Ocaso.
Fim de tarde e a janela aberta,
Fingindo ouvir o falatório vazio,
Imitando cantoria das cigarras.
Figuração.
Parecendo um sábio,
Fingia ler livros pesados,
Como se houvesse passado.
Não é fácil...
Por que sou fácil?
Não sei bem, talvez
Porque seja fóssil?
Não fumo.
E eu finjo ser quase rico,
Fazendo pose de cigarro,
Pernas cruzadas jurando,
Papel e palha em brasas,
Fumaça fugindo da boca,
Carvão dentro do peito,
Sem saber que se morre,
Que um dia se morre,
Que um dia.
Pedaçado.
Meu corpo é pedaço:
Pedacinhos de Deus,
Fragmentos de meus.
Três... Vou olhar!
Quando criança,
Contava até três,
A maldade sumia.
Quando adulto,
Não contava ser
A maldade minha.
Liturgia ou letargia?
Come, este é o meu corpo.
Bebe, este é o meu sangue.
O medo, então, se fartou.
Dias cinzas.
Branco é paz?
E o preto é ruim?
Paz do negro tem fim.
Lá vou eu!
Universo girando sem parar,
Deuses brincando de esconder,
Dentro de buracos negros.
Ressurgição.
Queria que Deus nascesse outra vez,
Desta feita sem nomes ou testamentos,
Perdoando-Se pelos velhos pecados.
Fogueira.
Dança em volta da chamas,
Cada vez mais perto,
Os medos virando fumaça.
Composto? Simples.
A vida é curta demais
Para valorizar só
Os nomes compridos.
Bem devagar...
Sol da tarde falecendo,
Esperando a lua chegar,
Sob os olhares de Dalva.
Bloqueio.
Um ritmo,
No íntimo,
O último?
Proteção?
Meias mentiras,
Meias verdades...
Estou de meias.
Caminheiros.
Mesmo acertando,
Somos todos
Errantes.
Amasso.
O teu abraço
Amassa toda
Dor do mundo.
Em sumo.
Sonho?
De consumo?
Que você não suma.
Te sinto, logo existo.
Teu toque,
Teu cheiro...
Sim, eu existo.
Violência doméstica.
Arranquei teus medos,
Rasguei teus pudores,
Antes de te consumir.
Invasão.
Sandália no pé,
Fazendo amor
Como vândalos.
Par estesias.
As vestes no chão,
Sinto tuas pernas e
Não sinto as minhas.
Primeira luz.
A manhã chegando,
Céu desabotoado a
Tua pele estrelada.
Fogo brando?
É deveras paradoxal:
Quanto mais frios ficamos,
Mais perto do inferno.
Verdadeiro.
Amigo:
Não se escolhe,
Se colhe.