Demétrio Pereira Sena
Trumprojeto
Demétrio Sena - Magé
O teu projeto é matar;
provaste o quanto és capaz;
mereces mesmo ganhar
o prêmio Nobel "das pás".
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Sobre o Pastor de "Três Graças"
Demétrio Sena - Magé
Fiquei frustrado ao ler que o pastor Albérico, da novela Três Graças é, na verdade, o chefão da bandidagem na comunidade fictícia da Chacrinha. Desejei que a fantasia salvasse a realidade. Que a licença poética nos desse um horizonte favorável à crença no cristianismo do século XXI. Estava mesmo feliz por imaginar que, na ficção, a exceção venceria a regra, em desagravo ao mundo real, onde a regra estrangula a exceção. O pastor Albérico tinha tudo para ser a exceção na qual precisamos acreditar, fora do estrangulamento que nos deixa sem esperanças.
Ainda espero, caso isto seja verdade, que autor e colaborador decidam pela mudança de rumo do personagem. Precisamos dessa fantasia. Dessa poesia que nos faça intuir a existência de uma exceção menos invisível; menos intocável; mais possível, na vida real. Entendo o realismo que denuncia o óbvio, mas gostaria de ver, na ficção, a exceção vencer a regra. Tornar-se a regra no folhetim, representada pelo único pastor do enredo. Precisamos sonhar que ainda existem líderes cristãos a contento, representantes legítimos do real cristianismo. Sem envolvimento com poderes paralelos (tráficos, milícias e política partidária extremista).
No fundo, nem é de religiosos (fiéis e líderes) que trato nesta reflexão. É de seres humanos, convertidos ou não a crenças (quaisquer crenças), dogmas, filosofias e até medos, capazes de transformações viáveis para um mundo melhor. Se a transformação doentia do "Jorginho Ninja" não convenceu, pois ele se converteu fragilizado pela doença e o medo do suposto inferno, valeu o efeito. Foi um opressor a menos, no universo da novela. Por ora, resta-me a frustração de não vivenciar a poesia de um líder religioso na contramão da realidade que me cerca.
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Grito
Demétrio Sena - Magé
Haverá sempre um grito
pro que não sabe ser dito;
pro que não passa de mito
do saber.
Haverá sempre um mito
pro que só sabe ser grito;
pro que não passa do dito
por dizer:
mato ou morro?
Haverá sempre um dito
pro que só sabe ser mito;
pro que não passa de grito
de socorro.
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Dos Meus Olhos Pros Seus
Demétrio Sena - Magé
Fotografar uma palha, um parafuso, um nó na madeira e uma gaveta velha, por exemplo, justifica um tratamento para que a palha, o parafuso, o nó e a gaveta ganhem contornos de arte além da fotografia, que já é uma arte. Refiro-me às edições manuais que acentuam, clareiam, escurecem e intensificam, sem descaracterizar o objeto ou o cenário. Sem distorcer ou subtrair em nada, sua originalidade.
Nada de inteligência artificial, porque inteligência artificial é simplesmente um plágio multi-fragmentado. Deixar que a IA faça por você o que seria um exercício a mais de criatividade, é fraude. A edição de fotos existe na própria câmera, desde os tempos analógicos, ou em aplicativos simples de edição, que oferecem as ferramentas; não a "mão-de-obra". A mão-de-obra é sua. O trabalho é todo seu, e se você não fizer bem, com olho clínico e talento, nada vai valer a pena.
Revisamos nossos textos, quando sentimos que falta algo. O pintor e o escultor dão retoques em suas obras, depois delas prontas. O pedreiro também. O cientista refaz experimentos em seu projeto, e seremos eternos, caso sigamos exemplificando. O fotógrafo também é assim, embora não seja obrigatório. Só não suporto que olhem para uma criação minha, crendo haver um só toque de IA.
Inteligência artificial não é inteligência. É o truque da preguiça de quem não quer usar o próprio cérebro. Nem as próprias mãos. Mas quer assinar o que não fez. Sempre me esmero para que os olhos gostem do que meus olhos olham... veem. E minhas mãos tratam com carinho, ética e critério.
