Veio e Passou como um Cometa
Há cartas que nunca enviei porque não queria ferir. Elas ficaram como pétalas secas no balcão. De vez em quando revisito o antigo tecido das palavras. Algumas nunca deviam ter nascido, outras curam. E escrever sem enviar é um jeito de entender o próprio nó.
A cidade tem lembranças afiadas como cacos de vidro. Passo descalço por algumas ruas e sinto as marcas. Cada cicatriz urbana me conta quem já soube amar. Há um consolo no reconhecimento das próprias falhas. E, por isso, volto ao lugar que me fez aprender.
Amar é, por vezes, aceitar o outro como inverno. Sabemos que virá friagem, talvez geada, talvez neve. Mas também há a claridade cortante dos dias limpos. Aceitar é vestir-se de fibra para enfrentar o frio. E ainda assim, entregar-se ao calor raro é risco necessário.
Há uma beleza discreta nas despedidas sem motivo. Elas são como portais que não explicam viagem. Saímos de algo e carregamos somente um pedaço. Esse pedaço nos protege do vento intenso. E com ele seguimos, aprendendo a ser pequeno e inteiro.
O perdão que me salva é lento e sem lampejos. Ele se instala como casa simples, tijolo sobre tijolo. Não é espetáculo, nem notícia de jornal. É a rotina de admitir e soltar ao mesmo tempo. E aí a alma respira sem urgências.
O amor entra em silêncio, como uma soprano antes do primeiro agudo, e de repente tudo em nós aprende a doer bonito, como se o sofrimento fosse
apenas outra forma de cantar.
Existem amores que não querem durar, apenas incendiar a alma, como uma ária final que explode antes do fim.
Há amizades que chegam como salva-vidas improvisado. Não seguram a embarcação, mas dão tempo. Com elas aprendi a pedir socorro sem vergonha. O orgulho, às vezes, é coisa que afunda. E, por sorte, há mãos que nos puxam de volta.
O perdão que me proponho é lento, como cerâmica. Modela-se com mãos que não esmorecem. Algumas peças racham no forno e perdem a forma. Outras saem perfeitas, surpreendendo até o artesão. E percebo que imperfeição também é beleza.
A saudade não chega devagar,
ela atravessa a porta como quem tem direito. Não traz esperança, não oferece consolo, só deixa o impacto seco de quem já perdeu. É memória sem afeto, é amor sobrevivendo em forma de dor.
Hoje, meu espírito é a Sonata nº 14 de Beethoven, primeiro movimento, não como música, mas como um luto que respira, um luto que anda comigo pelos corredores escuros da alma, onde sombras sem rosto vagam em silêncio, arrastando correntes invisíveis feitas de memórias que doem, de nomes que já não ouso pronunciar, de sonhos que apodreceram antes mesmo de aprender a nascer, e cada nota que ecoa dentro de mim não consola, apenas confirma que ainda estou aqui, inteiro por fora, em ruínas por dentro, como uma catedral abandonada onde o vento reza no lugar de Deus, e essas sombras passam por mim como se me reconhecessem, como se soubessem que pertenço ao mesmo lugar que elas, um território onde a esperança é uma palavra estrangeira e a saudade é idioma oficial, e eu caminho nesse adágio eterno com os pés feridos, carregando um coração pesado demais para ser chamado de vivo, leve demais para ser chamado de morto, apenas existindo, apenas suportando, enquanto o mundo lá fora insiste em girar como se nada estivesse quebrado, e aqui dentro tudo é escombro, tudo é noite, tudo é um piano tocado por mãos que sangram.
Sou o inventário de versões minhas que não sobreviveram ao inverno, carrego os restos como quem guarda relíquias de um incêndio.
Não uso a dor como tema, uso como tinta. É a partir dela que desenho os contornos do que ainda resta de mim.
O amor, quando chega para alguém como eu, não entra pela porta da frente com flores, mas infiltra-se como a umidade nas paredes, gelando os ossos antes de se tornar parte da estrutura. É uma dor bonita, um jeito de sofrer acompanhado por alguém que também tem medo do escuro.
Meus pensamentos são como pássaros de chumbo que tentam voar em direção ao sol, mas acabam sempre caindo no quintal da melancolia, com as asas feridas pela gravidade. Eu os recolho um a um, cuido de suas penas e espero o dia em que o peso se transformará em fôlego.
Minhas frases são como cartas colocadas em garrafas e jogadas no oceano da internet, sem saber se chegarão a alguma praia ou se afundarão no esquecimento. Se você está lendo isso, saiba que não está sozinho no seu naufrágio pessoal, eu também estou à deriva aqui.
Gostaria de saber transformar minha dor em lucro, como fazem os palestrantes de palco, mas minha melancolia é um artigo de luxo que não está à venda. Ela é o que me mantém humano em um mundo que quer nos transformar em algoritmos de consumo e produtividade.
Há dias em que a única coisa que me mantém de pé é a curiosidade de saber como será a próxima frase que a minha dor vai ditar para a minha mão. Sou o primeiro leitor da minha própria tragédia, assistindo ao espetáculo com a fascinação de quem não sabe o final.
Minhas cicatrizes criaram relevos na minha pele que funcionam como o Braille da minha história, permitindo que eu me leia no escuro quando perco a visão do futuro. Cada marca é um capítulo, cada mancha é um erro que eu não trocaria por perfeição nenhuma.
Chopin tocava o piano como quem acaricia uma ferida aberta, buscando a nota exata que fizesse a dor se transformar em beleza sonora. Eu tento fazer o mesmo com as letras, buscando a palavra que faça o meu peito parar de arder por alguns segundos de leitura silenciosa.
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