Graciliano Ramos

1 - 25 do total de 26 pensamentos de Graciliano Ramos

Escolher marido por dinheiro. Que miséria! Não há pior espécie de prostituição.

Graciliano Ramos
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Se a única coisa que de o homem terá certeza é a morte; a única certeza do brasileiro é o carnaval no próximo ano.

Graciliano Ramos
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Quando se quer bem a uma pessoa a presença dela conforta. Só a presença, não é necessário mais nada.

Graciliano Ramos
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Necessitando pensar, pensei que é esquisito este costume de viverem os machos apartados das fêmeas. Quando se entendem, quase sempre são levados por motivos que se referem ao sexo. Vem daí talvez a malícia excessiva que há em torno de coisas feitas inocentemente. Dirijo-me a uma senhora, e ela se encolhe e se arrepia toda.
Se não se encolhe nem se arrepia, um sujeito que está de fora jura que há safadeza no caso.

Graciliano Ramos
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Queria endurecer o coração, eliminar o passado, fazer com ele o que faço quando emendo um período — riscar, engrossar os riscos e transformá-los em borrões, suprimir todas as letras, não deixar vestígio de idéias obliteradas.

Graciliano Ramos
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Cartas de amor a Heloísa

Dizes que brevemente serás a metade de minha alma. A metade? Brevemente? Não: já agora és, não a metade, mas toda. Dou-te a minha alma inteira, deixe-me apenas uma pequena parte para que eu possa existir por algum tempo e adorar-te.

Graciliano Ramos
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Comovo-me em excesso, por natureza e por ofício.
Acho medonho alguém viver sem paixões.

Graciliano Ramos
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Mas é bom um cidadão pensar que tem influência no governo, embora não tenha nenhuma. Lá na fazenda o trabalhador mais desgraçado está convencido de que, se deixar a peroba, o serviço emperra. Eu cultivo a ilusão.

Graciliano Ramos
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É o processo que adoto: extraio dos acontecimentos algumas parcelas; o resto é bagaço.

Graciliano Ramos
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Mas no tempo não havia horas.

Graciliano Ramos
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Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício.

Graciliano Ramos
Inserida por newtonsilva

Lá estão novamente gritando os meus desejos. Calam-se acovardados, tornam-se inofensivos, transformam-se, correm para a vila recomposta. Um arrepio atravessa-me a espinha, inteiriça-me os dedos sobre o papel. Naturalmente são os desejos que fazem isto, mas atribuo a coisa à chuva que bate no telhado e à recordação daquela peneira ranzinza que descia do céu dia e dias.

Graciliano Ramos
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Quem escreve deve ter todo o cuidado para a coisa não sair molhada. Da página que foi escrita não deve pingar nenhuma palavra, a não ser as desnecessárias. É como pano lavado que se estira no varal.

Graciliano Ramos
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Os escritores brasileiros, e falo dos ficcionistas de agora e mesmo os do passado, podem no meu entender ser divididos em duas categorias: os que têm uma 'maneira' de escrever, e são poucos, e os que têm 'jeito', que são alguns mais numerosos. O resto é porcaria.

Graciliano Ramos
Inserida por DavidFrancisco

Salvo raríssimas exceções, os modernistas brasileiros eram uns cabotinos. Enquanto outros procuravam estudar alguma coisa, ver, sentir, eles importavam Marinetti. Está visto que excluo Bandeira, por exemplo, que aliás não é propriamente modernista. Fez sonetos, foi parnasiano.

Graciliano Ramos
Inserida por DavidFrancisco

Só posso escrever o que sou. E se os personagens se comportam de modos diferentes, é porque não sou um só.

Graciliano Ramos
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Certos lugares que me davam prazer tornaram-se odiosos. Passo diante de uma livraria, olho com desgosto as vitrinas, tenho a impressão de que se acham ali pessoas, exibindo títulos e preços nos rostos, vendendo-se. É uma espécie de prostituição.