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Parabéns, Mulher
Demétrio Sena - Magé
Minha vida sempre foi e continua sendo rodeada por mulheres fortes. Fortes como o próprio mundo exige que a mulher seja, em razão do machismo e da misoginia de uma sociedade profundamente patriarcal. Minha mãe, cuja força moldou a resistência de suas nove crias, como parecia improvável para todos a mera sobrevivência. Minha avó materna, minhas tias, irmãs, e as inúmeras amigas que tive ao longo dos meus anos me ajudaram muito em minha formação como pessoa.
Tempos depois me casaria com uma das mulheres mais fortes e generosas que já conheci, e com quem tive a sorte de me casar. E tenho, ainda, duas filhas que também forjam minha índole e com as quais aprendo bem mais do que sempre julguei ensinar. As preocupações que tenho com elas, por saber em que mundo vivemos, é compensada pela admiração que tenho por ver o quanto elas enfrentam as próprias adversidades e não desistem.
A luta pelos direitos sociais e políticos, a busca de um mundo que as incluísse com respeito e dignidade, iniciada no índio do Seculo XX, pela ativista alemã Clara Zetkin, ainda tem muito o que vencer. A sociedade, vocábulo feminino, mas que abriga um patriarcado perverso, preconceituoso e feminicida, tem muito a ser erradicado, conscientizado e vencido nesta questão, para se tornar uma sociedade justa. Humana. Coerente. Parabéns, mulher, por não se deixar sucumbir!
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Fantasia
Demétrio Sena - Magé
Esses olhos não faltem ao meu corpo;
à minh'alma sedenta sob os ossos;
nossos olhos se troquem na penumbra
dos perigos que acenam para nós...
Quero apenas vestir a transparência
desses véus envolventes e pedintes,
com requintes de toda fantasia
que pudermos usar, sem arranhões...
Sendo os nossos olhares prediletos,
respeitar os decretos probitivos
é um preço a pagar, tendo algum troco...
Tanto fogo passeia em nossas curvas;
quanto incêndio precisa se conter
nesse ter e não ter dos nossos olhos...
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Mãos de Sangue
Demétrio Sena - Magé
É tristonho saber quanta gente suspira
pelos tempos dos corpos marcados a brasa;
por mulheres levadas às piras e forcas,
porque tinham poder de pensar livremente...
Quanta gente suspira pela repressão;
pela volta das vozes caladas a tiros,
quando as artes mais livres eram condenadas;
vejo tantos suspiros pela ditadura...
Quando a simples poesia, só de ser poesia
era como heresia passível do inferno;
da cadeia e dos ferros e paus da tortura...
O pior é saber que tanta gente assim
canta e ora sem fim lá nos templos cristãos;
ergue mãos fervorosas desejando guerra...
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Sobreviver
Demétrio Sena - Magé
Expressar o que sinto
é minha única forma
de não estressar o que sinto.
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Heroica Desistência
Demétrio Sena - Magé
Algumas vezes não luto. Cedo e me acomodo bravamente. Foi o que fiz há mais de vinte anos, com a implosão do meu organismo, em razão da ausência do sistema linfatico, ao ser conduzido a um hospital, quase na certeza de morrer: tinha desenvolvido uma septicemia. Septicemia é quase sentença de morte. Lembro-me do meu coma semiconsciente, quando só eu sabia que estava semiconsciente: não orei, não recorri a nenhuma fé, não pensei nas pregações religiosas que sempre ouvi, e sequer passou pela minha cabeça qualquer temor do suposto inferno, profano que sou. Só me deixei. A minha condição de saúde lutando contra mim, sem ter a menor das resistências, de minha parte.
Dias após, ocorre o que chamariam de milagre, se eu fosse um "homem de Deus", ou de "Deus, pátria e família", e minha família tivesse reunido "oradores" ao meu redor. Naqueles anos, ainda era permitido que grupos religiosos fossem aos hospitais oprimir doentes, ameaçar com o inferno, caso morressem "sem salvação". Abusar da fragilidade e da "paciência" do paciente, para impor-lhe uma fé cristã. Cruzadas hospitalares do medo e das "ameaças santas".
