Versões
Perdi versões de mim que eu nunca recuperarei, e agradeço por isso, eram versões fracas, hoje caminho com mais precisão, sei onde piso e por que piso, minha vida finalmente tem direção.
Sou o inventário de versões minhas que não sobreviveram ao inverno, carrego os restos como quem guarda relíquias de um incêndio.
Sou confidente da madrugada, ela é a única que aceita minhas versões sem filtros, meus colapsos e minhas confissões inconfessáveis.
Carrego dentro de mim um cemitério inteiro de versões que precisei enterrar para continuar, e mesmo assim, insisto em florescer como quem desafia a lógica da própria destruição.
Carrego em mim versões que não resistiram ao tempo. São fragmentos de quem eu fui e precisei abandonar para seguir adiante. Às vezes sinto falta até das dores antigas. Elas, ao menos, eram conhecidas, este vazio novo ainda me nomeia.
Religião é o software mais antigo, travado e bugado, que impede a atualização para versões superiores, como a espiritualidade e o ateísmo.
É mais fácil encontrar conforto em versões próprias do que é "real" do que encarar a complexidade e, por vezes, a dureza do que realmente existe.
Vivemos em uma sociedade onde as pessoas forjam tantas versões da realidade e da verdade que se tornou quase impossível distinguir o que é genuíno do que é meramente uma variação corrompida do correto.
Conte os fragmentos que restaram de suas antigas versões e perceba: a geometria da sua força atual nasceu da recusa em se encaixar em espaços que não te pertencem.
Na Bíblia, temos varias versões sobre um mesmo tema, escritas e aceitas diferentemente pelos que a seguem. E em algumas vertentes, existem ainda mais, novas versões discordando e acrescentando outros livros dos textos originais. Logo, a Bíblia Sagrada não é um legado diretamente de Deus, e sim no máximo e na melhor forma, uma inspiração divina aos homens. O grande legado divino para a humanidade, deve ser sempre a fé das diferentes culturas, o acolhimento universal sem julgamentos, o amor pleno ao próximo incondicional e a ampla caridade.
Existe uma espécie de luto invisível em quem precisou abandonar versões inteiras de si para continuar existindo.
Podemos nascer com um gene ruim, mas podemos criar novas versões de nós mesmos e não deixar que ele se sobressaia.