Graciliano Ramos
Inserida por DavidFrancisco

Se a igualdade entre os homens - que busco e desejo - for o desrespeito ao ser humano, fugirei dela.

Graciliano Ramos
Inserida por DavidFrancisco

Não há talento que resista à ignorância da língua.

Graciliano Ramos
Inserida por DavidFrancisco

"Nunca presto atenção nas coisas, não sei para que diabo quero olhos. Trancado num quarto, sapecando as pestanas em cima de um livro, como sou vaidoso, como sou besta!”

( em 'Angústia', 1936.)

Graciliano Ramos
Inserida por portalraizes

Fiz coisas boas que me trouxeram prejuízos; fiz coisas ruins que me deram lucro”.

Graciliano Ramos
Inserida por ADAGIOSEAFORISMOS

O Chefe Político
Possuímos, segundo dizem os entendidos, três poderes: o Executivo, que é o dono da casa, o Legislativo e o Judiciário, domésticos, moços de recados; gente assalariada para o patrão fazer figura e deitar empáfia diante das visitas. Resta ainda um quarto poder, coisa vaga, imponderável, mas que é tacitamente considerado o sumário dos outros três. (...) Aí está o rombo na Constituição quando ela for revista, metendo-se nela a figura interessante do chefe político, que é a única força de verdade. O resto é lorota.”
(Graciliano Ramos, em artigo de 1915, no Jornal de Alagoas)

Graciliano Ramos
Inserida por OswaldoWendell

Só conseguimos deitar no papel os nossos sentimentos, a nossa vida.

Graciliano Ramos
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Começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas
com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos
estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei,
ainda nos podemos mexer.

Graciliano Ramos
Inserida por EmOutrasPalavras

Resumo de "São Bernardo" de Graciliano Ramos

Paulo Honório, fazendeiro embrutecido, viúvo e solitário, aos cinqüenta anos decide escrever um livro para rever e entender sua vida. Inicialmente, imagina elaborar o livro com a colaboração de padre Silvestre, do advogado João Nogueira e de Azevedo Gondim, um jornalista, que seria responsável por reescrever em linguagem literária o relato. A escritura a tantas mãos é frustrada. Paulo Honório, então, desfaz o compromisso. Passa a construir a narrativa, solitariamente, e, durante quatro meses, sentado à mesa da sala de jantar, fumando cachimbo e bebendo café, recupera lembranças, como se sentisse obrigado a escrever e, emocionadamente, expõe e analisa a própria vida.

A narrativa de Paulo Honório

Paulo Honório foi um menino órfão, criado por uma negra doceira _ . Na infância, para sobreviver, guiava um cego e vendia cocadas. Mais tarde, passou a trabalhar na roça. Até dezoito anos trabalhou duro no sertão. Nessa época, já se mostrava um homem rude, hostil, quando, por desejo de lavar a honra, esfaqueia João Fagundes, matuto que se envolve com Germana, uma mulher que o iniciara sexualmente _ . É preso por três anos, nove meses e quinze dias. Durante a prisão, aprende a ler com o sapateiro Joaquim, esquece Germana e pensa apenas em juntar dinheiro, assim que ganhasse liberdade.

Sai da cadeia, empresta a juro, do agiota Pereira, cem mil-réis e passa a negociar redes, gado, e todo o tipo de miudeza pelo sertão. Enfrenta hostilidades, injustiças, sede, fome. Resolve impasses comerciais com ameaças e armas na mão, até que, com certas economias, retorna, em companhia de Casimiro Lopes, para sua terra, Viçosa, com o desejo inabalável de adquirir São Bernardo, a fazenda onde fora trabalhador alugado.

