vão direto ao ponto nevrálgico: o desejo, a dúvida, o pico de alegria. Um haicai mental que, por sua incompletude, nos força a preencher as lacunas, convidando-nos à intimidade.
São intrépidos porque ousam ser feios. Ousam ser mal escritos, gramaticalmente incorretos, ou até mesmo incompreensíveis para qualquer um que não seja o seu criador. Eles quebram a regra de que a arte deve ser perfeita. São a prova de que a vida é um borrão maravilhoso, e não uma aquarela de precisão cirúrgica.
E são vorazes. Devoram a máscara social. Enquanto o seu currículo, sua biografia e seus posts cuidadosamente filtrados buscam construir a imagem de quem você gostaria de ser, o texto inacabado revela quem você é. Ele carrega o cheiro da ansiedade que o fez acordar às três da manhã e o arrepio do insight que durou apenas um instante.
O Ser Humano, afinal, é um projeto inacabado. Somos a eterna promessa, nunca a realização total. E é por isso que esses pequenos textos, que não pedem licença e não esperam aplausos, são os mapas mais honestos. Eles são os vestígios da sua mente em estado de fluxo, a prova de que a maior poesia está no que não foi dito por inteiro.
Portanto, olhe para os seus fragmentos. Eles não são falhas. São o seu diário mais íntimo, a crônica mais verdadeira de quem você ousou ser, mesmo que por apenas um instante e meia linha. A incompletude é a sua assinatura mais autêntica.
Esta incompletude é também um ato de resistência contra o "culto do impecável". Vivemos na era da curadoria da vida, onde tudo deve ser filtrado, editado e exibido como uma peça de museu. O fragmento, no entanto, recusa o palco; ele reside na margem do caderno, no verso do guardanapo manchado, na nota de voz que é cortada pelo barulho de um carro. Esse é o seu território sagrado: o não-lugar da performance.
Nesses nichos de verdade, a clareza chega como um raio, intrépida, e se esvai antes que possamos vesti-la com palavras adequadas. O texto inacabado é o registro exato desse instante fugaz de lucidez, antes que a razão o domestique. Ele é um pacto consigo mesmo: a promessa de uma ideia que talvez nunca se concretize, mas que foi, no seu nascimento, absolutamente vital. É o seu código secreto, a sua língua franca com o seu próprio inconsciente. E é justamente por serem inacabados que eles permanecem vivos. Se estivessem completos, seriam memória; como fragmentos, são eternas possibilidades. Somos todos, no fundo, a soma voraz desses pequenos textos à espera de um final que, poeticamente, nunca chegará.
E é nessa espera, nessa promessa suspensa, que encontramos a liberdade mais pura. O texto completo é um corpo fechado; ele não pode mais mudar, não pode mais se contradizer. Sua verdade é finita. Já o fragmento, o pequeno texto voraz, mantém todas as suas portas e janelas abertas. Ele carrega consigo o peso do "ainda não", a energia do "e se". Essa incompletude nos obriga a voltar, a tentar de novo, a continuar o diálogo com a página, com a vida. No fundo, a crônica da nossa existência é apenas uma coleção de começos brilhantes e meios confusos. E o maior ato de autoconhecimento é amar esse caos, reconhecendo que a única forma de o Ser Humano não se tornar um objeto de museu, frio e intocável, é permanecer, para sempre, um rascunho apaixonado.
O nosso legado, quando partirmos, não será a obra terminada que deixamos sobre a mesa, mas sim a pilha de papéis a meio. Não é o livro publicado, mas a anotação na margem que revela a dúvida mais íntima do autor. O que fala verdadeiramente sobre nós é o conjunto de pontos de interrogação que não conseguimos resolver, as ideias que foram grandes demais para caber numa única frase. São esses fragmentos de pensamento, carregados de vida não vivida e intenção pura, que se tornam convites para quem vier depois. São a nossa maneira de dizer: "Continue, a história não é minha, mas nossa". E assim, nesse mapa voraz e intrépido de textos inacabados, encontramos a nossa mais profunda e mais humana imortalidade: a de sermos possibilidade até ao último suspiro.
