Jerônimo Bento de Santana Neto

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Na fome, a autenticidade vira luxo.

O mundo é aleatório, violento e muitas vezes sem sentido.


A vida não é cinematográfica. Ela é caótica.


E você é o improvável protagonista.

Há quem viva de autópsia moral: abre os defeitos dos outros para não dissecar os próprios.

Há quem viva de apontar erros: é a forma mais rasa de sentir superioridade.

Tendemos a notar falhas, não virtudes; o que incomoda prende, o que encanta escapa.

A convivência desnuda o que a distância oculta; por isso, julgamos mais os que vemos de perto.

Quanto mais perto, mais visíveis os defeitos; quanto mais longe, mais visíveis as virtudes.

O cérebro se prende ao que ameaça; o que acalma passa despercebido.


Somos moldados para notar o perigo antes da beleza.


Nossa espécie se adaptou para temer, não para admirar.

Na hipervigilância, até o gesto espontâneo pede permissão.

O teatro de horrores pós-moderno não é para amadores.

As cotas nasceram para reparar, não para separar.

Inimigo em comum une mais que amigo em comum.

Nascer para si é despedir-se do outro em si.

Antes, os amigos acolhiam nossas angústias e frustrações; hoje, no segundo encontro, já indicam terapia.

Para o mercado, é mais lucrativo patologizar a "turma do fundão" do que investir na educação.

Basta deixar de atender aos anseios para passar de amigo a bandido.

A autoridade dos pais não repousa apenas nos exemplos; eventuais incoerências não lhes retiram o poder familiar.

O paradoxo de viver sem pausas, mesmo tendo aplicativos que otimizam e liberam nosso tempo.

Embora busquemos a felicidade, parece haver uma atração pela calamidade.

A privatização dos campos de várzea rouba a infância na periferia — cobra-se ingresso para ser criança.

A tentativa de alocar a subjetividade humana em siglas visa incluir ou ampliar as prateleiras do mercado consumista?

Lugar de fala não é salvo-conduto: pode revelar tudo, ou não acrescentar nada.

Sucesso: brilho que afasta. Fracasso: traço que aproxima.

O oprimido afaga nossa vaidade; o privilegiado desperta nossa ira.

Presenciamos uma tirania da felicidade, onde a introspecção é censurada e a tristeza, ridicularizada.