Giulio Cesare
Às vezes, estamos tão longe de nós que só conseguimos nos ver com binóculos - o que, ainda assim, tá ótimo. Pior, e muito pior, seria que nem com binóculos.
Muita gente não percebe a verdadeira dimensão de uma amizade fraterna e sincera: uma via de mão dupla, de tráfego intenso, sob patrocínio do coração — um presente que nos damos.
Ainda não inventaram e não inventarão cola para colar cristal. Caiu, quebrou, fragmentou: é descarte, é lixo, é fim de papo. Idem, idem - análoga à credibilidade, que tem a mesma natureza do cristal.
Não custa lembrar: são os erros que nos ensinam a errar menos. Porém, o maior erro que podemos cometer é ter medo de errar — assassino da criatividade, do desenvolvimento, da evolução e do sucesso.
Hoje, num mundo onde o mocinho e bandido se confundem; onde é difícil saber que é a mamãe e quem é o papai; onde a narrativa se julga soberana diante da verdade; onde a máquina já pensa e, não duvido, já sonhe; eis um perplexo veterano com a pecha de ultrapassado, com todas as loucuras da modernidade, declara e afirma para todo sempre que: eu acredito no amor.
A urgência pelo sucesso para uns e para outros pela sobrevivência; o tempo cada vez mais em competição olímpica; solidão na multidão e, pior, em família; a avalanche digital da informação que nos tira o filtro que separa a verdade da mentira; o engessamento da empatia, sensibilidade e da intuição; um único momento de reflexão pela leitura, não de um livro, mas por uma simples frase, pode despertar a reprogramação de uma vida.
Portanto, quem puder se doe com a palavra, compartilhe sua experiência com o positivismo e a luz. Pode ser sim de grande ajuda.
Já pensaram quantos cometas, meteoros e estrelas cadentes passaram não pelos nossos olhos, mas pelo nosso coração?
Da esperança à absoluta certeza, revendo milênios e séculos, todas as coleiras impostas ao povo pelos tiranos foram rompidas, levando-os do trono à jaula até o cadafalso. Absolutismo e autoritarismo têm validade. O povo é e sempre será, o único soberano das comunas, regiões e Estados. Para quem padece, convém lembrar.
Esperança é uma coisa que dá e passa? Não! A pergunta para lembrar que a Esperança é uma busca. Esperança é continuidade, é estímulo. Esperança não pode passar; tem que ficar, prosperar e se materializar. Esperança é a maior inimiga do caos e a fiel companheira da vida.
Num mundo cada vez mais dissimulado, amparado e estimulado pela tecnologia; num tempo em que a verdade perde credibilidade, os fatos se transformam em pressupostos e achismos, e o sentimento é banalizado pela propriedade; o amor a si mesmo e ao próximo permanece como a última barreira, cidadela ou trincheira de defesa. Não se esqueça: ele é o seu fato.
Um veterano olha para trás, vê a vida passando, acelerando, o horizonte se distanciando e perdendo de vista. Fica prosa por estar ainda na estrada, sem dar a mínima para o que vem à frente e o destino final. Mas fica triste pelas boas companhias perdidas ao longo das estradas da sua vida.
O Sorriso, o sorrir quebra o mau humor ambiente. É um recurso natural disponível na face, de grande valia. Com seu sorriso, conseguir mudar uma cara carrancuda para outro sorriso é ganhar o dia, boas energias e um indicativo para um belo dia.
Dia após dia, num presente bobão ou autista, cujo passado esconde a saudade, sendo a realidade uma metáfora da vida, padecendo de uma perene mitomania, dentro de um sufocante avatar, que tudo dissimula num palco de alegria.
Perguntado ao coração qual a diferença entre paixão e amor, com a convicção de fiel depositário da verdade respondeu: paixão é uma dependência quase química, uma necessidade com prazo de validade. Já o amor é uma conexão afetiva sem prazo de validade; aliás, podendo até ser imortal.
O problema quando recebe um abraço apertado, gostoso, energético, eletrizante, daqueles que não quer sair. Vem uma vontade louca de apertar e concluir com um hollywoodiano beijo. Porém, lamentavelmente acaba, retorna a distância, com ela o protocolo e fica sem saber se é namoro ou amizade. Como na cabeça de uma mulher, às vezes, nem os anjos ousam adentrar, você fica na trágica dúvida de Shakespeare: ser ou não ser. O problema enigmático continua, e a vida segue dantes no Quartel de Abrantes.