Depois de muito não lutar e assim mesmo voltar para casa, percebi que os medicamentos tratavam minha patologia, mas me deixavam inerte, sem força e ânimo. Mais uma vez resolvi deixar estar e abrir mão dos medicamentos, mesmo crendo na ciência e na medicina, porque afinal, não sou bolsonarista. Só tomei a decisão de arriscar viver menos, com mais qualidade de vida. Não "preguei" minha decisão que parecia negacionismo. Só fiz uma escolha perigosa, em situação única; muito pessoal. Sem influenciar um possivel coletivo com teorias maciças da conspiração.
Como a perna esquerda parecesse representar perigo a todo o organismo, logo veio a tentativa do médico, de cortá-la, porque com ela, eu morreria em seis meses. Tudo havia implodido entre ela e a virilha, onde ainda está minha bomba-relógio. Demorada bomba-relógio, que não decide o que fazer. Como estava consciente, não permiti. O médico não mentiu; apenas calculou mal: por pouco a minha "brava desistência" não "me levou", mas algo se acomodou dentro de mim, tanto quanto eu. Ainda estou vivo. "Ainda estou aqui". Caminho longas distâncias, pedalo e ainda faço uma ginástica mequetréfi diária, não por músculos (realmente não os tenho), mas por manutenção.
Vivo como se a vida fosse companheira fiel; não a coisa traiçoeira que me deixa solto em um labirinto. E nesta vida, faço tudo sem disputa: sou um escritor que não busca fama e troféus; trabalhador que não deseja ser destaque; cidadão que já rejeitou comenda municipal (título de cidadania), porque nada disso me completa. Só me completa o fazer. A chance de levar meus feitos aos olhos de quem aprecia. Quem aprecia de verdade; não finge uma vez a cada quatro anos. Ombradas e rasteiras? Exclusões? Enfrento muitas e nada faço; sigo meu caminho, bravamente acomodado com o que sou, quem sou, e com o que acredito. Minha fé é na vida e nos seres humanos que restam da maioria. Tem muita gente boa no mundo.
Perfeito? Longe de ser perfeito.Tenho fama de mau, esquisitices que ninguém intui, como acho inteiramente normais, práticas que o moralismo abomina. Mas tudo isso de mim para mim mesmo. Zero maldade contra o próximo. Zero trama para "me dar bem" às custas do outro. Zero preconceito, zero separarismo, vingança e qualquer farsa para me mostrar melhor do que sou. Se você não acredita, zero preocupação. Desisto heroicamente. De você.
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De Pessoas e Posses
Demétrio Sena - Magé
Ninguém é minha mulher. Não comprei uma pessoa. Ela não me pertence. Tenho esposa, porque me casei; me tornei esposo. Não o homem de alguém; também não me vendi. Prometemos o que ainda pode ser "desprometido". Nossa jura de amor para todo o sempre não é cláusula pétrea de uma lei cujo descumprimento é passível de punição. O amor pode ser perecível.
Somos cônjuges, por contrato matrimonial reversível, quando e se um dos dois assim desejar. Livres, muito embora comprometidos mutuamente. Cada um é o dono de si mesmo e se doa voluntariamente ao outro, numa vida em comum. Não somos a mesma carne nem o mesmo espírito. Ainda seremos inteiros, no dia em que porventura resolvermos já não ser um casal.
As pessoas têm síndrome de pertencimento. São ávidas por serem donas de outras pessoas. E há pessoas que se aceitam como posses de outras. Como coisas compradas, doadas ou colhidas. Tolhidas de qualquer vontade; quaisquer arbítrio e direito a dizer não; de querer por conta e risco; não querer. Inclusive o direito a não saber se quer, não quer ou quando há de querer.
Que todo machão entenda isso. Que toda mulher submissa tome o próprio destino em suas mãos e decida sem medo qual será o seu destino. Não vale a pena viver sob nenhum jugo de moralismo, comando e rédea impostos por alguém ou pela própria sociedade. O que não é criminoso nem antiético é de nossa livre responsabilidade. Sem dignidade não há cidadania.
