Versos sobre Alianca de Noivado

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O que somos?

Somos a sorte de um jogo de azar
Somos o cheiro do café da manhã.
Somos os amigos que se reencontram.
Somos o soldado que volta vivo da guerra.
Somos a flor que embeleza o jardim.
Somos os loucos sensatos da vida.
Somos o perdão que a igreja condena.
Somos a alegria de um dia de sol.
Somos os amantes que juram amor eterno.
Somos o fim da linha de um trem.
Somos a primavera que chega em setembro.
Somos a dor de uma mãe na despedida.
Somos a verdade que a mentira inventa.
Somos a Saul...dade do que passou.
Somos tudo isso em pleno verão.
Somos a areia onde a onda quebra.
Somos o coração que se acelera na paixão.
Somos o sorriso da criança que brinca.
Somos a estrada que nos leva ao impossível.
Somos a magia do olhar da menina moça.
Somos a vida que namora o tempo.
Somos, ou nada somos.
(Saul Beleza)

*Amor que não cobra*

Te quero perto do jeito adulto,
que divide a cia debaixo do cobertor,
sem promessa de filme da Disney,
só de café passado e louça lavada.

Se vier pra junto de mim
traz teu mau humor de segunda sem ter tomado um café amargo,
que eu respeito seu ronco nas madrugadas
e a gente negocia o lado do sofá.

Amor não é fogos de artifício,
é saber calar quando o outro tá cansado
é lembrar de comprar o pão
e não transformar celos em uma guerra.

Não precisa ser pra sempre
só precisa ser honesto hoje,
e amanhã a gente conversa de novo
com os dois pés no mesmo chão.

Se azedar, a gente adoça com respeito
se apertar, a gente afrouxa com conversa
se acabar, acaba sem dívida
mas enquanto durar, que seja inteiro e verdadeiro.
(Saul Beleza)

*Perto sem encostar*

Te queria perto do jeito manso
que a manhã quer do café,
sem alarde, sem promessa grande
só pra dividir silêncio e sol

Se vier pra junto de mim, traz teu riso no decote dessa tua blusa
que é a única coisa que falta
pra casa virar teu endereço.

Não precisa ficar pra sempre,
só o tempo de uma xícara esfriar
que eu te guardo em memória quente
e te solto quando o mundo chamar.

A gente se entende no soslaio,
no quase, no detalhe bobo
onde mora o melhor do amor
que não pesa nem cobra chegada, e nem pode evitar uma partida repentina.
(Saul Beleza)

*Soslaio de mim.*

Se um dia a cotação cair na bolsa,
e teu estoque de bajulador zerar,
não me procura não, viu!
Mentira, Procura sim, Mas vou cobrar juros.
(Saul Beleza)

*Sede de nome*

Um homem apaixonado é diferente
desaprende a mastigar o dia
troca o prato pelo copo
e a fome vira silêncio.

Não come, não dorme direito
só bebe o tempo pensando nela
cada gole é uma tentativa torta
de afogar o que não sai do peito

Mas a sede não passa, só muda de estado,
desce amarga, volta em saudade
e no fundo do copo vazio,
ainda mora o rosto que ele jamais esquece.

Cuidado que essa conta é cara
e não vem só em real no papel,
vem em manhã seguinte
com o nome dela intacto na sombra da parede do quarto.
(Saul Beleza)

*Manual de viagem pra ontem*

Pra que preocupar com o presente
se em dois goles ele já é foto antiga?
Melhor montar acampamento no passado,
lá o futuro ainda tem cara de promessa.

Ontem eu comprei um terreno na lembrança,
construí uma casa sem parede,
só janelas abertas pra que o entregador e sai seja constante
a todo manhã, e o amanhã me serve café sem açúcar.

O relógio anda de ré por teimosia,
os ponteiros dão tchau pro agora
e gritam "volta aqui, seu covarde"
enquanto eu assino um contrato com o já foi.

Se o presente é só fila do passado,
vou furar fila com saudade na mão
e pedir fiado pro tempo:
me devolve um futuro que preste.

Aviso: risco de paradoxo
e de rir sozinho no ônibus
mas quem disse que lógica
é requisito pra viver?
(Saul Beleza)

*Maluquice autorizada*

Hoje meu juízo tirou folga
e deixou a chave com um grilo
que toca guitarra no meu cérebro
usando fios de macarrão.

O sol me mandou um bilhete
escrito em língua de girafa
dizia "vem brincar de nuvem"
e eu fui, de pijama e guarda-chuva.

Os ponteiros do relógio
fizeram greve por mais alguns segundos,
agora o tempo anda de patinete
cantando funk pro calendário.

Meu café levantou sozinho,
foi dar bom dia pra torradeira,
o pão respondeu com poesia
e a manteiga virou plateia.

Se a sanidade bater na porta
finge que eu mudei de planeta,
tô ocupado sendo astronauta
no espaço entre dois pensamentos, um em Goiás e outro no Mato grosso tomando sopa de osso.
(Saul Beleza)

*O dia depois do campo*

Já me acostumei com o ronco do canhão
e dancei ao som da rajada da metralhadora,
não por gosto, mas porque o corpo
aprende passos até no inferno.

Afiei o sabre pra cortar o catanho do dia,
porque amanhecer também cansa
quando a noite não deixou dormir
só ensinou a sobreviver.

