Clarissa Corrêa
Um dia, perguntei para o psiquiatra: sou bipolar? Ele me disse: de bipolar você não tem nada. Você é sincera e tem sentimentos intensos. E me explicou a origem da palavra sincera, que vem do latim e significa “sem cera”.
Antigamente, carpinteiros e escultores usavam cera para disfarçar os defeitinhos de esculturas e móveis de madeira. Então, eles lixavam, passavam verniz e tudo ficava aparentemente perfeito e em ordem.
O aspecto das peças era magnífico. Com o passar do tempo, do frio, calor e uso, a cera ia se desmanchando e os defeitos iam ganhando vida. Sinceridade é “sem cera”, ou seja, sem máscaras, sem retoques, sem querer ser o que não é. Achei bonita a explicação dele. E triste. Dói ser sem cera.
Falta um bocado de coisa neste mundo. E sobra outro tanto. Falta bom senso. Falta verdade. Falta respeito. Falta vontade. Falta educação. Falta saúde. Falta amor. Falta sinceridade. Falta igualdade. Falta paixão pelas coisas e pelas pessoas. Sobra egoísmo. Sobra estupidez. Sobra crueldade. Sobra desonestidade. Sobra preguiça. Sobra falta de caráter. Sobra achar que o mundo inteiro tem culpa das suas pequenas derrotas. Ainda dá tempo de mudar. E as mudanças, ainda que pareçam invisíveis num primeiro momento, começam dentro da gente. Sim, é clichê, banal, frase feita e o escambau: mas tudo começa aqui dentro, aí dentro. Uma hora a gente tem que fazer acontecer, senão a vida passa e acontece sozinha, sem o personagem principal, que é você.