ESTADO DE SÍTIO EM UM PAÍS UTÓPICO REALISTA
O que se comenta em bares, cafés, estações de metrô e trem, e nas rádios do nosso País?
Ouço murmúrios em cada canto da cidade, e acredito que este sentimento de insatisfação se estenda por todo o país. Há um sistema defasado e centralizador nas esferas políticas, o que é reflexo direto do modo como agem.
Os valores da nação estão acometidos por uma gravíssima doença, quase incurável. Essa enfermidade, simbolicamente comparável a um câncer ou uma peste, ataca a própria moralidade e ética. Podemos até afirmar que a nossa política se encontra na UTI da benevolência e do caráter.
A "peste-negra" chamada corrupção instalou-se sob a alcunha de Petrolão, Mensalão e outras mazelas que o povo desconhece, muitas ainda mantidas debaixo do tapete. Acredito, porém, que essa chaga vem de muito longe e parece ter se tornado uma cultura intrínseca à política brasileira.
A sede por poder criou um círculo vicioso, onde os interesses de um partido se sobrepõem aos da pátria. Os líderes deveriam, na verdade, agir de forma apartidária quando a necessidade de um povo está em questão.
Não há compaixão pelo que fazem. Por essa e tantas outras razões, o País caminha para o abismo, para a falência de seus órgãos vitais. Tem sido esbofeteado e exposto há anos, ridicularizado e fadado à própria sorte, carregando em seu gene a "Síndrome da Corrupção".
Não há mais o amor pela nação de outrora. A intelectualidade está em declínio, e a cada ano, conhecimentos básicos são retirados dos currículos. Alguém sabe me responder por que tiraram a matéria Educação Cívica? Por essa e outras razões, vemos a queda na qualidade do ensino nas escolas. Não quero nem citar a questão dos professores, que é um assunto sistemático e complexo por si só.
Reforma Política, Agrária, Previdenciária... são palavras que ouço desde o primeiro ano escolar. Já se passaram 40 anos, e acredito que levaremos mais 40 até que comecem, de fato, a pensar seriamente nessas reformas.
Transformaram os nossos jovens em "soldados do tráfico". E estes jovens, por sua vez, matam, roubam e fazem o que bem entendem com o cidadão que paga os seus impostos. Esta geração está marginalizada, perdida, sem sonhos e sem projetos de vida.
As escolas e faculdades de hoje parecem uma indústria, fabricando "peças" (pessoas), sem se importar com o lado humano, e deixando de lado a criatividade, os talentos e os recursos que cada indivíduo carrega dentro de si.
Os sonhos de cada um foram comprometidos e arquivados no "arquivo morto" da vida, devido às ações e à ótica míope dos que estão no poder (este último grupo sendo menos prejudicial do que a doença original).
Enfim, o otimismo persiste. Mas há uma guerra a ser travada. Não uma guerra com armas, tanques ou armamentos bélicos, mas uma que precisa ser vencida pela união do povo, pela união da grande Nação chamada Brasil. Isso significa escolher bem o seu candidato, investigando e pesquisando sobre cada um que irá receber seu voto, e influenciando outros a fazerem o mesmo, para saber se o candidato é realmente merecedor.
Vamos mudar o roteiro deste triste filme e reverter o drama brasileiro para que ele tenha um Final Feliz!
O Observador: Ensaio Poético-Filosófico
O observador é o artífice silencioso da tapeçaria do real. Não é apenas um espelho passivo que reflete o mundo, mas a própria lente que o contém, o define e, em seu ato mais íntimo, o convoca à existência.
É o ponto de inflexão onde o caos se curva à ordem, o limite vibrante entre o que é e o que poderia ser. Antes de sua visão, a matéria é apenas uma nuvem de probabilidades; após seu olhar, ela se solidifica em tempo e espaço, ganhando forma, textura e, mais crucialmente, significado.
O observador é o verbo que nomeia, e ao nomear a estrela, o grão de areia ou a dor sutil, ele os retira do limbo da indiferença cósmica para inseri-los na eternidade do instante vivido. Sem a pupila cósmica para captar a luz fugaz, a cor seria mera frequência; com ela, a cor se transforma em melancolia ou esperança.