Fingi não ouvir o toque da corneta
anunciando a alvorada que não pedi,
às vezes a guerra acaba lá fora
mas continua batendo no peito

Agora a casa tá limpa, o chá na mesa
e mesmo assim o silêncio vem fardado,
eu tiro o capacete devagar
e lembro que paz também é treino .
(Saul Beleza)

*Poeminha de casa arrumada*

Casa limpa, silêncio lavado
roupa no varal dançando pro vento
chá de hortelã, a chaleira apita, um som com cheiro
desenhando e a tua ausência em espiral pelo bico evapora.

Torrada estala, geleia vermelha,
espalho no pão, não espalho a falta
porque tem vazio que não cabe
nem na mesa posta pra um.

O dia tá organizado por fora, mas cá dentro tem um cômodo com a porta e janela abertas esperando,
só que hoje! ela não vi passar.
(Saul Beleza)

O lençol tem formato de dúvida
o teto conta piada sem graça,
e o relógio finge que não tá vendo
eu tentando domar a preguiça.

O sol bate na janela
pedindo pra entrar sem convite
eu digo "já vai"
e volto pro travesseiro, que tem teu cheiro.

Hoje o plano é simples:
respirar fundo três vezes
e deixar o dia chegar
no tempo dele, mesmo sem você aqui.
(Saul Beleza)

Aceito teus mimos, você é muito mimenta, dengozinha, beijoqueira, natural e sem etiqueta, sem medo, sem preço.
Porque amor que chega de madrugada com gosto de canela no arroz doce, hummm, merece verso.
(Saul Beleza)

*Olhar que basta*

Se existe tanta alegria e ternura
em nossa troca de olhar,
pra que procurar tristeza em outros olhos?

O teu riso me desenha calma
e o teu silêncio me conta segredo.
Nenhuma janela alheia
tem essa luz que me encontra cedo.

Fica o mundo lá fora
com suas promessas de sal.
Aqui, teu olhar me ancora
e isso já me faz real.
( Saul Beleza)

*contrato com o tempo*
se o tempo quer que eu te esqueça,
diz pra ele arrumar o que fazer,
porque eu não assino esse contrato,
não vou bater ponto pra te esquecer.

não vou ajudar relógio nenhum
a enferrujar tua lembrança,
vou estar pensando em você
com a mesma teimosia de criança.
(Saul Beleza)

*Saudade Perfumada*

A casa limpa e perfumada,
mas existe um cantinho que não se dissimula.
O pano passou,
a vassoura dançou,
só não tirou
o cheiro que você deixou.
Vem, o sono ainda te espera.
Na cama feita, na luz que acalma,
teu espaço mora aqui,
intacto, na casa e na alma que quer sonhar ao teu lado.
(Saul Beleza)

casa limpa, cheiro bom no ar e um vazio que só você preenche.

A orquídea negra do lençol ainda disfarça, mas não engana. O perfume que ficou na casa é você, e nenhum outro vai substituir.

Vem dormir. O sono te espera aqui do lado, junto com esse cheiro que insiste em ficar.
(Saul Beleza)

*Mulher, Poema Inteiro*

Faço poemas pois existe uma mulher,
desde a mãe que reza baixo ao pé da cama,
até a amada amante que acende a chama
com um só olhar de quem entende e quer.

A menina moça que carrega o mundo
no caderno aberto e no riso solto,
tropeça em sonhos, levanta em tumulto,
e escreve o futuro no segundo.

E a moça flor que desabrocha em calma,
tem pétala no gesto e raiz na alma,
perfuma a casa, a rua, a vida inteira
sem pedir licença pra ser primavera.

Faço poemas pois mulher é verbo:
nasce, cuida, luta, ama, inventa.
E quando o verso pensa que termina,
ela recomeça o ponto onde ele sentiu saudade.
(Saul Beleza)

Quero você,
Quero teu beijo molhado gostoso, intenso, profundo.
Quero você cheirosa, quente, ardente, aquele olhar provocante que
me enlouquece e me deixa com mais desejo.
Te quero ao meu lado sentir o calor do teu corpo.
Quero teu olhar no meu, misturar meu cheiro com o seu.
(Saul Beleza)

Prefiro ser a primeira saudade,
Que te faz lembrar de mim,
Do que a última esperança,
Que te faz chorar sem fim.

Prefiro ser o teu único sonho,
Que te faz sorrir no escuro,
Do que o eterno pesadelo,
Que te faz acordar sem futuro.

Ser a luz no teu caminho,
O abrigo no teu coração,
É o que me faz viver,
E te amar sem moderação.
(Saul Beleza)

*Jardim Sem Volta*

As rosas colhidas
não encantam o beija-flor.
Perfume em vaso é exílio,
beleza sem sabor.

Meu jardim não mais floriu
pra que ele voltasse.
Calei a primavera em mim,

Bateu assa, sumiu no vento, sem rancor.
Beija-flor não pousa em dor,
nem bebe de flor cortada,
só de haste enraizada.

Agora entendo a lei cruel:
quem colhe o encanto por querer prender,
vê o encanto ir embora.
E o jardim? Só aprende a florescer
quando deixa de ser espera
e vira morada.
(Saul Beleza)

– Não faz mal, eu vou matar ele.
– Que é isso menino, matares teu pai?
– Vou, sim. Eu já até que comecei. Matar não quer dizer a gente pegar o revólver de Buck Jones e fazer bum! Não é isso. A gente mata no coração. Vai deixando de querer bem. E um dia a pessoa morreu.

José Mauro de Vasconcelos
O meu pé de laranja lima. São Paulo: Melhoramentos, 2004.