Um dia Vc Va me dar o Valor que Mereco
Minha alegria se foi.
Restaram apenas as lembranças de um tempo que não volta e uma dor que insiste em permanecer.
Os dias passam, as pessoas seguem seus caminhos, mas certas feridas parecem desconhecer o tempo.
Eu tenho um coração triste e quebrado, marcado por dores que o tempo ainda não conseguiu apagar.
Carrego cicatrizes de batalhas silenciosas, de decepções que eu não queria viver e de sonhos que ficaram pelo caminho.
Mas, mesmo ferido, ele continua batendo.
Talvez mais cauteloso, mas ainda encontra forças para seguir.
Porque um coração quebrado não deixa de bater; apenas aprende que algumas dores se tornam parte da história que carregamos para sempre.
Que seja pelo propósito.
Se for para suportar a dor, que ela tenha um propósito.
Se for para renunciar, que seja por um propósito.
Se for para lutar, que seja pela vontade de Deus.
Porque viver sem propósito é apenas existir.
Mas viver para cumprir o propósito do Senhor transforma cada batalha em um passo na direção do destino que Ele preparou.
Em 1953, próximo à minha casa, montaram um acampamento de uma empresa que estava asfaltando a rodovia. Havia várias casas. Umas mais simples e outras um pouco melhores, destinadas aos engenheiros, eu acho.
Como qualquer moleque da minha idade, uns seis ou sete anos, eu me maravilhava com aquele vai e vem de máquinas fazendo estrada e jogando aquela mistura de pedras que depois era coberta com piche, deixando no ar aquele cheiro de óleo diesel. O dia era curto.
Uma noite acordei com minha mãe me chamando. Estava pegando fogo em uma das casas do acampamento. Como era uma construção bem simples, com cobertura de sapé, queimou muito rápido.
Na manhã seguinte encontrei várias garrafas derretidas, parecendo figuras de bichos. Guardei algumas como relíquias. Eu tinha um esconderijo, uma espécie de caverna, que ficava debaixo do assoalho da nossa casa. Ali ficavam meus tesouros: estilingue, pião, faquinhas feitas de serra, bolinhas de gude, um canivete corneta — coisa rara —, algumas pedras coloridas e, agora, os vidros com aspecto de bichos.
Eu dividia o tempo em duas partes: de manhã ficava vendo as máquinas trabalharem e, à tarde, fuçando pelo acampamento, subindo e descendo nas máquinas quebradas, imaginando-me operando aqueles monstros.
Vez ou outra eu dava uma inspecionada nas casas dos engenheiros. Numa dessas fuçadas, achei uma casa com a janela da cozinha aberta e, como não podia deixar de ser, olhei para dentro. Sobre a mesa havia uma lata de abacaxi. Uma coisa inimaginável para o poder aquisitivo da nossa família.
Afastei-me rapidamente dali, mas algo me puxava de volta. Entre idas e vindas, numa das voltas pulei a janela e levei a lata de abacaxi, que, por um dia, passou a fazer parte do meu tesouro.
No dia seguinte, aquela máxima de que o criminoso sempre volta ao local do crime entrou em ação, e lá estava eu observando o movimento. Tudo calmo. Nada de anormal. A janela continuava aberta e, no lugar da ex-lata, havia um vasinho com flores.
Esperei mais um dia para dar fim àquela tentação. Tive que dividir uma boa parte com as formigas, mas faz parte. Dei cabo da lata e voltei a ver as máquinas que comiam e vomitavam terra.
Confessei-me alguns anos depois. Fiz um combo de pecados e entreguei tudo nas mãos do padre. Aquelas mesmas mãos que um dia eu havia beijado com a boca cheia de manga.
Claro que esse pecado não foi o maior. Mas ele só perdia para os das figurinhas.