Para realizar seu intento, Paulo Honório inicia um jogo de intenções veladas e uma amizade falsa com Luís Padilha, herdeiro de São Bernardo, moço apaixonado por jogo, mulheres e bebida. Aos poucos, Paulo Honório ganha a confiança de Luís Padilha, filho de seu antigo patrão. Passa a incentivar e financiar projetos errados e ingênuos do inexperiente Padilha, com a intenção calculada de promover a ruína econômica e financeira do dono de São Bernardo _ . Com promissórias vencidas e pressionado violentamente por Paulo Honório, Luís Padilha se vê forçado a entregar a fazenda por um valor insignificante _ .

Proprietário da fazenda, Paulo Honório canaliza todo o seu espírito empreendedor e transforma as terras abandonadas de São Bernardo. Com a ajuda de Casimiro Lopes, manda matar Mendonça, fazendeiro vizinho, estendendo, assim, os limites das próprias terras. Consegue empréstimos em bancos, investe em máquinas, na plantação de algodão e mamona e desenvolve a fruticultura. Constrói estradas para escoar os produtos, impõe-se um ritmo exaustivo de trabalho, torna-se cada vez mais bruto, violento, comete injustiças, mete-se em negociatas. Estabelece uma rede de relacionamentos úteis que lhe garantem impunidade: conta com o apoio de Gondim, jornalista adulador, conquista Padre Silvestre e o advogado Nogueira, que o auxilia em trapaças e manipula, de acordo com os seus interesses, os políticos do local.

São Bernardo prospera e Paulo Honório contrata Sr. Ribeiro para escrituração dos livros de contabilidade; constrói uma escola para alfabetizar os empregados e, principalmente, para agradar ao governador de Alagoas. Contrata Padilha como professor, manda buscar a velha Margarida, a negra doceira que o criara, e lhe arranja moradia na fazenda _ .

Certa manhã, vivendo a satisfação da prosperidade, Paulo Honório decide casar-se, não porque estivesse enamorado por alguma mulher; a idéia de casamento lhe vem, quando percebe que necessitaria de um herdeiro para suas ricas terras. Começa, então, a elaborar mentalmente a mulher que procurava; chegou a avaliar a adequação das filhas e irmãs dos amigos. Nenhuma lhe agradava, até que conhece, na casa do juiz Magalhães, Madalena, uma professora primária. Impressionado com a moça, decide casar-se. Com a mesma energia, praticidade e determinação com que gerencia sua propriedade, toma informações sobre a vida de Madalena e, como em uma negociação, convence-a a casar-se com ele _ .

Madalena e sua tia Glória chegam à fazenda e, oito dias após o casamento, Paulo Honório se dá conta de que a rotina começa a ser alterada. Madalena, com sua delicadeza e humanidade, acode as necessidades de mestre Caetano, interessa-se pela vida dos empregados, dá opiniões sobre o trabalho precário do professor Luís Padilha, exige a compra de variados materiais pedagógicos e passa a dividir as tarefas de escrituração com Seu Ribeiro. Esse comportamento de Madalena, aos poucos, vai incomodando profundamente Paulo Honório, que a imaginava uma frágil normalista. Iniciam-se as brigas entre o casal: evidencia-se a personalidade violenta de Paulo Honório.

Desorientado por não dominar a mulher como controlava todas as pessoas à sua volta, Paulo Honório revela um ciúme excessivo; torna-se cada vez mais agressivo e expande os maus tratos a todos, que de algum modo, convivem com a mulher _ . O nascimento do filho não lhe ameniza as desconfianças; é torturado por fantasias de infidelidade, julga-se traído por Madalena.

Certa noite, durante a visita de Dr. Magalhães, Paulo Honório percebe que o juiz e Madalena conversam animadamente. Este fato lhe acrescenta mais dúvidas sobre a infidelidade da mulher. Durante a madrugada, atormenta-se por imaginar o prazer que um intelectual, como Dr. Magalhães, poderia despertar em Madalena. Compara-se ao juiz, sente-se bruto, inculto, convence-se de que a traição de Madalena era inevitável. Acusa-a grosseiramente de envolver-se com outros homens, numa cena de extraordinário ciúme _ .

