Felipe Magister
dentro dela já havia morrido tanta gente
que seu coração virou um cemitério,
e os fantasmas dos amores anteriores vagavam
em todas suas relações
Não se perca se comparando com os outros. Lua e estrelas são diferentes, e nem por isso deixam de brilhar.
não me sinto desconfortável em estar só.
não me sinto desconfortável chegando numa festa desacompanhado, ou ir a um restaurante e pedir um café, enquanto todos a minha voltadesfrutam da presença de alguém.
não me sinto desconfortável caminhando sozinho no parque numa tarde fria de outono, me sentar num banco de praça ouna areia da praia em pleno verão.
desconfortável eu me sentiria em estar rodeado, e mesmo assim, me sentir só.
o amor arranca nossas vestes
e nos deixa nus
desmitifica nossos achismos
revira nossos tabus
é no corpo que ele nos toca e deixa marcas
cicatrizes
e digitais
é no toque que ele nos envolve
nos deixa vulneráveis
e iguais
é vento etéreo que sopra em nossos cabelos
nos desejando livres
e aceitando nossas diferenças
é cachoeira que bate em nossos corpos
livra-se dos títulos e dos status
e mesmo em sua grandeza pede licença
se faz nos versos e estrofes de um inacabado poema
sem pontuações
com muitos fins e recomeços
nos tritura em mil pedaços
em muitos restos e cacos
nos devora
dilacera
e engole por inteiro
é a explosão que nos desfaz em estilhaços
adentra pelos poros e termina na saliva
e no beijo
e quando faz doer
o que machuca no fim não nos faz morrer
ele sempre retorna das cinzas
e se refaz em calmaria
verso
canção
poesia
você diz que a minha poesia arde
mas se eu dissesse que ela queima porque ela é real
que ela deságua porque já foi mágoa
que ela transborda porque já foi rio
que chora porque hoje sorrio
você riria ou ainda a apreciaria?
se dissesse que ela grita porque meu coração que a amplifica
e toca porque minha alma personifica
que conforta porque é onde meu peito crava
e goza porque faço amor com cada palavra
você me chamaria de sádico ou amante?
de poeta ou farsante?
se dissesse que ela aprendeu a bater porque já foi surrada
que ela puxa o gatilho
mata em legítima defesa
ateia fogo nas querelas
despe, caça e se faz de presa
você chamaria a polícia ou queimaria comigo?
abraçaria minha sensibilidade
ou procuraria alguém mais raso e menos poético?
assistir uma mulher desabotoar suas inseguranças,
descalçar seus medos e despir suas fragilidades
é o prazer voyeurístico que mais me excita.
eu sou uma folha em branco, e aqueles que atravessem minha vida deixam rastros, seja num belo tracejado ou numa imensa rasura. e não importa quão incompreendido seja para aqueles que chegam. eu sou minha obra-prima, e nem toda obra de arte é feita para ser entendida.
Viver intensamente é viver com permissividade. É viver o presente com liberdade, se aprofundando e se entregando em tudo o que você faz, encarando sem medo, dos riscos às possíveis repressões. É encontrar a sua criança interior no mais denso âmago de sua alma e dizer a ela que vale a pena se desprender do peso que a sociedade impõe sobre os seus ombros,
ignorando padrões, não rebaixando a sua essência e não deixando-se levar sempre tão a sério. É ir de encontro onde poucos se aventuram, abaixo do iceberg, batendo a porta das suas emoções, mas mantendo a razão em sua pontífice com os olhos sempre bem abertos.
não erramos por dar amor
erramos em nos plantar em solos inférteis que não nascerá flor
erramos em permanecer onde não tem voz o nosso valor
erramos em esperar que nossa entrega seja reconhecida em qualquer pessoa e nela frutifique reciprocidade
A mente fechada é como o fanatismo. É não estar aberto a uma ideia que confronte a paixão pelo que se acredita, defendendo-a a todo custo, pois já não consegue enxergar a vida de outra maneira que não seja dentro da bolha que foi alimentada.
Se você está sempre fugindo dos ciclos afim de viver apenas o que é fácil,
você continuará a repeti-los até que aprenda a razão deles.
Se você está sempre fugindo dos desafetos, das diferenças, dos dias ruins e amargos da vida afim de colher apenas o que convém, você continuará anulando também os doces dela,
pois a vida é um pomar.
Não colhemos os frutos saudáveis sem conhecermos também os estragados. Não colhemos aprendizado, nem reconheceremos felicidade e amor, sem experimentarmos também sua ausência.
Você nunca será suficiente para alguém vazio, simplesmente porque é impossível tentar preencher um recipiente que está repleto de furos.
Não importa como nos vemos, de onde viemos ou como falamos. Não importa o que fazemos, o que temos ou que cor somos. No final somos o mesmo por dentro.
Todos sorrimos, todos choramos, sentimos alegria e sentimos dor.
O que realmente importa é quem somos nesses momentos.
nos rompimentos o digerimento quase nunca é fácil.
a dor causada ainda está entalada, as feridas ainda estão expostas.
você verá a impulsividade assumir as rédeas, palavras em tons ríspidos sendo atiradas ao vento, e bater de portas rompendo qualquer possibilidade de contato, restando apenas a amargura e ressaca moral.
o que é normal. faz parte do sentimento que ainda está machucado,
e isso só não ocorre quando a indiferença já havia assumido o seu lugar,
ou quando já se bebeu demasiado do cálice do próprio amor.
indiretas são tão baixas
baixas e endireitas
pessoas indiscretas
aderindo razões incompletas
teus alvos estão no alto
e tu embaixo catando treta
tão mascarada és
que proferiu-se secreta
tão afetada és
que tornastes incorreta
atiradoras fracas e descobertas
tuas palavras jamais serão concretas
Ficar é a confirmação que há química,
namoro é a afirmação pra paixão,
e casamento a firmação do amor,
mas há quem esteja ficando e sinta amor,
namore e sinta dor,
e esteja casado e não sinta mais nada.
ENTREGA
é embrulhar o seu melhor e endereçar a alguém.
é doar-se por inteiro, mergulhar fundo,
mesmo que hajam possíveis revés de falhas ou rasês.
é poético. é arte encontrando liberdade para se dissipar, revelando todas suas faces e nuances. é sair de si para habitar em algo, seja um projeto, causa ou relação. é baixar as guardas, ir de encontro ao desconhecido e deixar de ser um para ser dois.
Toda a doação que fazemos estamos tirando de nós. Mas se toda que fizermos vier do coração, não tiramos. Agraciamos.
cansei de gritarias
cansei das obstinadas tentativas
e agressões à garganta por demais quererser ouvido
de alertar
àqueles pelo que sabem bem o que fazem
de sangrar
por demais segurar para obter o mínimo
hoje me limito ao silêncio e a exclusão da minha presença
onde é preciso forçar para eu caber
meu corpo imediatamente se esgota e anseia por fuga
onde a energia que estou entregando não é bem recebida
meu ser logo me expulsa
a indiferença agarra-me pelas mãos
e me leva embora
