As Pessoas Sao como Ondas
Ele ficou me esperando como um cavalheiro e isso fez com que eu me derretesse por ele. Ele conversava animado sobre as pessoas à nossa volta, mas eu não ligava para elas. Na verdade, eu queria congelar todas as pessoas ali exceto nós e beijá-lo até o coração se revirar do avesso, as pernas fraquejarem e eu me derreter tipo manteiga no chão do estacionamento.
A chegada do natal e das típicas perguntas dos familiares como "e os namoradinhos?", "como anda a vida amorosa?" e "fulano ainda está solteiro, pode ser sua chance de agarrá-lo" me fizeram pensar o porquê de eu ainda estar solteira. Os comentários dos familiares no final do ano nos incomodam, eu admito, mas o fato é que para algumas pessoas não importa se você concluiu a faculdade, fez um intercâmbio e passou na OAB, pois se você ainda está solteira, não venceu na vida. Falá sério! Algumas pessoas têm sérios problemas! Então respondendo o porquê de eu ainda estar solteira, bem, é relativamente simples; eu acho que nós aceitamos o amor que achamos que merecemos e eu mereço um amor que me consuma. Eu mereço um alguém que seja inteligente, diferente, que me trate bem e que me faça bem. Eu acho que sou uma pessoa extraordinária, que mereço um alguém extraordinário, e acho que ainda não encontrei essa pessoa. Por isso, entre me contentar com migalhas, palavras vazias e amores amenos, eu prefiro ficar com minha própria companhia, que é algo que me preenche e me basta por enquanto.
Eu era um misto de ansiedade, medo e estresse e me entreguei a essa viagem como um herege que se atira ao fogo, como quem dá-se ao carrasco, esperando, aguardando ver minha alma queimar. No entanto, minha alma não foi consumida pelas chamas,minha alma, não sei se por influencia dos rios ou das marés, aprendeu a virar água e submetendo-se às adversidades,apagou quaisquer chamas que pudessem existir, Eu descobri que viajara para buscar, não para fugir. Eu viajei para buscar e achei. Achei minha desorientação como resposta e não como pergunta e isso me encheu de paz, como se a resposta fosse fluir tal qual a água, como G.H no romance de Clarice Lispector.
Eu não sei como nem por qual motivo eu me vi cantarolando "Always" do Erasure e pensando nele e querendo, desejando estar com ele e beijá-lo até perder o fôlego. Fiquei aflita com isso, confusa, estranha...Porque meu corpo queima de dentro para fora quando penso nele e parece ser quase impossível conter esse incêndio dentro de mim. Então eu já nem quero fugir e quero é sair correndo para os braços dele e me sinto tão idiota por isso!
Às vezes, existe em mim uma sensação que não sei nomear — como se eu tivesse me afastado de mim mesma sem perceber. Continuo vivendo, sorrindo, conversando, seguindo os dias, mas há momentos em que tudo parece acontecer diante dos meus olhos, e não exatamente comigo.
É como assistir à própria existência sentada na última fileira, reconhecendo o rosto no palco, mas sem sentir que aquela pessoa sou eu por inteiro. Conheço minha voz, meus gestos, minhas histórias, mas ainda assim existe algo profundamente estranho em habitá-los.Como se eu estivesse presente apenas pela metade, observando de longe uma vida que deveria sentir como minha.
E o mais inquietante é não saber de onde vem esse vazio, nem por que, mesmo estando dentro de mim, às vezes me sinto tão distante de quem sou.
Sinto saudade de um passado que já não consigo lembrar direito; é como sentir falta de uma casa que talvez nem exista mais, mas cuja ausência ainda mora em mim. Não lembro dos detalhes, das vozes ou dos dias que ficaram para trás, mas existe uma parte de mim que, mesmo sem saber exatamente para onde, ainda deseja voltar.
Há dias em que a saudade do passado aperta o peito como se quisesse me arrancar do presente; e tudo o que eu mais desejo é voltar para algum lugar no tempo em que eu ainda era verdadeiramente feliz, quando sorrir parecia natural e a vida não pesava tanto sobre os meus ombros.
É estranho como a vida, que deveria ser vivida, pode se transformar em uma sequência de expectativas; até que o peso de corresponder a todas elas vai apagando, pouco a pouco, a vontade que um dia tivemos de apenas viver.
A música tece como a linha, e a vida ouve como o laço; amarrando a música à vida é como um fio alinhado.
Na face oculta da escuridão
Ver- se alvo como dia
A ininterupta corrupção
Que devora a pátria amada
De povo sem território
E um Estado sem nação
Debandada são as riquezas
Nos destroçar das belezas
Ao forja- se a burguesia
Classe firme
Classe forte
Que nunca precisara
Da sorte
Mas sim da epifania
A fortuna que lhes cercam...
