Um dia a Gente Aprende Mario Quintana
Vida vazia
Vida vazia... tão vazia.
Se esvai aos poucos.
Deixando no mundo um mundo de loucos.
Vida vazia... escorre como água entre meus dedos.
Quero contê-la.
Quero mantê-la,
segura em minhas mãos...
Não a quero escorrendo pelo chão.
Vivo querendo preencher um vazio que nunca se acaba...
Uma busca contínua...
Procurando encontrar nos minúsculos grãos de areia da praia que bordeia o mar.
Parece-me não existir.
Quem é a imagem que o espelho insiste em refletir?
Procuro nos traços do rosto um traço de mim...
Tento me desnudar...
Encontro apenas um vazio sem fim...
Medonha essa longa noite de agonia...
Vida vazia, estou eternamente a te perguntar: ‘Em que momento essa noite insana vai virar dia?”
Agonia...
Agonia...
Agonia...
No teu Porto
Por que me olhas assim?
Não vês? Sou um barco à deriva...
Qual é a tua satisfação
se eu for engolida pela imensidão?
Imensidão do mar...
imensidão das trevas
imensidão da dor
é para tais caminhos que tu me levas...
A quem queres mentir?
Não vês nos meus olhos a agonia
de ir afundando pouco a pouco
um pouco a cada dia?
Por que me roubas dos bolsos o meu pouco de alegria?
Ajude-me a desatar os nós…
todos os nós...
Seja meu Porto seguro
e asseguro... o resultado será bom.
Deixaremos o vento soprar,
a maré nos levar,
a onda balançar,
tudo o que é ruim que está por perto pra bem longe arrastar.
Claro que te esqueci... é tão claro
Agarro o que restou.
Um sopro... que o vento levou.
Estou em queda... voo livre.
Sim, sem paraquedas.
O frio no corpo aquece a alma.
A quem quero enganar?
Tudo está a congelar.
Rasga-se a ferida.
Vida doída.
Abafo um gemido.
Decido: não vou te procurar... não te quero mais.
És apenas um fragmento. Lamento!
Não somos mais os mesmos.
Tomamos rumos tão diversos.
Por que estou eu aqui a falar de ti?
Não cabes mais em meus versos.
Sim, eu me recuso a lembrar de ti.
Eu sei: eu te esqueci.
Calmaria.
Só o cantar de um pássaro lá longe.
Uma nuvem cobre ligeiramente o sol.
As sombras no quarto desaparecem.
Tudo se sombreia.
É chuva que vem?
Um vento forte sopra.
As nuvens vão sombrear outro lugar.
Hoje o sol quer o dia todo todo o meu dia iluminar.
Alma cósmica
Ah! Essa faça falsa calma.
Tens um turbilhão em teus pensamentos.
Empurras-me cada vez mais para um buraco sem fim. Pobre de mim.
Que faço?
Mudo minha rota?
desisto desta calma desesperada que estás tentando me impor?
ou me encaixo nela...
Estou com minha alma cósmica perdida.
Da vida não consigo mais encontrar a saída.
Encolho-me toda.
Dedico-me às escritas amenas?
Apenas a duras penas...
Sinto vontade de chorar até não sobrarem lágrimas.
Por quê?
Por que me mostrastes um mundo que não poderia me aquecer...
Um mundo cheio de tristezas que eu só queria esquecer.
Tenho defeitos demais.
Ah! Eu só queria voltar atrás.
Fixar-me naquele mundo opaco,
habitado por seres itinerantes.
Por que não volta tudo a ser como antes?
Choro. (eu sei que de nada adianta, mas choro...)
No seu próprio lugar
Esse silêncio ruidoso sempre a me acompanhar.
Um amor se parte.
Cacos por todo lugar.
Meus pés sangram.
Melhor não me movimentar.
Coração sangra.
A dor da partida.
Uma agonia lenta...
No passar lento do vento.
Um sussurro.
Tudo vai passar.
Então não importa tudo o que está a sangrar.
Tudo daqui a pouco estará curado.
Tudo estará no seu próprio lugar.
A vida tem sentido?
Não sei...
A chuva,
O gato,
As ondas na praia a quebrar,
Um quero-quero a querear?
Talvez.
Um sussurro.
Um murmúrio.
Um zunido.
Uma fala ao pé do ouvido?
Talvez.
Um ir e vir.
Um passear.
Um medo de amar.
Uma lágrima a rolar?
Talvez.
Talvez seja a vida só uma encenação
de uma mente maluca, excêntrica... vazia...
desesperadamente querendo preencher seus infinitos dias.
