Util So quando Precisam
Na vida, uns têm muito dinheiro por um preço vil.
Outros, só têm valores humanos, que são muito mais valiosos.
Sempre que estou só, parece que tenho toda a gente do mundo ao meu redor.
Outras vezes, basta-me a companhia de duas pessoas, para me sentir o homem mais infeliz e solitário que alguma vez existiu.
Até hoje, ainda não consegui descobrir o mistério do silêncio, do olhar e da fala dos humanos. Só sei dizer, que os únicos seres de sangue quente que conheci ao longo do meu atribulado viver e souberam ler e entender as palavras não ditas pela boca dos meus olhos, foram os cães que tive e amei.
Tantas vezes dizemos coisas desacertadas, só porque tivemos preguiça de acertar o relógio do nosso pensamento e emoções.
Sete dias de paz em todos os dias, semanas e anos do mundo e é só
multiplicar, pelo dobro, pelo menos.
A jactância, a fanfarronada, a vanglória de alguns galifões de crista baixa, geralmente é só e felizmente bem absorvida, assimilada, por seres de memória curta e nada dada ao sentido do pensar.
Depois, é só ler como vai o pensamento, a reflexão, a atuação em palco da vida de tanta massa humana que preenche espaço deste século XXI e que pensaríamos ser o futuro mais risonho da humanidade terráquea.
Como a gente boa, sem querer, se engana.
PEREGRINAÇÃO
Ele...
Ontem, ao cair da noite
Saiu do mundo sem destino
Nem lua, só ele num afoite
Para beber tempos de menino.
Saltou caminhos, subiu montes
E relembrou visões fantasmagóricas
E sons de corujas a beber nas fontes
Das suas memórias pitagóricas.
Cansado, sentou-se numa pedra
Que teimosamente ali estava
Desde os tempos da sua medra
Como marco da sua vida brava.
Viu e chorou o casebre onde nasceu
E o espetro das casas das avós eternas
No vazio de já não ver o céu
Dos tempos de um ontem que morreu.
Meteu pernas de volta, mas não sozinho
Levava então com ele para casa
Naquele breve e longo caminho
Os lugares e rostos dos idos em brasa.
(Carlos de Castro, in Argoncilhe, 21-06-2022)
ESCURO
Minha alma só tranquiliza
No negro da noite dos vendavais.
É aí que ela encontra refrigério
No sossego do mistério
Daquela brisa
Que batiza
Hipnotiza,
Acalma
E exorciza
Os espíritos malignos
Nos malfadados signos
Dos mortais.
(Carlos De Castro, in Terra onde não se faz Censura, 04-07-2022)
PRAGAS E MAUS OLHADOS
Rude destino
Este que só me deixou
Desde menino
Ser o que sou
Sem ser o que queria:
Ator de ganha pão,
Cantor,
Escritor,
Poeta maldito,
Sonhador proscrito,
Padre,
Frade,
Na madre
Mãe do meu grito.
Maldito destino,
Espírito atroz,
Sem letra nem hino,
Demoníaco,
Algoz,
Cardíaco!
Maldita praga
Aziaga,
Me rogaram!
Aterrador olhar me deitaram
Logo à nascença,
Ou talvez até quando espreitaram
A barriga de minha mãe,
Quando como uma prensa
Começou a inchar
A crescer,
A medrar...
(Carlos De Castro, in Poesia num País Sem Censura, em 28-07-2022)
PLANTEI
Plantei rosas em pedras.
Nasceram só cardos de espinhos
Rudes, abruptos, mesquinhos,
Sem vontade de afagar.
Voltei a plantar.
Rosas em terra dos campos
Negra, de húmus santos,
Como mulher nova a engravidar.
E os cardos sempre a medrar.
Enxertei cardos com rosas
Plantei e surpresa minha:
Nem cardos, nem rosas,
Apenas teimosos espinhos
Tantos como bichinhos.
Nunca mais planto uma rosa.
Ou por sina ou meu azar
Só nascem espinhosos cardos,
Como pesados fardos
Às costas do meu penar.
(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 26-09-2022)
O REFLEXO NA CRUZ
O quarto tão só e iluminado
Pelo pirilampo de uma velinha
Frágil, ténue como a minha
Luz, que tremula este meu fado.
Paredes negras, uma cruz só,
Um teto como um céu a cair
Desabando em mim a sentir
A mágoa de morrer sem dó.
Rompem-se trevas, o negrume,
Explode em vulcões loucos a luz,
Refletindo os raios na cruz,
Parecendo que o irmão Jesus
Me olhava sem azedume,
Num odor de divinal perfume.
(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 27-09-2022)
NÃO SEI
Não sei
O porquê
Da tua altivez.
Da tua barriga
De rei.
Só sei,
Que uma rosa
Com espinhos
É mais apetecível que tu.
Ela,
Tem flor
E espinhos.
Tu,
Só tens espinhos.
(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 04-10-2022)
C O N V I T E
Apareça, quem de mim gostar
Só hoje, sem choros, à beira do rio,
Porque amanhã cedo, o navio
Parte comigo para outro lugar.
E eu não sei se lá vou chegar.
Pode até o navio ao longe, naufragar.
Ou dar-me vontade de defecar
De pé, em cima das ondas do mar.
Aqui vos deixo o convite.
Depois, não me venham dizer
Por palpite,
Que era melhor eu ser
Sem parecer
O Eu,
Que não o Outro,
Que vos enviou o convite.
(Carlos De Castro, in Há um Livro Por Escrever, em 04-11-2022)
BEIJOS DO DESERTO
Ele, só lhe pedia:
- Dá-me um beijo, se não morro à sede...
E ia desfalecendo...
Aos poucos, morrendo.
E ela, ao lado dele, atirava:
- Quem vai morrer, não precisa de beijo!
Ele então tropeçou,
Aninhou,
Levantou,
E caminhou
E cada vez mais dela se afastou...
Afastou...
Mais à frente ele encontrou
Um cato no deserto,
Que depois de aberto,
A sede dele matou.
E então correu, como proscrito,
Correu pelo deserto infinito...
Já não quis o beijo que lhe matava a sede.
Depois chegou ela e viu o cato.
O cato, já estava seco,
De facto,
Mirrado,
Como um cão esfaimado.
Mas ela para matar a sede
Beijou o cato,
Pensando beijar os lábios dele
E morreu...
Do beijo.
(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 24-11-2022)
A V E R S Ã O
Nunca gostei dos calados,
Que falam pelos cotovelos;
E só vomitam mefíticos,
Raquíticos,
Ovos mal estrelados,
Enrolados em novelos
De frustração.
Que desilusão!
Que pivete!
O que ali vai de falsete!
(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 09-12-2022)
ANIVERSÁRIOS
Ela faz anos.
Aquele faz anos.
Tantos a fazerem anos...
Eu só queria aprender
A saber
Fazer
Os meus anos,
À minha medida,
Sem enganos,
Nem danos,
À chegada e à partida.
(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 31-12-2022)
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