Viver e Nao se Preocupar com o Futuro

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Não é minha orientação que precisa de defesa.
É o preconceito que precisa aprender
que respeitar alguém não significa
inventar sobre ela aquilo que se quer temer.

A Arte de Refazer-se


Reconstruir não é voltar ao lugar
onde a ruína aprendeu a morar.
É olhar cada resto, sem se iludir,
e escolher o que fica, o que vai ruir.


Depois da queda, muda-se o mapa,
a voz já não pede, a presença não escapa.
Muda-se a língua, o jeito de falar,
porque quem se refaz aprende a se nomear.


Também muda o acesso, a porta, a janela,
nem toda presença merece a sala mais bela.
Existem distâncias que não são abandono,
são muros erguidos para proteger o sono.


Reúne-se tudo: silêncio e memória,
feridas, desejos, fracassos, história.
Nada é varrido para fingir perfeição,
até o que doeu ganha outra posição.


E então se percebe, no fundo da pele,
que mudar não é negar aquilo que fere.
É retirar da ferida o direito de mandar,
sem deixar que o passado escolha onde ficar.


Quem se reconstrói não volta igual,
troca o caminho, recalibra o sinal.
Não distribui chaves por medo de perder,
nem abre a própria casa para qualquer querer.


E se perguntarem por que tudo mudou,
não foi o mundo: foi quem se encontrou.
Mudou a linguagem, a porta e a direção,
porque reconstruir também é mudar a própria posição.

“Se um dia você não conseguir encontrar palavras, não conseguir me procurar, não souber por onde voltar... ainda existe uma coisa que pode me alcançar"...



🎵

Algumas feridas não têm passado. Têm presença.

Justiça não é vingança.
É a verdade chegando ao lugar onde a mentira acreditava ter comprado morada.

Begônia, hoje não tente convencer ninguém do seu valor.
Quem precisa ser convencido provavelmente não sabe cuidar de jardim. 🌺

A dor ensina a se portar quando já não podemos reagir a tudo. Ensina paciência quando o tempo não obedece à nossa urgência. Ensina resiliência quando a vida nos derruba e, ainda assim, alguma parte nossa decide levantar.
E talvez a maior lição seja esta: resiliência não é aprender a suportar qualquer coisa. É aprender quando permanecer de pé e quando finalmente ir embora.

RESPOSTA


O que fica
não é necessariamente
o que foi deixado.
Há coisas que atravessam uma vida
e desaparecem sem testemunha.
Outras permanecem
num lugar que sequer conhecemos.
Uma palavra pode morrer
em quem a escreveu
e continuar respirando
em outra pessoa.
Uma ausência pode ser apenas ausência
para quem partiu,
e tornar-se linguagem
para quem ficou.
Por isso, nenhuma história termina
quando a última palavra acaba
O que foi dito
já não pertence inteiramente
a quem disse.
O que foi vivido
também não permanece intacto
em quem viveu.
Cada pessoa recolhe
uma parte diferente dos acontecimentos.
Uma guarda o silêncio.
Outra, a ofensa.
Outra, a ternura.
Outra sequer sabe explicar
por que determinada coisa
nunca deixou de doer.
E sempre haverá algum idiota
disposto a interromper o texto
com a grande descoberta:


“É inteligência artificial.”


Como se nomear uma ferramenta
fosse suficiente para desqualificar
aquilo que ela produziu.


Curioso é que, às vezes,
a única coisa artificial na sala
é justamente a inteligência
de quem acusa.


Porque escrever não é juntar palavras.
É sustentar uma ideia.
É construir pensamento.
É saber onde uma frase termina
e onde outra começa.


E há quem não consiga sequer
organizar o próprio argumento
sem tropeçar nele,
mas se sinta suficientemente preparado
para julgar a literatura alheia
com três palavras e uma acusação.


No fim, pouco importa
quem escreveu primeiro,
quem escreveu melhor
ou quem utilizou qual ferramenta.


O texto precisa sobreviver
ao autor, ao método
e principalmente ao julgamento
de quem não conseguiu compreendê-lo.


Talvez seja essa
a única propriedade impossível de confiscar:


o significado que algo adquire
depois de passar por nós.


O que tu fica
não é o que eu fico.


E talvez seja justamente aí
que começa a literatura.

Há silêncios
que não nascem da falta de amor.

Nascem do excesso
de dor.

Aprendi tarde que existem pessoas que confundem bondade com recurso infinito. Não virei fria por começar a dizer “não”. Só cansei de alimentar o mundo inteiro enquanto eu mesma passava fome por dentro.

Amizade não é audiência disciplinar toda vez que você erra alguma coisa pequena.

"As vezes a pessoa não faz falta pelo que ela era. Faz falta pelo que a gente era perto dela."

Talvez hoje eu não tenha “um mundo” pra entregar. Mas talvez o problema nunca tenha sido faltar mundo. Talvez tenha sido carregar o universo inteiro nas costas tentando ser indispensável pra alguém.

