Vou Morrer
Meu suicídio diário não é uma forma de morrer. É uma tentativa desesperada de encontrar essa vida, testar minha capacidade de quase ir e voltar, descobrir se eu mereço estar aqui e se existe mesmo um deus. Afinal, ele concorda ou não com a minha maneira de encarar as coisas? Por que não me castiga por ser tão estupidamente desapegada? É minha necessidade de viver que me mata.
"Precisei de morrer para te desejar, precisei de morrer para ver a cor do desejo, que é branca, branca e irreparável, como tu, como nós dois. Quando fazíamos amor, não era o tempo que parava. Nós é que estávamos mortos, infinitamente mortos, boiando um dentro do outro num azul sem céu nem gravidade.(…) Estou à tua espera num sítio onde as palavras já não magoam, não ferem, não sobram nem faltam. Esse sítio existe."
Disseram-me para não desistir.
Se for morrer, que seja tentando.
Se for pra fraquejar, que seja apenas por uma noite — que as lágrimas lavem o medo, que o desespero se despeça com a escuridão. E ao amanhecer, que eu me erga, não como quem sobrevive, mas como quem renasce.
Que eu me torne parte do espetáculo.
Alguns anos antes de morrer, colocou um anúncio no jornal que dizia:
"Mulher simples, trinta anos, bem em todos os sentidos, mas, até agora, muito pouco feliz no amor, com rendimento médio de quinhentos mil dólares por ano, procura homem honesto e sensível, pode ser calvo, para relação séria. Responder a Marilyn Monroe, Sutton Place, Nova Iorque."
(E não recebeu uma única resposta - FONTE: Autobiografia de Marilyn Monroe, Rafael Reig).
Quem não está se ocupando em viver, está necessariamente se ocupando em morrer.
Particularmente, eu prefiro morrer traído do que viver desconfiando. Prefiro confiar e ser traído por alguns pela possibilidade de construir ao invés de viver atormentado pela desconfiança. Isso é uma cadeia!
De qualquer modo, Gale e eu concordamos que, entre morrer de fome ou com um tiro na cabeça, a bala é bem mais rápida.
Quando os vivos fazem você sentir vontade de morrer, viva apenas com as lembranças dos mortos e mate dentro de si todos aqueles(as) que ao seu lado não merecem viver.
Percebo agora que morrer é fácil. Viver é difícil.
