Ébano Andrade Masrua
Noite de 359.160 Horas
Hoje minha noite foi longa,
Nem sei bem como explicar,
Parecia que o tempo inteiro
Resolveu acelerar.
Arrisco dizer sem medo,
Pra ninguém duvidar agora:
Minha noite teve o peso
De 359.160 horas.
Horas cheias de lembranças,
De carinho e gratidão,
De pensamentos correndo
Disparados pelo coração.
Buscando qualquer maneira,
Mesmo sem arte ou teoria,
De dizer o quanto me orgulho
De ser sobrinho da minha tia.
Não sou poeta famoso,
Nem artista de profissão,
Mas quando o sentimento fala
A palavra acha direção.
Hoje escrevo o que grita
Dentro do peito, sem demora:
Um amor cheio de orgulho
Que cresce a cada aurora.
Meu coração se derrama
Em palavras pelo caminho,
Misturando frases soltas
De carinho e com carinho.
Cheio de adjetivos vivos
E figuras de linguagem:
Metáfora que ilumina,
Comparação que anuncia,
Personificação que sente,
Ironia que desafia,
Antítese mostrando opostos,
Eufemismo que alivia,
Metonímia que representa,
Hipérbole que amplifica.
Porque ser ANDRADE, minha gente,
É carregar tradição:
É ter coragem no peito
E firmeza na decisão.
É ter força na batalha,
Cuidado no coração,
Dedicação no caminho
E fé como direção.
É ter voz mansa que acalma,
Mas firmeza na razão.
Por isso digo sem medo,
Com verdade que não se esconde,
Que sua presença, minha tia,
É luz que sempre responde.
E digo "hiperbolicamente",
Pra ninguém ter dúvida agora:
Eu e toda nossa família
Te amamos mais que 359.160 mil horas.
Ainda lembro.
Ainda lembro do barulho da rede balançando.
Ainda lembro da parede do terraço pintado, imitando o amadeirado.
Lembro do meu avô deitado no terraço,
Lembro das serestas,
Lembro da vitrola tocando sua música predileta e enquanto ouvia deitado, tocava só com os dois dedos no chão para embalar o balançado.
Lembro do silêncio,
Lembro das histórias,
Lembro das piadas.
Ainda lembro do chapéu torto,
Ainda lembro do seu bico torto,
Volto a lembrar do barulho da rede do terraço.
Desde a minha mocidade
Que a mente não quer sossego,
Vem nuvem de pensamento
Me tirando o aconchego,
Feito a tal rasga-mortalha
Pousada no cajueiro,
Trazendo agouro e medo.
Mas nem toda ideia e ação
Caminham no mesmo rumo,
Às vezes a ideia nasce
Inquieta, fora do prumo,
Tem hora que a mente pira
E o peito acelera do lado esquerdo,
a ansiedade arde por dentro, bate forte e explode, feito mamona exposta ao sol forte.
Pelo gatilho do barreiro, chega e me açoita.
Recebo como visita, ideação suicida
Chega de mansinho, vem me rondar no escuro,
Eu puxo a filosófica
Pra pular esse muro!
Se a morte quer ter ideia,
A vida entra na plateia
E faz do agir seu futuro!
Desde os meus cinco anos de idade
Que o pensamento vive a martelar,
De onde viemos, pra onde vamos?
Quem é que vai explicar?
Carrego a mania do espanto,
Desafiando o barulho dos meus pensamentos, prantos, mantos, perdas e lamentos
Que o invisível quer me dar.
Talvez eu morra na caverna, quem sabe em uma tapera e continue visitando os meus abismos
Sem toda resposta achar,
Mas enquanto houver o fôlego
E a vida me empurrar,
Minha alma bota a minha cabeça pra pensar,
Pra fazer do pensamento
O véu que revela o amanhecer
Resgatando o pessimismo dos poetas como, Augusto dos Anjos a Antero de Quental e Cruz e Sousa, confronto as telas do nosso tempo.
Submerso no reels, no hype e no status, onde reina um otimismo forçado de "brilho, sou, posso... e você?", a vida real se impõe. Porque no fundo, fora do mundo "filtrogênico" e citando Clóvis de Barros, o que sobra é dor e sofrimento.
Talvez a vida seja como uma brincadeira de forca.
Nascemos diante de uma palavra que desconhecemos, formada por lacunas que precisamos preencher. A cada dia, arriscamos uma letra: algumas escolhas acertam, outras nos fazem errar. E, pouco a pouco, vamos descobrindo a palavra que a nossa própria existência está formando.
Não sabemos quantas lacunas existem, nem quantas tentativas ainda nos restam. Apenas seguimos tentando decifrar o enigma, preenchendo cada espaço com aquilo que somos, fazemos e sentimos.
Antes de nascer e depois de morrer está o desconhecido. Entre os dois, existe essa lacuna chamada vida.
E talvez viver seja justamente isso: tentar descobrir, letra por letra, o que significa estar aqui, antes que o jogo termine.
Antes de nascer e depois de morrer está o desconhecido. É ele que nos causa ansiedade e angústia, porque não vivemos mais o passado e não podemos viver o futuro. Só nos resta o hoje, esse pequeno intervalo entre o nada e o vazio.
Essa lacuna é chamada de vida. E precisa ser preenchida dia após dia, instante após instante, enquanto ainda temos a oportunidade de existir.
Dos amores da vida, qual você escolhe?
O Amor Fati ou o Eterno Retorno?
Nessas viagens repetidas de ida e de retorno,
Será que você está pronto pra pegar o mesmo voo?
Seria uma viagem espinhosa?
Com a dor e com a rosa,
Você viveria quantas vezes
Essa sina tão gloriosa?
Escute bem, meu parceiro,
O que a vida tende a mostrar:
O tempo passa "vuado",
Sem ter hora de estacionar,
E a memória do fogoió
Começa a falhar!
Pois quando sua hora chegar
De partir deste mundão,
Passam vinte, trinta anos,
Muda logo a geração,
E o nome que era forte
Esvazia a lembrança e o chão,
Como se apertar a tecla " Del" com o dedão!
Provavelmente a verdade
É dura de se escutar:
Quando você for embora
E este mundo deixar,
Seus bisnetos, no futuro,
Nem do seu primeiro nome, vão se lembrar
Quem citou essa frase dita?
Não há um único autor,
É um saber sabido e antigo,
É o bem dizer, "dizido".
Mantra de pensador,
Dos estoicos do passado
Ao sábio pregador.
Marco Aurélio já dizia
Nas páginas do seu papel:
A glória humana é poeira,
Desmancha como lápis, borracha e papel.
E a lembrança dos homens
Sobe feito fumaça de fumo ao céu.
Por isso busque o passado,
Monte a árvore no papel!
Honre a raiz da família,
Deixe escrita no blog, Instagram ou cordel,
Pois quem resgata a história
Guarda a memória dos seus
