Frases sobre vidro
Apenas um gole
Não bebo um gole. Nem chego perto do vidro.
Tenho medo do que o vinho faz com a minha cabeça.
O álcool solta as correntes que eu levei meses para prender.
Se eu beber, eu perco a vergonha.
Se eu beber, meus pés me levam sozinhos para a sua porta.
Eu viro bicho carente, volto para o seu colo pedindo carinho,
como um cachorro que apanha, mas ainda
abana o rabo para o dono.
Todo mundo bebe para rir, para celebrar, para esquecer.
Eu não. Se eu bebo, eu lembro.
Eu sinto uma saudade que não cabe no peito.
Por isso, continuo com a garganta seca.
É melhor morrer de sede do que morrer de vergonha
correndo atrás de quem não me quer mais.
O Dono da Estufa
Na cidade de vidro havia uma estufa
onde cresciam homens em fileiras retas —
raízes presas a crachás,
folhas presas ao relógio.
O jardineiro vestia linho claro
e falava sobre produtividade
como quem fala do clima:
sem jamais olhar o céu.
Regava apenas a própria varanda.
Nos corredores, o ar era contado
em parcelas invisíveis —
cada respiração descontada do salário.
As plantas amarelavam
não por falta de água,
mas pelo excesso de sede alheia.
Ele bebia a empresa em taças largas,
degustando relatórios como vinhos raros,
e confundia lucro com eternidade.
Um dia mandou vir um sino —
um leiloeiro de voz firme,
treinado para anunciar destinos
e dar preço ao silêncio das coisas.
O homem do martelo
aprendeu o eco das paredes,
mediu o peso do tempo,
deu valor até ao pó suspenso.
Mas o jardineiro, entediado,
trocou o sino por outro qualquer,
não por falha,
não por custo,
não por razão —
apenas pelo prazer
de provar que até a palavra
lhe pertencia.
E assim ficou a estufa:
homens podados antes de florescer,
cadeiras polidas como lápides,
e um dono sentado ao sol artificial
num trono feito de folhas arrancadas.
No livro-caixa
não constava o vento.
No balanço
não cabia o cansaço.
Mas à noite,
quando as lâmpadas cessavam de mentir,
as raízes conversavam sob o chão
e sabiam —
nenhuma planta sobrevive
ao jardineiro
que se alimenta do jardim.
Tem algo de silencioso nessa sensação, como se as emoções estivessem atrás de um vidro. Você vê que elas existem, mas o toque não chega.
As horas desfilam em sapatos de vidro rachado, pisando espelhos sem reflexos. Giram, bamboleiam, tropeçam: valsa de ponteiros tortos, meio-dia engolindo meia-noite, amanhecer tossindo crepúsculos de tinta. Nada faz sentido – ou faz? Minutos bêbados derramam-se como vinho em taças vazias, poças sussurrando equações sem números. Relógio de areia vira de cabeça para baixo; grãos dançam quadrilhas, subindo em espirais estelares. Horas com máscaras de palhaço riem, desmanchando-se em confetes de ontem. Pulam corda com teias de aranha, contam até infinito e param no zero, agora dissolvendo em bolhas que estouram risos mudos. Por que o segundo devora o anterior? Sombras crescem ao meio-dia, tango com luz fugidia. Absurdo! Mas no caos, pulso: cada giro é átomo de destino, tropeço é órbita no vazio. Desfeitas, recompõem-se em abraço fractal. Absurdo mascara o sentido: universo dança descompassado para ensinar o ritmo infinito. Param, ofegantes; relógio sorri. Tudo encaixa no desencaixe perfeito.
O Avesso do Vidro
Toda vez que me olho no espelho me sinto diferente
Sinto que estou todo trocado
Como se estivesse de trás para frente
Desarmonia é pouco
O rosto é destoante simetricamente
Algo está alterado
Dentro da minha confusa mente.
Procuro a linha reta, mas só encontro o desvio
Um olho que vigia, outro que foge pelo rio
A boca entorta num riso que não planejei
Sou o rascunho de alguém que eu nunca encontrei.
