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Fernando kabral

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Foi nesse contexto que eu nasci.


Dois dos meus irmãos passaram a rodar a cidade de Olinda, indo de casa em casa, durante toda a vida. Eu sempre soube da existência deles, mas nunca os conheci pessoalmente, porque a minha avó não permitia que eu tivesse contato. Eu era impedido de conviver com eles.


Fui criado dentro de uma casa fechada. Não tinha acesso à rua, não tinha acesso à convivência. Era assim a cultura da época. Uma espécie de prisão. Muitas vezes eu ficava trancado dentro de um quarto escuro, principalmente por eu ser um menino muito elétrico.


Os castigos eram constantes. Começavam em casa e continuavam na escola. Muitos deles envolviam ficar de joelhos sobre caroços de feijão. Foram muitas violências físicas e emocionais, que hoje eu reconheço como torturas.


Eu só vim conhecer o que era infância perto dos meus 15 anos, quando fui para o Rio de Janeiro. Nesse período, minha própria avó já não me aguentava mais. Eu havia entrado em um processo de rebeldia que fugia completamente ao controle que ela tentava exercer sobre mim, inclusive por meio da religião.


O primeiro livro que eu li na vida, e do qual jamais vou esquecer, foi “A Verdade que Conduz à Vida Eterna”. A partir dali, comecei a me questionar profundamente. Que Deus é esse que permite que crianças sejam mantidas trancadas, sofrendo, enquanto adultos observam calados? Que Deus é esse que convive com hipocrisia e com abusos, inclusive abusos sexuais contra crianças, praticados por pessoas próximas, muitas vezes ligadas ao ambiente religioso, em quem minha avó confiava cegamente?


Nada disso se apaga. Não adianta tentar suavizar. Nada muda a dor que senti naquele momento e a dor que ainda sinto hoje. É por isso que, em muitos momentos da minha vida, eu só consegui dizer: mundo, afasta de mim esse cálice.


Dando continuidade, meu irmão Joel, o mais novo, que tinha apenas 40 dias de nascido quando ficou trancado naquela casa, foi criado pela minha avó paterna, mãe do meu pai. Eu fui criado pela minha avó materna, mãe da minha mãe. Cada um de nós seguiu um caminho separado.


Eu só fui entender, de fato, o que era família por volta dos 15 anos. Foi quando saí de Olinda e fui para o Rio de Janeiro. Lá encontrei uma estrutura familiar diferente, já formada. Foi ali que ganhei mais dois irmãos, do segundo e verdadeiro casamento da minha mãe.


Esse homem, companheiro da minha mãe até os últimos dias da vida dela, tem todo o meu respeito. Ele cuidou não apenas dos filhos dele, mas também de dois filhos que não eram biologicamente dele, mas eram filhos dela. Foi ali que eu vi, pela primeira vez, um cuidado real.


Minha mãe só voltou a ter contato com os filhos que moravam em São Paulo quando eu fui para lá, depois do período no Rio de Janeiro. Fui eu quem trouxe esses irmãos para ela reencontrar. De tão distante que tudo tinha ficado, ela já nem lembrava mais como esses meninos eram.


É desse lugar que eu falo quando falo de rejeição. Não é teoria. É história vivida.


Fernando Kabral


7 de janeiro de 2026
9:58


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A SEXTA-FEIRA É SANTA!


Hoje é Sexta-feira Santa. Uma data que, independente de crença, carrega um peso simbólico que ninguém nega. Um dia de pausa, de reflexão, de olhar para dentro e para o que realmente importa.


É com esse espírito que escrevo.


De todos os grupos que participo no WhatsApp, o grupo do PT de Olinda é onde me sinto mais em casa, entre companheiros e companheiras. É o primeiro lugar que venho buscar informação para compartilhar conteúdo do meu território. Às vezes encontro. Mas raramente o suficiente.


Vivemos conquistas que merecem ser celebradas. Temos uma sede — um sonho realizado, fruto de muita construção coletiva. Temos conteúdo de qualidade nas redes, algo que quem trabalhou anos de forma artesanal reconhece com admiração genuína. Temos a trajetória inspiradora da senadora Teresa Leitão, que tantos de nós contribuímos a construir e que segue sendo referência.


É justamente por esse sentimento de pertencimento que deixo uma reflexão sincera.


Este espaço poderia ser ainda mais cuidado como canal de convivência e orientação militante. A informação decisória — aquela que não está no Instagram nem no Facebook, aquela que nasce do processo interno do partido — muitas vezes não chega até aqui. E quando não chega, fica uma lacuna difícil de preencher pelas redes.


Não trago isso como crítica, mas como desejo. O desejo de quem acredita que o processo coletivo se fortalece quando todos estão dentro, não à margem. Em um ano como 2026, com tantos espaços de formação política já em andamento, como a Nova Primavera, este grupo poderia ser mais um canal de conexão com essas iniciativas — um espaço de construção e educação política para a militância de Olinda.


Quando nos aproximamos entre nós, ficamos mais fortes. Quando nos afastamos, quem ganha é a extrema direita.


O Partido dos Trabalhadores é maior do que qualquer momento ou gestão. Todos nós somos passageiros, mas o partido permanece. Nosso papel é construir e deixar legado.


Que essa Sexta-feira Santa nos convide a cuidar melhor do que é nosso. Com afeto, com responsabilidade e com a disposição de seguir juntos.


03 de abril de 2026 — 11h29

“Quando a base fala da sua realidade concreta”