No dia seguinte, encontra Madalena muito abatida, escrevendo uma carta. Aproxima-se da mulher e lê o endereço de Azevedo Gondim. Novamente, descontrola-se e exige que Madalena lhe entregue a carta. Discutem violentamente, Madalena rasga os papéis e acusa-o de assassino _ . Mais tarde, Paulo Honório acalma-se e percebe a brutalidade cometida; na verdade, sabia que Madalena era honesta. No entanto, não se esquecia do insulto. Acredita que Padilha teria revelado a verdade sobre o assassinato de Mendonça. Procura-o com a intenção de expulsá-lo da fazenda, quando o empregado lhe garante fidelidade e obediência, afirmando que Madalena soubera do fato por meio da população que contava várias histórias sobre a vida do marido.

As dúvidas sobre a infidelidade da mulher tornavam-se intoleráveis. Durante a noite, Paulo Honório passa a ter delírios: ouve passos, ruídos, convence-se da presença de amantes da mulher, enquanto esta encolhia-se na cama, não suportando tantas agressões e desconfianças. Agrava-se o sofrimento e a solidão de Madalena, que já não resiste aos ciúmes brutais e à tirania do marido. Sente-se degradada em sua dignidade, humilhada, mostra-se, inclusive, desinteressada pelo próprio filho _ .

Uma tarde, na torre da igreja, vendo Marciano procurar corujas, Paulo Honório avalia, do alto, a paisagem da fazenda. Detém o olhar nas extensas plantações, contempla com orgulho a propriedade, quando observa Madalena escrevendo. Desce da torre, confere o trabalho dos empregados, e, defronte do escritório, encontra no chão a folha de uma carta. É, então, tomado por intenso ódio e desconfiança. Lê e relê o fragmento de um texto e fica furioso por ter certeza de que se tratava de uma correspondência destinada a um homem.

Decidido acabar com aquele tormento, sai à procura de Madalena. Encontra-a serena, na saída da igreja. Exige explicações, exaspera-se, quer saber para quem a mulher escrevia. Madalena, de maneira meio estranha e desanimada, lhe diz que as outras folhas que compunham a carta estavam sobre a bancada do escritório. Em seguida, pede-lhe perdão pelos aborrecimentos e afirma que os ciúmes do marido estragaram a vida dos dois. Sugere-lhe que seja amigo de tia Glória e sai da igreja. Paulo Honório passa a noite meio entorpecido no banco da sacristia.

Na manhã seguinte, quando chega a casa, ouve gritos horríveis. Madalena suicidara-se. Havia manchas de líquidos e cacos de vidro no chão. Sobre a bancada, havia um envelope com uma carta de despedida para Paulo Honório. Faltava uma página, exatamente aquela que ele havia encontrado, no dia anterior _ .

Após a morte de Madalena, D. Glória e Sr. Ribeiro deixam São Bernardo. Tem início a Revolução de 30, Padilha junta-se aos revolucionários; Paulo Honório passa a ter dificuldades nos negócios. Os limites da fazenda estão sendo discutidos judicialmente o Dr. Magalhães é afastado do cargo. Paulo Honório está abandonado.

Assim, em meio à profunda solidão, ouvindo insistentes pios de coruja, tendo Casimiro Lopes e o cachorro Tubarão por perto, Paulo Honório compõe a sua narrativa. Sentado à mesa da sala, fumando cachimbo e bebendo café, restaura o passado e percebe nitidamente a própria brutalidade; o processo de desumanização por que passou, enfrentando a vida rude no sertão. Tem consciência de que sua vida, orientada para os interesses externos, não somente o tornou egoísta e cruel, como também destruiu estupidamente as pessoas de suas relações. Incapaz de transformar-se, Paulo Honório busca algum sentido, algum equilíbrio para sua vida, refletindo sobre recordações e escrevendo a sua narrativa.

Graciliano Ramos
Inserida por carlosmachado67