Vestido de Noiva de Nelson Rodrigues
A proclamação da República é situada conforme o modelo estabelecido pelo anedotário: "Deodoro, por fim, depois de manifestadas as suas preocupações, acabou por declarar: 'Venha, pois, a República', e fez um gesto de quem lava as mãos" (pág. 310). Assim, a queda da monarquia é caracterizada como acidental e resultante do humor ácido de um chefe militar
História e materialismo histórico no Brasil
A proclamação da República aconteceu assim, segundo o texto à página 244: "A esta voz, o velho cabo-de-guerra, que se achava doente, levantou-se indignado e pôs-se à frente das tropas para DERRUBAR O MINISTÉRIO". O grifo é do autor: significa que Deodoro não queria proclamar a República, que, assim, resultaria de simples acidente, tese cujo sentido é inequívoco. Na maioria de seus elementos, aliás, a cátedra de História representa o último reduto monarquista em nosso país.
História e materialismo histórico no Brasil
A República é a forma que assume, no Brasil, o processo de avanço das relações capitalistas, pois, quando, pára esse avanço, vai eliminando a geração colonial que o impedia. Para isso é que ocorrem as reformas, entre as quais a do mercado de trabalho se destaca. Daí por diante, nas áreas em que as relações capitalistas se desenvolvem, cresce o mercado de trabalho, isto é, o trabalho assalariado amplia seu espaço.
A República: uma revisão histórica
É simples decorrência da confusão metodológica, quanto à interpretação do processo histórico, comum no Brasil, abrangendo autores da categoria daquele inicialmente citado, a análise que fazem, e que ele faz, dos eventos de novembro de 1889. É a tese da República por acidente, que vive da repetição. O autor referido escreve, a certa altura do seu volume sobre o fim da monarquia brasileira, que ela foi aqui "dissolvida abruptamente", acrescentando o detalhe que isso se deu "por efeito de um movimento sedicioso que, segundo a primeira intenção de seu chefe, visava apenas a mudar o gabinete, mas acabará deitando por terra a Monarquia". Adiante, volta a colocar o problema nos mesmos termos: "Quando, ao proclamar-se a República, a massa da população, tomada de surpresa pelo acontecimento, se mostra alheia ou indiferente a princípio, Pelotas, que pertence, aliás, à velha linhagem de soldados cuja origem data dos tempos coloniais, acha injustificável a omissão das camadas populares e vê nisto o mal de origem do novo regime. Em realidade, a República é obra exclusiva do exército, ou mais precisamente, da guarnição da Corte, embora seja apresentada, também, como da armada, que não teve parte na mudança das instituições e em nome do povo que a tudo assistiu 'bestializado"
A República: uma revisão histórica
Esse anedotário repetido, a que foi relegada a análise do processo histórico em toda a sua complexidade, deriva, em grande parte, de uma historiografia vesga e ideologicamente interessada, que ocupa o espaço dos compêndios "adotados" e vive nas aulas, mesmo, e talvez principalmente, no nível dito superior. Essa resistência a reconhecer a República como resultado de um profundo processo de mudança, de uma necessidade histórica, é a forma que assume, normalmente, o disfarce de uma posição reacionária. É a forma de resistência à mudança, de maneira generalizada, a aversão às alterações atuais, contemporâneas, de que o País necessita.
A República: uma revisão histórica
... Carlos Medeiros da Silva, Miguel Seabra Fagundes e Hermes Lima, três luminares do Direito Brasileiro, cada um com o seu traço peculiar, a sua personalidade, mas todos mestres do seu ofício... mestres que fundaram o Direito aqui, os primeiros que souberam fundir o universal com o particular, aquilo que nos proveio da herança romana, através dos séculos, com as alterações por eles introduzidas, e aquilo que resultou de experiência ou de necessidade específicamente brasileiras
A OFENSIVA REACIONÁRIA
Só quem perdeu, um dia, a liberdade, pode avaliar quanto ela vale.
A Executiva Nacional dos Estudantes de Ciências Econômicas me dirigia, ainda em janeiro, convite para conferência e diálogo com os calouros de todas as Faculdades de Ciências Econômicas de São Paulo; o tema ficaria à minha escolha, mas sugeriam, entre outros, os seguintes: "A realidade brasileira", "Perspectiva de emancipação", "Amazônia". Não me foi possível, por motivos óbvios, aceitar esse convite
A FÚRIA DE CALIBÃ, pág. 225
Os novos postulantes querem a universidade não para se doutorarem, no sentido pedante e ocioso da expressão, mas para adquirem conhecimentos que os qualifiquem para o trabalho futuro, útil, que terão de produzir. Nisto está o essencial do problema: os estudantes compreenderam a essência alienada da universidade brasileira, sua função desambientadora, sua quase nula atuação progressista, sua inadequação às tarefas exigidas pelo país, e a querem precisamente como instrumento para revogar e pôr termo a toda essa alienação...Aos estudantes cabe, evidentemente, o principal papel neste processo transformador da universidade porque são eles os primeiros a compreender as ideias como as que estamos enunciando e a lutar por elas.