Viera da tortura? Jamais.
Da mão de força
Dos demais
Até os confins dos dias.
190926
A vida pode ser como um agiota, uma cooperativa ou uma empresa que empresta a fundo perdido; tudo depende de como investimos!
Poentes que Regressam
O verão já acabou;
porém, o mar insiste em escrever‑nos, como se na pele ainda ondulassem ondas que não pertencem só ao mar, mas o que fomos aos poentes.
Quem ama não usa a saída como primeira opção. Quem sempre vai embora, nunca esteve realmente presente. 💔
Como pode um carniceiro comer ervas e uma erbiveros comer carne, não tenhas dúvidas de teu caminho, se por ventura agrada a Deus, então, podes ter certeza que é o correto.
Desista da ilusão de aspirar vivenciar atos de heroísmo aonde você sai como o herói após vencer inúmeras batalhas. Inimigo é inimigo, nunca muda até a vida e a morte vos separar. Siga enfrente, o relógio fará o mesmo.
Maria João, Um Anjo que Partiu Cedo Demais
Eu, como peregrino que acredita que a peregrinação não é apenas uma jornada física ou sagrada, aprendi que caminhar também é buscar uma espiritualidade que nos transforma e nos torna viajantes em direção a Deus.
A perda de minha sobrinha Maria João, uma jovem guerreira de apenas 24 anos, fez nascer em mim uma dor que nenhum caminho havia conseguido me mostrar. Ela perdeu a vida lutando, acreditando que os chamados de sua profissão não esperavam apenas pelo dever, mas pelo coração. Maria João era um anjo sem asas, vestindo a farda da coragem, sempre pronta para levar esperança ao cinza de qualquer tempestade. Sua partida levou uma jovem cheia de vida, sonhos e possibilidades, deixando em nossa família um vazio que nenhuma palavra consegue preencher.
Diante dessa perda, voltei cerca de quarenta anos na trajetória da minha vida e reencontrei outras despedidas que o tempo jamais conseguiu apagar. Primeiro, meu irmão João, aos 29 anos, vítima de leucemia. Um batalhador, dono de um coração imenso e sempre disposto a ajudar o próximo. Depois, minha querida mãe, Belmira, que partiu aos 53 anos. Uma mulher que considero uma fortaleza e que, ainda aos 17 anos, teve coragem de deixar o Brasil para viver um grande amor em Portugal. Em seguida, perdi meu pai, que, embora tivesse enfrentado um câncer, acabou sendo profundamente abalado pela depressão após a morte de minha mãe.
Quando meu coração começava a encontrar algum acalento, veio outra tragédia: meu sobrinho António, o Tó, partiu aos 18 anos, vítima de uma overdose de drogas. Gosto de imaginar que, de alguma forma que somente Deus conhece, ele foi ao encontro de seu pai, meu irmão João.
Depois de tantas perdas, pedi a Deus que me livrasse de novas notícias ruins. Os anos passaram, e a vida também me presenteou com momentos maravilhosos, tantos que seria impossível enumerá-los sem correr o risco de esquecer algum. Foram esses momentos que me ensinaram a agradecer, a caminhar e a compreender que a vida, apesar de suas dores, continua sendo um presente de Deus.
Mas hoje percebo que ainda sou extremamente frágil. Posso ter caminhado milhares de quilômetros, enfrentado chuva, frio, calor, cansaço e longas distâncias, mas nada me preparou para a despedida de Maria João. Descobri que existem distâncias que nenhum peregrino consegue medir com os pés. Existem caminhos que não se percorrem com as pernas, mas com a alma.
Por isso, hoje não tenho grandes respostas. Tenho saudade, lágrimas e fé. Resta-me implorar a Deus que conforte toda a minha família e agradecer aos milhares de portugueses que, profundamente comovidos, manifestaram solidariedade, respeito e compaixão diante da nossa dor pela perda de Maria João.
Ela partiu muito cedo, mas deixou uma história, uma coragem e uma lembrança que continuarão caminhando conosco. Talvez seja essa a única maneira de compreender a partida de quem amamos: o corpo vai embora, mas aquilo que a pessoa plantou em nossos corações permanece.
Hoje, o peregrino que tantas vezes escreveu sobre superar limites precisa reconhecer que encontrou um limite que não consegue ultrapassar sozinho. Por isso, não peço a Deus que apague a minha saudade. Peço que me dê forças para transformar a dor em oração, as lágrimas em gratidão e a ausência em memória.
Porque existem caminhos que não foram feitos para serem vencidos. Foram feitos para serem percorridos com fé.
Peregrino Nino Carneiro
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