O único trecho em que eu pensaria em mexer mais é o final. A frase "Mas ele só perdia para os das figurinhas" é boa, mas quem não leu suas outras histórias talvez não entenda a referência. Por outro lado, justamente por ser uma referência interna ao seu universo de memórias, ela tem muito charme. Eu provavelmente a manteria exatamente assim.
Quem foi que lhe disse que só porque você pensa que é, tem que ser? Nem um carregamento de laranjas iguala todas elas.
Para alguns eu sou luz. Para outros um conforto em momentos difíceis. E embora eu me ame muito, tem momentos que sou só tristeza.
A distância temporária de um lugar que adotamos como lar revela a profundidade das nossas conexões. Criamos raízes profundas em solos que não são os de nossa origem, e a solidez desse vínculo muitas vezes passa despercebida no cotidiano. É no instante da perda — mesmo que passageira — que despertamos para a realidade de que o temporário se tornou fixo, firme e profundamente real.
O lugar que prometia um novo recomeço era apenas uma ficção; a verdade estava na estabilidade que decidi abandonar.
antes de mim.
Naquela noite eu recebi uma ligação de um número que não existia.
Não era número privado. Não era desconhecido.
Simplesmente não existia.
Ainda assim, atendi.
- Alô?
Do outro lado, silêncio.
Depois uma voz.
A minha.
- Não vá dormir hoje.
Eu ri.
Não porque fosse engraçado. Ri porque algumas coisas assustam menos quando a gente finge que são ridículas.
- Quem é?
- Você.
- Isso não tem graça.
- Eu sei.
A ligação caiu.
Fiquei olhando para o telefone por alguns segundos, esperando alguma explicação aparecer na tela. Nada.
Joguei o celular na cama e tentei esquecer.
Cinco minutos depois, bateram na porta.
Três batidas.
Sempre três.
Levantei.
Não havia ninguém.
Só um envelope no chão.
Meu nome estava escrito à mão.
Dentro havia uma foto.
Era uma foto minha dormindo.
No verso, uma frase:
“Você tem oito horas.”
Eu deveria ter chamado alguém.
Não chamei.
Talvez porque, no fundo, uma parte de mim já soubesse que aquilo não tinha começado naquela noite.
Passei a madrugada tentando encontrar uma explicação.
Procurei a origem do número.
Nada.
Revirei mensagens antigas.
Nada.
Olhei as câmeras.
Às 02:13, alguém entrou.
Era eu.
A mesma roupa que eu estava usando.
O mesmo rosto.
A mesma cicatriz pequena perto da sobrancelha.
Eu parei o vídeo.
Voltei.
Assisti de novo.
Eu entrava em casa às 02:13.
Mas eu estava em casa.
Sentado na frente daquela tela.
O vídeo continuava.
Eu aparecia no corredor.
Parava diante da minha porta.
Olhava diretamente para a câmera.
E sorria.
Depois levantava a mão.
Três batidas.
A gravação terminava.
Eu olhei para a minha porta.
Três batidas vieram do outro lado.
Não abri.
Às 05:40, alguém bateu novamente.
Dessa vez, uma mulher falou meu nome.
Eu conhecia aquela voz.
Era impossível.
Ela tinha morrido há seis meses.
Fiquei parado no meio da sala.
Ela disse:
- Você prometeu que não faria isso de novo.
Não respondi.
- Eu sei que você está aí.
Meu corpo inteiro ficou frio.
- O que eu fiz?
Silêncio.
Depois:
- Ainda não fez.
Às 06:15, recebi outra mensagem.
Uma localização.
Um endereço que eu não reconhecia.
Abaixo, apenas:
“Se quiser saber por que todos estão tentando impedir você, venha sozinho.”
Fui.
Não sei por quê.
Talvez porque algumas perguntas sejam mais perigosas quando ficam sem resposta.
O lugar era uma casa abandonada.
Entrei.
Havia fotos nas paredes.
Centenas.
Todas minhas.
Eu criança.
Eu adolescente.
Eu adulto.
Eu dormindo.
Eu chorando.
Eu dirigindo.