A QUESTÃO DA UNIVERSIDADE, pág. 14-15
"A acusação de que na universidade pouco se trabalha e dificilmente se estuda não significa, em verdade, uma acusação, mas o registro do escrupuloso cumprimento de uma norma intencional. A universidade não foi concebida nem é dirigida em função do trabalho social útil, mas do estudo ocioso, da cultura alienada, da pesquisa fortuita e sem finalidade imperiosa"
A QUESTÃO DA UNIVERSIDADE, pág. 27
Cria-se, assim, o problema do preenchimento das cadeiras vagas. Neste assunto, melhor ainda que em outros, se observa o esforço do grupo magisterial dirigente para impedir qualquer interrupção de continuidade na orientação do pensamento de cada disciplina oficial. Tudo se faz no sentido de excluir o candidato que acaso vencedor nos supostos concursos para a docência e para a cátedra, viesse a imprimir novos rumos ao ensino, denunciar os males da alienação cultural reinante, instalar novo estilo de estudo, difundir ideias progressistas, voltadas para o exame dos reais problemas do país, exprimindo os interesses de outra classe, diferente daquela que monopoliza a universidade.
A QUESTÃO DA UNIVERSIDADE, pág. 49
O que o professor burocrata, medíocre, displicente, sabe e ensina, não reforma, mas conserva a universidade. Logo, não pode ser ela o instrumento da transformação exigida pela sociedade no seu movimento histórico...Compete aos estudantes associarem-se a estes mestres mais esclarecidos, incentivarem as suas atividades inconformistas, apoiarem-nos, para no diálogo com eles mantido, conseguir fazê-los progredir o mais possível no sentido de compreensão comum do problema e da batalha em que necessitam aliar suas forças.
A QUESTÃO DA UNIVERSIDADE, pág. 90-91
...o escritor brasileiro, via de regra, trabalha sozinho. Não dispõe, como os seus confrades estrangeiros, pelo menos os dos países ditos desenvolvidos, de secretárias. Como eu sempre fui, para escrever os meus livros, pesquisador, anotador, redator, datilógrafo e revisor...
A FÚRIA DE CALIBÃ, pág. 228
Opção por esse ontem, que significava uma sociedade sem povo, comandada por uma “elite” superposta a seu mundo, alienada, em que o homem simples, minimizado e sem consciência desta minimização, era mais “coisa” que homem mesmo, ou opção pelo amanhã. Por uma nova sociedade que, sendo sujeito de si mesma, tivesse no homem e no povo sujeitos de sua história.
Mas, infelizmente, o que se sente, dia a dia, com mais força aqui, menos ali, em qualquer dos mundos em que o mundo se divide, é o homem simples esmagado, diminuído e acomodado, convertido em espectador, dirigido pelo poder dos mitos que forças sociais poderosas criam para ele. Mitos que, voltando-se contra ele, o destroem e aniquilam. É o homem tragicamente assustado, temendo a convivência autên tica e até duvidando de sua possibilidade. Ao mesmo tempo, porém, inclinando-se a um gregarismo que implica, ao lado do medo da solidão, que se alonga como “medo da liberda de”, a justaposição de indivíduos a quem falta um vínculo crítico e amoroso, que a transformaria numa unidade cooperadora, que seria a convivência autêntica.
"Prossigo o meu plano de pesquisas sobre a fisiologia do cérebro. Estou ficando com as máquinas eletrônicas e a neurocibernética. Possuo material de laboratório suficientes para compor um tratado sobre esta matéria. Vou chamá-lo "Arquitetura funcional do cérebro e do neurônio". Colecionei também dados experimentais sobre a "Natureza da esquizofrenia". Entretanto, não é fácil realizar uma obra científica séria e profunda. O importante é que, afinal, encontrei o trabalho que consulta as minhas próprias inclinações e aspirações intelectuais. Muito útil também foi que saí da clínica psiquiátrica e neurológica para mergulhar no laboratório de pesquisa. Embora eu tenha mais gosto pela investigação teórica, não me esqueço das necessidades da prática na medicina em geral. A biblioteca especializada que possuo é bastante rara e rica, tanto soviética como internacional. Por vezes, o experimento eletrofisiológico nos animais é assaz laborioso e demanda horas de paciência. Técnicamente, exige bastante precisão. Um erro provoca resultados irreais. Registramos a atividade biológica das numerosas áreas e estruturas do encéfalo, como das células nervosas, em separado e simultaneamente. A análise e interpretação dos achados da experiência é que, então, exigem o verdadeiro desafio da nossa inteligência. Ademais do conhecimento exato das leis da biologia e fisiologia, precisamos adotar métodos matemáticos e as teorias cibernéticas e as leis das máquinas. Em suma, o cérebro e o neurônio constituem mundos maravilhosos para o estudo. São infinitos universos de fenômenos ignorados e surpreendentes. A sorte que eu tenho é que o diretor do meu Instituto não é apenas meu mestre mas meu íntimo amigo... (Parte 1 - Carta a Nelson Werneck Sodré - A FÚRIA DE CALIBÃ, pág. 238)
...O acadêmico Anokin é mesmo um grande sábio neste terreno e o nosso Instituto é considerado o mais importante e avançado da URSS neste sentido. Ele acaba de regressar dos Estados Unidos, onde esteve a convite das universidades americanas, e já acabamos de planificar a minha atual e ulterior etapa de trabalhos"
JOÃO BELLINE BURZA - Carta a Nelson Werneck Sodré - A FÚRIA DE CALIBÃ, parte 2, pág. 238
O engano dos dominadores é supor que sua dominação é eterna. Não é: tudo passa. Todos serão julgados. E a história só registra os que permaneceram de pé
HISTÓRIA DA HISTÓRIA NOVA
