Use o Silencio quando Ouvir

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Com o vento frio percebo:
Semanas e semanas
Sem ouvir insetos.

O lisonjeiro mente, até na maneira de ouvir.

Quero ouvir na noite
os sapos que embalarão,
eternos, meu túmulo.

Estamos todos um pouco estranhos. E a vida é um pouco estranha. E quando encontramos alguém cuja estranheza é compatível com a nossa, nós nos juntamos a essa pessoa e caímos nessa esquisitice mutuamente satisfatória a que chamamos de verdadeiro amor.

A maldade pode muitas vezes sacrificar-se a si mesma: é quando renuncia voluntariamente a uma vantagem pessoal para vantagem de outrem.

Por vezes a curiosidade abre novos horizontes, quando não, acende a chama do entusiasmo para procurá-los.

A glória assemelha-se ao mercado: por vezes, quando nos demoramos, os preços baixam.

Falar alto para quê? Poupa as forças, fala baixo. Poderás talvez assim ser ouvido ainda, quando os outros que falam alto se calarem estoirados.

Vergílio Ferreira
FERREIRA, V., Pensar, 1992

Todo o homem precisa de uma mulher honesta, e, quando a encontra, precisa de uma desonesta também.

Quando o cérebro humano se distende para abrigar uma ideia nova, nunca mais volta à dimensão anterior.

As mulheres adivinham tudo; elas só se enganam quando refletem.

Para que serve um advogado honesto quando o que você precisa é de um advogado desonesto?

Nunca se pratica o mal tão plena e tão alegremente como quando praticado por um falso princípio de consciência.

Quando a sinceridade é considerada uma virtude, desconsidera-se o resultado que pode ter.

Esta é a primeira consequência que sobrevém quando no mundo alguém deixa de mandar: que os demais, ao se rebelarem, ficam sem tarefa, sem programa de vida.

O amor é vida quando não é morte; é berço e também sepultura.

Como o mundo é claro e belo, quando não nos perdemos nele, e como é escuro o mundo, quando nos perdemos nele!

Telha de vidro

Quando a moça da cidade chegou
veio morar na fazenda,
na casa velha...
Tão velha!
Quem fez aquela casa foi o bisavô...
Deram-lhe para dormir a camarinha,
uma alcova sem luzes, tão escura!
mergulhada na tristura
de sua treva e de sua única portinha...

A moça não disse nada,
mas mandou buscar na cidade
uma telha de vidro...
Queria que ficasse iluminada
sua camarinha sem claridade...

Agora,
o quarto onde ela mora
é o quarto mais alegre da fazenda,
tão claro que, ao meio dia, aparece uma
renda de arabesco de sol nos ladrilhos
vermelhos,
que - coitados - tão velhos
só hoje é que conhecem a luz doa dia...
A luz branca e fria
também se mete às vezes pelo clarão
da telha milagrosa...
Ou alguma estrela audaciosa
careteia
no espelho onde a moça se penteia.

Que linda camarinha! Era tão feia!
- Você me disse um dia
que sua vida era toda escuridão
cinzenta,
fria,
sem um luar, sem um clarão...
Por que você na experimenta?
A moça foi tão vem sucedida...
Ponha uma telha de vidro em sua vida!

Nada é mais perigoso do que uma ideia quando se tem apenas uma.

Émile-Auguste Chartier
CHARTIER, A., Propos sur la Religion

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava,
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

P'ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...