Eu trabalhando.
Eu abraçando pessoas.
Eu terminando relacionamentos.
Eu sozinho.
E então encontrei uma foto que me fez parar.
Era eu, sentado naquela mesma casa.
Com cinquenta e poucos anos.
Ao meu lado havia uma mulher.
Não reconheci.
Atrás da foto estava escrito:
“Primeira tentativa.”
Outra foto.
Eu, mais velho.
Sozinho.
“Segunda tentativa.”
Outra.
Eu sorrindo.
Uma família ao meu redor.
“Terceira tentativa.”
E então uma última.
Eu, exatamente como estava naquela manhã.
Abaixo:
“Quarta tentativa.”
Foi quando ouvi passos.
Virei.
Um homem entrou.
Eu conhecia aquele rosto.
Era o homem do vídeo.
Era eu.
Só que mais velho.
Muito mais velho.
Ele fechou a porta.
- Finalmente.
- O que está acontecendo?
Ele sentou.
- Você vai me odiar.
- Quem é você?
Ele respirou fundo.
- Sou a única versão sua que conseguiu chegar até aqui.
- Até onde?
Ele olhou para o relógio.
06:59.
- Até antes da escolha.
Ele explicou tudo como se estivesse contando uma história que já tinha contado muitas vezes.
Disse que aquela noite acontecia repetidamente.
Sempre.
Eu recebia a ligação.
Recebia a foto.
Via as câmeras.
Ia até aquela casa.
Encontrava ele.
E então precisava escolher.
Existiam quatro possibilidades.
Em uma, eu permanecia exatamente como era.
Em outra, mudava tudo.
Na terceira, esquecia completamente aquela noite.
Na quarta...
Ele parou.
- Na quarta, você me mata.
Eu ri.
- Por que eu faria isso?
Ele olhou para mim.
- Porque eu sou a única coisa impedindo você de ter a vida que quer.
- Que vida?
Ele não respondeu.
Foi até uma parede.
Havia uma porta.
Uma porta que eu não tinha visto antes.
Ele colocou a mão na maçaneta.
- Você precisa escolher antes das oito.
- E se eu não escolher?
- Já escolheu.
- O quê?
Ele abriu a porta.
Do outro lado havia meu quarto.
O meu quarto.
Exatamente como estava naquela noite.
Minha cama.
Meu celular.
A janela.
O envelope.
Tudo.
Eu entrei.
Na cama havia alguém dormindo.
Eu.
Ele estava dormindo profundamente.
O homem mais velho apareceu atrás de mim.
- Essa é a primeira vez.
- Primeira vez o quê?
- A primeira vez que você conseguiu chegar até aqui sem lembrar.
Olhei para o homem na cama.
- Então quem é ele?
O velho ficou em silêncio.
- Você.
- Não.
- Sim.
- Mas eu estou aqui.
Ele sorriu.
- Esse é o problema.
O relógio marcou 07:59.
Uma sirene começou a tocar em algum lugar distante.
Eu olhei novamente para a cama.
O homem dormindo abriu os olhos.
Sentou.
Olhou diretamente para mim.
E falou:
- Não vá dormir hoje.
Eu senti o sangue desaparecer do rosto.
Era a mesma frase.
A mesma voz.
A minha voz.
O velho começou a chorar.
- Não...
- O quê?
- Dessa vez foi diferente.
- O que foi diferente?
Ele apontou para mim.
- Você nunca deveria ter me visto.
A luz apagou.
Por alguns segundos, não existiu absolutamente nada.
Então ouvi uma porta fechando.
Quando a luz voltou, o velho tinha desaparecido.
A casa estava vazia.
As fotos haviam sumido.
A porta também.
Só havia uma coisa sobre a mesa.
Meu celular.
Ele estava tocando.
Olhei para a tela.
Era uma chamada recebida.
O número não existia.
Atendi.
Do outro lado, silêncio.
Depois uma voz:
- Alô?
Era minha voz.
