Adelson Carvalho

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Ninguém é Você


Existem sete bilhões de rostos no mundo,
e nenhum deles carrega o que você carrega.
Isso não é coincidência.
É destino.


Você tentou, um dia, ser outra pessoa.
Vestiu vozes que não eram suas,
copiou passos que levavam a lugares
que nunca foram seus destinos.
E sobrou cansaço.
Porque imitar é sempre morrer aos poucos.


Ninguém sentiu o que você sentiu,
do jeito exato que você sentiu.
Ninguém carrega suas cicatrizes
Quando a sua personalidade precisa de cicatrizes.
Isso não é dor.
É assinatura.


O mundo tem modelos para tudo:
modelos de sucesso, de beleza, de voz.
Mas nenhum modelo nasceu para caber em você.
Você não é uma cópia mal ajustada de outra pessoa.
Você é o original que ainda está sendo escrito.


Pare de se medir por réguas emprestadas.
A régua que serve para o outro
nunca vai medir o que há de único em você.


Ninguém pensa como você pensa.
Ninguém erra como você erra,
nem se levanta do jeito que você se levanta.
E é exatamente aí, nesse ponto,
onde ninguém mais consegue chegar,
onde seu mora o seu poder.


Não é sobre ser melhor que os outros.
É sobre ser impossível de repetir.


Ninguém é você.
Essa não é uma falha do universo.
É a única vantagem que ele te deu
e que ninguém, jamais,
vai conseguir tirar.

Domingo Que Não Existiu


Era domingo, o sol caindo lento
sobre o quintal, sobre a tarde, sobre nós dois.
Ele ali, sem camisa, corpo em forma,
suor de churrasco brilhando na pele
como se o próprio verão tivesse escolhido
morar naquele corpo por um dia.


Eu, na espreguiçadeira, fingindo descanso,
mas os olhos — ah, os olhos não descansavam.
Percorriam cada linha, cada músculo,
os cabelos escuros e sedosos
que caíam levemente sobre a testa
quando ele se abaixava para virar a carne no fogo.


Ele falava sério sobre o ponto certo,
sobre o sal, o tempo, o fogo brando,
explicando com as mãos, gesticulando,
como se aquilo fosse ciência exata,
e eu não entendia nada do que ele dizia —
só entendia a sorte, enorme, insuportável,
de estar ali, sendo escolhida por alguém assim.


Porque não era só o corpo.
Era o copo de água que ele trazia sem eu pedir.
Era o casaco nos meus ombros quando a brisa mudava.
Era o jeito de perguntar "você está bem?"
com os olhos, antes mesmo da boca.
Nenhum homem antes dele tinha essa delicadeza
de cuidar de mim como quem cuida
de algo raro, que não se repete,
que não se substitui.


Eu pensava: como cheguei até aqui?
Que caminho estranho e generoso
me trouxe a este quintal, a este domingo,
a este homem que ri baixinho
enquanto verifica se o fogo está no ponto,
sem saber que eu, ali do lado,
estava me apaixonando de novo,
a cada dois minutos,
só de olhar.


E então —


"Ei. Acorda."


Uma voz. Não a dele.
Uma mão leve no meu ombro.
O cheiro não era mais churrasco,
era café requentado e ar-condicionado forte demais.


Abri os olhos.


Não havia sol. Havia fluorescente.
Não havia quintal. Havia minha mesa,
papéis empilhados, o mouse ainda piscando,
e minha amiga, rindo, com aquele olhar de
"você dormiu de novo no meio do expediente".


Levei um segundo para entender.
Outro segundo para sentir a queda —
não física, mas aquela queda funda,
de quem troca um domingo perfeito
por uma segunda-feira qualquer.


Sorri sem graça. Disse que foi só um cochilo.
Mas por dentro, uma parte de mim
ainda estava lá, na espreguiçadeira,
ainda olhando aquele homem sem camisa,
ainda ouvindo aquela explicação sem sentido
sobre o ponto certo da carne,
ainda sentindo, por um instante que já não existia,
a sorte mais bonita
que meu sonho já teve coragem de inventar.