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Tempos Fúteis
Demétrio Sena - Magé
Você já teve a impressão de que alguém mandou para você um recado ameaçador, através de você mesmo? É como se a pessoa dissesse, para você entender sem ter certeza, e tudo ficar por isso mesmo: "Diga para você que mandei lhe dizer que tenho ranço de você e vou lhe pegar lá fora".
Trata-se de um esforço para fugir dos olhos nos olhos. Da conversa franca e pessoal, que se torna mesmo impossível, por excesso de véus. De truques e dissimulações que ajudem a fugir da elucidação de alguma celeuma que provavelmente nasceu de um fuxico secreto, à base do "não conte que te contei". São coisas de rede social. Ainda não passei por situação semelhante, mas ouço narrações diárias a respeito.
Minha reflexão gira em torno de, se não cuidarmos de nossa estrutura emocional nestes tempos de futilidades raivosas, ficaremos temerosos de atravessar uma rua... de passar por um beco mais deserto... circular à noite ou ser, em algum lugar, aquela presença que ameaça o ego de alguém
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Portal sem Porta
Demétrio Sena - Magé
Eu entendo chegadas e partidas;
os encantos, depois os desencantos;
nossas vidas precisam ter portais
que dispensam porteiros e revistas...
Mas às vezes não temos nem noção
das prisões voluntárias em silêncio,
da pressão solitária dos que gemem
não querendo ficar nem dar adeus...
Nunca pus uma porta em meu portal
e jamais vigiei os meus domínios,
pra ninguém se sentir aguilhoado...
Só me sinto sem chão ao perceber
alguém ter impressão de carceragem
onde sempre apontei pra liberdade...
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Cristo Censurado
Demétrio Sena - Magé
A cultura da raiva e do machismo;
preconceitos vazios de sentido;
um achismo total que não sustenta
tantas tralhas morais falsificadas...
As igrejas viraram prostitutas
(sem nenhuma razão, necessidade)
que se abrem sem sombra de pudor
para toda "verdade" lucrativa...
São amantes vorazes do poder,
da política mais ensandecida
que lhes pôs a perder por ambição...
Há um Cristo suspenso e censurado
numa cruz de sacrifícios a esmo;
o pecado de amar o condenou...
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Pessoas Queridas
Demétrio Sena - Magé
Jamais entendi a prática dos monossílabos entre pessoas próximas. Daquele falar meio entre dentes, onde ambos os interlocutores estão sempre ansiosos para se livrar um do outro. Entretanto, são pessoas ditas queridas. Queridas, mas impacientes entre si. Queridas, mas distantes, apesar da proximidade; queridas, mas fanáticas por uma privacidade árida que as torna velhas desconhecidas da vida inteira... ou de longas e arrastadas datas.
Pessoas realmente queridas não se falam apenas o essencial. Não estão apenas para o que der e vier, nas horas cruciais, onde uma precisa da outra para não morrer. Esse não só falar, mas também só fazer o essencial e urgente, pode até ser providencial, mas não é revelador do afeto narrado nas conversas mais animadas com "os de fora". Nos assuntos comuns em ambientes de trabalho, quando exibimos nossa sensibilidade humana.
O essencial entre pessoas próximas é não o sermos apenas no obrigatório; no que seríamos com qualquer ser humano, só porque somos humanos. Considero essencial a convivência fluente e ininterrupta nas questões e não questões; no essencial e no fútil. Convivências seletivas (quando entre pessoas queridas existem preferências) criam elites e guetos, como se faz na sociedade aberta. Pessoas queridas se misturam. De igual para igual.
Isto serve, inclusive (talvez principalmente) para mim.
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Momento Ardente
Demétrio Sena - Magé
Num desvão dos grisalhos longos anos,
face ao mundo com ótica inclemente,
houve um breve rompante adolescente
com temor de amargar perdas e danos...
Numa febre contida, o rosto quente,
o silêncio gritava em tons insanos;
a fogueira estalava sob os panos
e nos olhos ardia um brilho urgente...
Probidade açoitava o pensamento,
na razão camuflada em resistência,
mas querendo voar; montar no vento...
Um instante ao seu lado foi assim;
meu desejo enfrentando a consciência
ou eu mesmo lutando contra mim...
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