Assusta Amor
Sabe a intensidade do mar?
A mesma existe em mim,
Se isso te assusta não mergulhe,
Boa sorte molhando os pés.
As pessoas erram quando falam que minha inquietude,
meu barulho assusta.
O perigo mora no meu silêncio.
O homem de verdade se orgulha da sua independência e vira o seu cais; o obsessivo se assusta com a sua força e tenta virar a sua cela.
E o que mais me assusta é perceber que o mundo continua girando lá fora, indiferente ao meu inverno particular. As pessoas passam, as luzes da cidade se acendem, mas eu sinto como se estivesse preso em um porta-retratos antigo. Eu tento me convencer de que o vazio que você deixou é espaço para algo novo, mas a verdade é que esse espaço dói. É um eco constante de tudo o que fomos e de tudo o que eu não sei como deixar de ser.
Às vezes, eu fecho os olhos e tento lembrar como era respirar sem sentir esse aperto, como era ver o sol se pôr sem sentir que ele está levando um pedaço de mim junto. Mas a memória é uma faca de dois gumes: ela me mantém vivo, mas também me impede de cicatrizar. Eu me vejo procurando seu rosto em estranhos, ouvindo sua risada no barulho da chuva, e percebo que ainda estou longe de encontrar o caminho de volta para casa — para aquela casa que existia dentro de mim antes de você.
Não estou pedindo para você voltar, nem implorando por compaixão. Só precisava colocar em palavras que essa 'cidade fria' não é feita de concreto, mas da ausência de nós dois. Estou aqui, tentando sobreviver à tempestade, esperando o dia em que eu possa olhar para uma flor e não me ver nela, murchando.
O mistério do pós-morte não me assusta, desde que o destino final seja o privilégio de te conhecer de novo.
A vida passa por mim com pressa.
Hora me assusta
Hora me encanta.
Sem sinalizar, vai quebrando aqui
dobrando alí
Sem freio
Sem dó.
Por vezes acelera tanto
que quase a perco de vista.
Ontem a criança que fui
se quer existiu.
Em outro ontem já era crescida
e vestida de forças ia encarando
o susto de estar largada no mundo.
Noutro - e tudo tão depressa - ela se perdeu.
E, quando achava que se encontrara
estava perdida de novo e de novo...
A vida passa depressa.
Chega com hora marcada
mas nos deixa na mão da contra mão
quando quer e onde quer.
Sem freio
Sem dó.
Mas, enquanto ela acha que me escapa
eu sigo vivendo
Driblando como dá
Sorrindo
Chorando
Ardendo
Cantando.
Quase tudo me interessa
E quase nada me reduz
Os caminhos por onde ela me leva
são os mesmos que me trazem
pra perto, pra longe
do que seja bom, onde haja luz.
A vida vai depressa
Sem freio
Sem dó.
Edineide Almeida
Quando criança sentia o tempo na palma da mão, hoje ele escorrega e me assusta não ter mais reservas.
O inferno não assusta; o que assusta é perceber que muita gente age como se estivesse tentando administrá-lo na Terra.