Diante de uma considerável diferença de idade, por medo, covardia ou insegurança, faz um dos amantes renunciar à união. Aí vem um genial filósofo mundano e rotula como: antagonismo temporal, fincado na pedra da solidão, e o amor, náufrago, penitenciado eternamente no mar do esquecimento.
A Navalha de Occam, ou Navalha de Ockham, criada por Guilherme de Ockham, é um princípio filosófico que sugere que, ao enfrentar várias explicações para um fenômeno, a mais simples tende a ser a correta. Em regra, a solução mais prática e econômica costuma ser a mais provável, no geral.
Ockham foi um frade franciscano inglês do século XIV. Seus conceitos filosóficos entraram em conflito com a Igreja e, como consequência, ele foi excomungado pelo Papa João XXII.
Nesse princípio, vejo uma boa reflexão quando o extrapolamos para a atualidade, em particular para o nosso país.
Mês de junho passando. Mês festeiro de Santo Antônio, São João e São Pedro. Mês de dançar quadrilhas. Mês do quentão e do salsichão. Mês do frio. Mês dos namorados. Mês de ficar na cama quentinha, com o amor de conchinha, fazendo muitas gracinhas. Mês que traz relíquias de lembranças, de muitos que hoje vivem na distância, de um mês tão feliz.
Atribui-se a Carl G. Jung a seguinte frase: "A solidão é perigosa e viciante. Quando você se dá conta da paz que existe nela, não quer mais lidar com as pessoas."
A solidão oferece paz, silêncio e autoconhecimento. Porém, quando se torna morada definitiva, afasta-nos da convivência, dos afetos e da própria vida.
Quem sempre esteve certa era minha avó, filósofa da simplicidade: "Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Tudo em excesso faz mal."
Metamorfose: da ave belíssima para um tatu. Do voo migratório entre continentes para debaixo da terra. De trocar a luz do sol pelas trevas de uma toca. Da vida em bando para a mais absoluta solidão. De contemplar longínquos horizontes para mal ver próprio focinho; e da vocação de buscar a estratosfera para a espera de ser consumido pela terra.
Interessante: o desventurado ou exótico ser, sem o mais remoto parentesco com hienas, ainda sorri. Pasmem, existem vários exemplares por aí
Uma boa evidência e alerta é quando os próximos passam a ficar distantes: é o sintoma de que você virou um ‘chatão’. Aliás, que fique registrado: se os próximos não reclamaram e sumiram à ‘francesa’, nunca foram. Duas, uma: recorra à psicanálise ou ligue o ‘foda-se’, assuma o ‘chatão’ e saia do armário. Assim, quem sabe, seja realizado, feliz e passe a ter próximos, ou melhor, amigos de verdade.
Uma reflexão sobre um adjetivo e um verbo: sensorial e sentir.
Sensorial é o físico: visão, audição, olfato, tato e paladar, como o toque de um abraço, o cheiro de alguém querido, o som da voz que conforta.
Sentir é muito mais amplo: pode ser físico, emocional ou até metafísico. Não depende apenas dos sentidos; pode existir mesmo à distância, sem contato físico, como quando sentimos alguém que não está presente.
Amor é sentir.
As palavras ganhos, perdas, chegadas e partidas, são marcantes em nossa existência. Suas consequências, efeitos diretos e colaterais, são moduladas pelas etapas da vida, principalmente na última: ganhos e chegadas reduzem; partidas e perdas aumentam, sendo o tempo responsável. É uma visão restrita a pessoal. Sem métrica, a simples meditação a respeito ou retrospecto da própria vida, faz assimilar e valorizar a palavra maior: tempo.
Por opção, renunciou ao palco e foi para a platéia; virou espectador. No início, ficou na primeira fila, mas com o passar dos anos, na última. Como sempre foi coadjuvante, administrou o anonimato numa boa. Esquecimento dos fãs foi natural, mas o dos colegas e amigos, doeu. Não reclama; era o contexto esperado pela sua opção, e o mundo é feito de opções, exceto ficar órfão do amor. Vive como os passarinhos vivem. Seu cotidiano: contemplar o universo pela janela. E o que restou do último ato: ainda sorri.
Tirei uma dúvida com a janela do meu quarto: além do bem-te-vi despertador de todo dia; da visita de um solitário beija-flor; e rota das maritacas, quando chego na janela não espanto a turma e não espantando, evidencia que existe empatia, solidariedade e amizade comigo também. Assim, pelo privilégio, a janela e eu ficamos felizes e confortados, pois a solidariedade é inimiga da solidão.