Mas dessa vez eu não falei nada.
A voz continuou:
- Quem é?
Eu reconheci a frase.
Era exatamente o que eu havia dito naquela noite.
Então percebi.
A história não estava se repetindo.
Eu estava dentro dela.
Eu não tinha recebido uma ligação do futuro.
Eu estava ligando para o passado.
E o homem que eu havia encontrado não era uma versão futura minha.
Era a versão que existia antes de mim.
A quarta tentativa.
A terceira.
A segunda.
A primeira.
Todas as vidas.
Todas as mortes.
Todos aqueles homens.
Não eram versões diferentes.
Eram pessoas diferentes que tinham recebido a mesma ligação.
Todas achando que eram eu.
Todas tentando descobrir quem começou aquilo.
Todas chegando àquela mesma casa.
Todas encontrando alguém mais velho esperando por elas.
Até que uma delas finalmente entendesse.
Não havia nenhum primeiro homem.
Não havia começo.
Só havia o próximo.
A ligação continuava.
Eu poderia desligar.
Poderia falar.
Poderia perguntar.
Mas alguma coisa me impediu.
Então fiz a única coisa que ainda não tinha feito.
Olhei para o relógio.
08:00.
E disse:
- Não vá dormir hoje.
A ligação caiu.
Fiquei parado.
Esperando.
Três batidas vieram da porta.
Eu não me mexi.
Mais três.
Depois ouvi minha própria voz do outro lado:
- Quem é?
Eu olhei para a porta.
E, pela primeira vez, entendi o que estava acontecendo.
Não havia alguém tentando entrar.
Havia alguém tentando sair.
E eu não sabia mais de qual lado da porta estava.
Fim.
Ou talvez só mais uma tentativa.
Hoje testemunhei uma situação que revela o caráter coletivo de nossa convivência social. Um porteiro, diligente em sua função de manter a ordem, se dirigiu a um veículo que estava estacionado em local proibido para orientar o condutor. Ainda assim, o motorista ignorou sua presença: não respondeu, não justificou sua ação e sequer reconheceu a autoridade ou a educação básica envolvida naquela interação.
Esse episódio pode parecer trivial para alguns, mas nos mostra algo essencial: o respeito mútuo e o senso de responsabilidade cívica não são meras formalidades — eles são pilares que sustentam uma sociedade funcional.
Mesmo diante da indiferença e da falta de reconhecimento, o porteiro manteve sua postura profissional, cumprindo seu dever com disciplina e integridade. Isso nos lembra que o verdadeiro valor do trabalho não depende da aprovação imediata dos outros, mas da consciência de que nossas ações refletem princípios maiores — ordem, respeito e dignidade.
Assim, observamos que o exercício do dever, mesmo quando invisível ou ignorado, fortalece o tecido moral de nossa comunidade. A dignidade pessoal se enraíza na consistência entre o que se sabe ser certo e o que se escolhe fazer, independentemente da reação alheia. E nesse espaço entre ação e reconhecimento, reside a verdadeira natureza do respeito e da civilidade.
O desgosto é um silêncio pesado dentro da alma. Não grita, mas corrói devagar. É o choque entre o que esperávamos e o que a vida entregou, uma ferida que não sangra por fora, mas exige do coração uma força que ele nem sempre estava pronto para dar. O desgosto não é apenas um sentimento — é um peso que o corpo inteiro aprende a carregar.
“Deus não destrói um lar para construir outro; Ele transforma corações, restaura caminhos e edifica onde há fé.”
Há um abismo entre consentimento e imposição.
Consentimento nasce da liberdade — é um “sim” que carrega dignidade, escolha e respeito mútuo. Já o que é obtido pela força pode até parecer vitória, mas é vazio: não constrói confiança, não cria vínculo, não deixa raízes.
Quem conquista pela força domina o momento.
Quem conquista com consentimento transforma a relação.
No fim, não é sobre conseguir — é sobre como se conseguiu.
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