Há algumas portas que não abrem, trancadas como quem não tem volta,
E no meu peito,
Ah no meu peito… um cadeado e uma saudade escondida.

A amizade .. Ela existe pra sustentar o que o amor não aguenta sozinho. Amigo de verdade é quem te encara no caos sem te transformar em projeto de reforma. É presença sem contrato emocional. Às vezes é só silêncio confortável, outras vezes é alguém te puxando de volta pra realidade quando tua cabeça resolve fazer teatro.

Você não precisa reexplicar o inferno pra ter direito de falar dele.

Às vezes não existe “o que aconteceu”.
Existe só alguém que escolheu ir embora sem conseguir sustentar conversa adulta de encerramento.

Ele não chegou fazendo barulho,
nem vestido de razão perfeita,
chegou simples.
Como quem carrega o mundo no bolso
e ainda assim oferece ajuda pra carregar o teu.

Falaram tempestades sobre ele,
inventaram sombras, pesos e espinhos,
mas quando abriu a porta do próprio silêncio,
o que havia ali
era só um homem cansado de ser mal traduzido.

Feijão tinha olhos de quem escuta de verdade,
dessas pessoas raras
que não competem com tua dor,
apenas sentam ao lado dela.

E foi estranho perceber
que a sinceridade dele cabia inteira
nos pequenos gestos,
porque gente honesta quase nunca sabe se vender,
só existir.

Talvez a vida tenha dessas ironias tortas:
aproximar duas almas pela mentira de terceiros
pra depois revelar
que afinidade nenhuma nasce no acaso.

Ele tinha jeito de casa simples em tarde de chuva,
café passado sem pressa,
cadeira na varanda
e conversa que faz o peito respirar melhor.

E no meio de tanta gente montada em personagens,
ele apareceu cru, humano, imperfeito…
mas real.

Coisa perigosa hoje em dia.
Ser real assusta mais que mentira bem contada.

A verdade geralmente não faz teatro. Ela só senta, toma café e existe.

Tem horas em que a verdade não chega gritando.
Ela chega cansada, senta na tua frente através de alguém improvável e desmonta meses de narrativa em poucos minutos. Coisa irritante, inclusive. Humanos passam semanas construindo versões dramáticas enquanto a realidade entra pela porta de chinelo e sinceridade.

Tem gente que não destrói só relacionamentos.
Destrói memórias.

Pega tudo que você fez com amor, esforço, entrega e cuidado… e começa a reescrever como se tivesse vindo de outra pessoa. Como se tua presença fosse substituível. Como se tua mão nunca tivesse segurado, ajudado, pago, acolhido ou permanecido.

E talvez essa seja uma das dores mais silenciosas que existem:
não ser esquecida…
mas ser apagada aos poucos.

É estranho descobrir verdades através de alguém que te ensinaram a odiar.
Mais estranho ainda é perceber humanidade em quem foi descrito como monstro.
Porque às vezes o “vilão” só era alguém cansado de carregar culpas que não eram dele.
E às vezes quem mais aponta defeitos nos outros, faz isso para esconder os próprios.

Eu ouvi coisas.
Coisas que ficaram rodando na minha cabeça como música triste tocando baixo num bar quase vazio.
E quanto mais eu pensava, mais eu percebia:
a verdade raramente faz espetáculo.
Ela não precisa.

A mentira costuma vir cheia de detalhes, emoção exagerada, personagens bem definidos, tentativas desesperadas de convencer.
A verdade normalmente chega simples.
Quase sem defesa.
E justamente por isso pesa tanto.

Dói perceber que talvez eu tenha amado alguém que precisava diminuir minha importância para conseguir seguir vivendo sem culpa.
Dói entender que enquanto eu carregava lembranças reais, existia alguém transformando tudo em versões convenientes.

Os presentes não importam.
O dinheiro não importa.
O que dói é a tentativa de apagar intenção.
Porque ninguém dá tempo de vida de volta.
Ninguém devolve noites acordadas.
Ninguém devolve preocupação sincera.
Ninguém devolve o coração investido em alguém.

E no fim, sobra aquela pergunta amarga:
como alguém consegue receber tanto amor… e ainda assim escolher distorcer quem ofereceu?

Talvez porque admitir a verdade exigiria encarar o estrago.
E muita gente prefere inventar narrativas do que admitir que perdeu alguém raro.

Mas existe uma coisa que não pode ser alterada:
quem viveu, sabe.

Quem esteve presente sabe.
Quem viu teu esforço sabe.
E principalmente…
você sabe.

Talvez seja isso que incomode tanto certas pessoas.
Porque por mais que tentem mudar a história, existe algo impossível de apagar:
a marca que alguém deixa quando amou de verdade.

E amor verdadeiro não desaparece da memória.
Só vira silêncio em lugares onde já foi casa.