Ele carrega o paradoxo da criação: ao tentar mapear a vastidão do universo, acaba por traçar as fronteiras da sua própria consciência. Cada nota musical ouvida é um eco de uma corda interna, cada paisagem admirada é uma moldura para o seu estado d'alma. O mundo exterior torna-se um vasto oceano de metáforas à espera de um navegante para lhes dar sentido.
Este artífice opera não pelo ruído ou pelo esforço, mas pelo foco da atenção. A sua verdadeira ferramenta é o silêncio concentrado. É no vazio da expectação que a onda de possibilidades se quebra, e o observável emerge. O objeto existe porque foi procurado, e a sua definição final é o preço da sua visibilidade. Nisto reside a sublime responsabilidade do ser consciente: escolher, pelo simples ato de ver, qual dos infinitos mundos paralelos irá se manifestar no agora irrecusável.
O observador é, portanto, mais do que um físico quântico da realidade; é um juiz inerente. A sua presença impõe a moral ao universo, transformando o ato neutro em ação carregada de responsabilidade. Ele não só vê o que é justo, mas, ao ver, sente o imperativo de agir. É nele que a ética se enraíza, pois a diferença entre o vazio e o valor reside na sua capacidade de atribuir peso, significado e uma direção teleológica ao fluxo incessante da existência. Ele é a bússola que aponta para o Bem, mesmo que esteja perdido no nevoeiro.
O observador é também o repositório, o arquivo vivo onde o efêmero adquire ressonância. A memória não é a simples recuperação de um facto, mas um ato contínuo de re-observação, onde o passado é constantemente refeito à luz do presente. É nesse vasto teatro interno que a experiência se destila em sabedoria, e o indivíduo transcende o seu tempo biológico. Ao reter e projetar, ele costura a linha da história, garantindo que o ciclo da vida, da cultura e do significado não se desfaça na indiferença de um universo que, sem ele, seria apenas ruído.
Em última e mais sublime instância, o observador é a condição necessária para o Ser. É o universo, desperto, tentando se compreender através da forma mais refinada da matéria: a consciência. Ao se colocar neste papel, ele não só testemunha o mundo, mas se torna a fundação que permite ao tempo fluir, ao passado persistir e ao futuro se desdobrar. Ele é, e sempre será, o ponto zero da verdade particular, o sopro que garante que o espetáculo da existência jamais se apague.
O Paradoxo do Circunflexo
O paradoxo do circunflexo reside na sua natureza de montanha e de teto. É a seta que aponta para o zênite — um gesto de elevação, de ápice, um convite ao etéreo. Mas, ao mesmo tempo, é a curva que sela, que fixa o som ao chão da ênfase, impedindo-o de flutuar livremente no ar da possibilidade.
Ele é o acento da gravidade na leveza da vogal. O "a" torna-se "â", uma planície elevada, um platô onde a sílaba repousa com dignidade. É o peso específico da palavra, o local onde o tempo se concentra para que o som não passe despercebido, forçando o leitor à pausa, ao respeito pela sílaba coroada.
Na sua forma, ele mimetiza o telhado de um templo ou a aba de um chapéu: um abrigo. A vogal acentuada não é mais uma nota passageira; ela é uma câmara onde o som ressoa com maior profundidade, isolado do murmúrio geral. É o lugar de onde a palavra retira a sua autoridade, o ponto de não retorno que transforma o simples metro no solene mêtro.
Filosoficamente, o circunflexo é a marca da alma humana que busca o sublime (a ponta ascendente), mas que está eternamente vinculada ao concreto, à carne e à finitude (a base que se fecha sobre a vogal). Ele representa o êxtase que se lembra da existência, a memória do voo confinada ao corpo.
É o nosso próprio desejo de transcendência: queremos alcançar o pico, mas para isso, precisamos de um sólido ponto de apoio. O circunflexo, esse pequeno triângulo sobre a vogal, é o lembrete de que a força de uma ascensão reside sempre na profundidade da sua raiz.