Não há moldura que prenda essa minha heresia
A perfeição é um tédio, uma fria anatomia
Sou feito de sobras, de ângulos e de frestas
Um quebra-cabeça montado com o que resta.
Se o vidro me cospe essa imagem incompleta
É porque a alma é curva, e a carne nunca é reta
Aceito o erro, o vinco e o traço mal posto
Pois não existe verdade num perfeito rosto.
Os cacos de vidro não sabem
que a inveja que demonstram
pelos diamantes, no fundo,
esconde uma profunda admiração.
✍©️@MiriamDaCosta
"Quem troca a honestidade pela pressa de vencer, constrói um império de vidro em um mundo de pedras."
"A arrogância de quem pisa nos outros é uma máscara de vidro: brilha muito, mas estraçalha no primeiro sinal de verdade."
"O desprezo é o trono de vidro dos arrogantes: brilha para quem olha de longe, mas corta as mãos de quem tenta se sustentar nele quando a vida, inevitavelmente, decide girar."
O Eco do Punhal de Vidro
Há perguntas que nascem com dentes,
Criaturas pálidas trancadas no sótão da mente.
Não as soltamos porque o silêncio é um cobertor,
E a verdade, nua, tem o hálito podre do terror.
Pois saber o "porquê" é, muitas vezes, aceitar
Que o castelo de cartas nunca foi feito para habitar.
Vale a pena o risco?
Questionar o destino é como polir o fio da navalha;
Se o corte mudar a vida, o que resta na batalha?
Uma alma nova, talvez, mas banhada em sangue e frio,
Pois certas respostas transformam o oceano em um rio vazio.
É o luxo da ignorância combatendo o vício de ver,
Enquanto o relógio mastiga o que nos resta de ser.
Temer a morte é o maior dos contrassensos,
Um ensaio fúnebre em nossos dias mais densos.
Se o fim é o ponto final já posto pela mão do tempo,
Por que tremer diante do sopro de um vento atento?
A resposta final já está escrita na pele e no osso:
Ela virá nos buscar, quer o abismo seja raso ou fosso.
Mas escute o sussurro que você insiste em abafar,
Aquela verdade que o peito não ousa confessar.
E se a resposta que você guarda, trancada e sombria,
For a única chave que encerra essa agonia?
Talvez o horror não seja o fim que a morte traz,
Mas viver uma mentira e chamar o cárcere de paz.
"A verdade é um monstro que preferimos manter faminto, sem perceber que, ao final, somos nós o seu único alimento."
O Labirinto das 4:30
O relógio é um carrasco de vidro e metal,
4:30 da manhã, o silêncio é visceral.
Meus olhos ardem, mas o sono não vem,
Sou prisioneiro de um vazio que ninguém contém.
O peito acelera, um motor em descompasso,
A mente é um ruído, cada pensamento um estilhaço.
As lágrimas descem sem pedir licença ou perdão,
Enquanto a alma naufraga nessa imensa solidão.
O que será de mim?
Sem o calor de um amor, sem um norte, sem fim.
Olho para a mesa, o alívio frio ali deitado:
O frasco, o metal, o fim de tudo o que foi errado.
Um duelo entre o "agora" e o "nunca mais",
Nesse labirinto escuro onde não encontro a paz.
Para o mundo, sou piada, um verso mal lido,
Um resto de gente que se sente perdido.
Minha humanidade escorre entre os dedos,
Sou feito de restos, de sombras e medos.
Onde está o brilho que o sorriso trazia?
Hoje só resta o vácuo e a agonia.
No espelho, o reflexo é um estranho, um réu,
Um fantasma do que fui, sob um cinzento céu.
Eu só queria o descanso, um dia de trégua, de luz,
Mas a vida é esse peso, essa maldita cruz.
Pois ser humano é ser esse vidro e esse aço,
Um mistério profundo que a vida nos deu.
E no abraço de um verso, nesse imenso espaço,
A gente descobre que o céu nunca se esqueceu.
------- Eliana Angel Wolf
A Coroa de Vidro
Deixo o teu palco e apago a luz,
cansei de ser plateia do teu ego.
O teu amor é um fardo que conduz
a um labirinto onde eu andava cego.
Quebras o espelho onde te achavas rainha,
pois meu reflexo não te serve mais.
No teu teatro a decisão foi minha,
não serei eco dos teus próprios ais.
Tua coroa é fria, feita de gelo,
brilha por fora, mas não tem calor.
Usavas minha vida como um adereço,
chamando de posse o que era amor.
Resta-te o trono da tua vaidade,
no altar vazio que você ergueu.
Retomo meus passos, minha verdade:
quem perdeu tudo hoje não fui eu.
CACOS DE VIDRO NA MADRUGADA
(O silêncio ensurdecedor da maternidade atípica.)
As lembranças da gestação eram a única coisa que martelava na minha cabeça naquela madrugada chuvosa, mas o barulho lá dentro era ensurdecedor.
Olhei para o relógio: duas da manhã. Meu filho autista não parava de entrar e sair do quarto; ia até a cozinha, abria e fechava a geladeira à procura de algo. Foi quando ouvi o estrondo: era mais uma xícara que ele arremessava, fruto da crise que o vencia naquele momento.
Lá fora, a chuva batia forte, no mesmo ritmo em que meu coração acelerava na angústia de ver meu filho nesse elo perdido entre o mundo dele e o meu. Levantei num sobressalto; as lágrimas escorriam silenciosas e indefesas ante a fragilidade que eu sentia.
Naquele instante, o peso do mundo se concentrou nos meus ombros e a pergunta que eu evitava finalmente me alcançou no escuro: O que é ser mãe neurodivergente?
É quando a sociedade e a família falham em ser suporte e a mãe atípica adoece no silêncio. O isolamento vira um cárcere, e a exaustão vira risco. Precisamos entender que cuidar de quem cuida é um ato de justiça e humanidade.
Nenhuma mãe deveria ter que ser forte o tempo todo; ninguém sobrevive apenas de resiliência quando o que falta, na verdade, é acolhimento. Que o elo não se quebre pela nossa indiferença. A rede de apoio é o que impede que o amor vire dor.
Nós, mães atípicas, sentimos como se a chuva lá fora fosse o reflexo das nossas lágrimas de exaustão. Um mergulho intenso em um mundo dito "azul" que, de azul, só tem os símbolos. Na realidade, existem todas as nuances de cores: ora nítidas, ora borradas. Um labirinto onde caminhamos em círculos.
Se alguém achar o encaixe exato das peças ou a saída, diga-nos...
E, nesse ínterim, o que me resta nesta madrugada é juntar os cacos de vidro pelo chão.
Lu Lena / 2026
O EXÍLIO DE VIDRO
(A solidão como refúgio e o esgotamento da entrega humana na era digital) 📲
Desde que as redes sociais estouraram, percebi o quanto nos sentimos sós, mas acho que as usamos como barreira para não sermos invadidos. É nesse silêncio que nos vemos cercados de gente que não conhecemos, mas que, muitas vezes, é quem nos acolhe.
Por isso, esse isolamento digital se torna um lugar seguro.
Dizem que as telas nos roubaram os olhos, mas a verdade é mais complexa: há uma solidão que não nasce da falta de sinal, mas do cansaço exaustivo de ser apenas vitrine.
A gente valida o ruído e os murmúrios inaudíveis da era digital quando o barulho ensurdecedor da realidade se torna uma mente fadigada.
Preferimos a proximidade fria da tecnologia não porque ela supere o calor de um abraço, mas porque o abraço exige uma entrega que já não temos no "estoque da alma". O mundo dos algoritmos e das curtidas é atraente, mas superficial; tornamo-nos fios invisíveis, marionetes de um tempo que parece retroceder à era Matrix.
Nesse exílio voluntário, sentimo-nos "livres" porque não precisamos sustentar o personagem que a família espera ou o sorriso que os amigos cobram. Entramos no Exílio de Vidro: um lugar onde é mais confortável estar preso do que ter que sair dessa zona de conforto e ter que encarar o nosso lado de dentro.
Lu Lena /2026