Talvez.
Abismo
Escuridão.
Medo.
Amplidão.
Ninguém me avisou que depois do fundo do poço havia um abismo.
Tsunami, vendaval, sismo.
Tento no silêncio me refugiar.
Só ouço pessoas a gritar.
São gritos que pedem pra parar.
Como faço?
Em pedaços me desfaço.
Lutar ou resistir.
De qualquer jeito continuarei a cair?
Resisto.
Luto.
Consigo, enfim.
As vozes começam a se calar.
O medo a de mim se desapegar.
Sou o que sou.
E gosto do que vejo,
do que sou.
Vou continuar.
Da memória… não vou apagar
tudo o quanto caí.
Quero as lembranças todas.
No fim estarei inteira aqui.
Identidade
Amanhece
em mim um corpo insone
sou uma ave sem nome
nem sobrenome…
voa na branca manhã aclareada
bate as asas devagar em meio à bruma fria
sozinha
rasgando o céu
sem destino certo
voa por ares incertos…
sente-se rainha.
Aquela lembrança
Retornou como um antigo erro aquela lembrança.
Corri pela areia da praia para esquecê-la.
Coloquei óculos escuros para não vê-la
Mergulhei no mar para afogá-la.
Redimensionei-me.
Fiz-me pequena...
Corpo decomposto...
Fiz tudo o que podia pra daquela lembrança não sentir mais o gosto.
Retornou... simplesmente retornou.
e fustigou-me.
Aquela lembrança
Retornou como um antigo erro aquela lembrança.
Corri pela areia da praia para esquecê-la.
Coloquei óculos escuros para não vê-la.
Mergulhei no mar para afogá-la.
Redimensionei-me.
Fiz-me pequena...
Corpo decomposto...
Fiz tudo o que podia pra daquela lembrança não sentir mais o gosto.
Retornou... simplesmente retornou.
e fustigou-me... de-va-ga-ri-nho
FUSTIGOU-ME... DE-VA-GA-RI-NHO...
Bons frutos
Um céu mortiço... mergulhado em trevas e fumaça.
O que pensas?
Talvez seja melhor deixar ficar no pensar.
Mente clara...
ou meio nublada...
mas não de tudo a mais destacada.
Muita coisa... o melhor a fazer é deixar bem guardada.
Semente...
Germina com calma e completamente.
Espere a água...
aguar e aguar...
Não vá até o rio.
Um solo fértil...
Raios de Sol
também são feitos para por eles aguardar.
Germinar e germinar...
O resto é puro vazio.
Impeça-se de se destacar.
Faça com cuidado a sua parte
Vá com atenção por toda parte.
Frutos bons, sim, sempre dar.
O resto?
O resto... deixa a vida levar.
(Des)esperança
Esperança vadia.
Riu de mim.
Fez pouco caso dos meus sonhos…
Entregou-me um futuro tristonho.
Esperança… quanta zombaria…
Zombou de mim…
quebrou em pedaços todos os meus planos…
provou que o que eu sentia eram apenas enganos.
Esperança foi esperançar em outro lugar…
Esperança foi rondar outra paisagem…
Deixou-se aqui com uma imagen borrada…
Do que prometeu… nada fez… fez nada.
Abstinência
Há um vazio de mim mesmo
Rondando por aqui…
Algo que eu não costumava sentir.
Acabaram-se as prioridades.
Tanto faz igualdade ou desigualdade.
Um buraco no meio peito.
De esponja sou feito.
Não sei se falta em mim
O que sobra em você.
Dói em mim algo que não tenho…
Como é possível?
O coração dispara se penso em você.
Falta-me o ar se penso em você.
O que falta em mim…
Você pode devolver pra mim?
A tranquilidade do meu coração.
E mais… ele completo, por favor,
e… ainda, deixe-me sempre com ar por perto.
Essa abstinência de você está me matando.
Essa abstinência de mim, me dilacerando.
Essa dor fantasma está me consumindo.
Sinto-me sumindo… o coração… a mão… o braço…
De pouco em pouco… vou-me despedaçando em mil pedaços.
Foi
Foi
Só um vento…
Só uma chuva
Só um verão
Só um tempo
Só um raio
Só uma flor
Só um momento
Só uma tempestade
Só um pássaro
Só um tormento
Foi
uma história
que ninguém viveu e que ninguém contou…
foi…
e passou.
(Des)amor
Erros do passado
Amores que deram errado
Um vento sereno recita meu nome
Amor eterno era pra ser meu sobrenome.
Desilusão
Dói meu coração.
Uma gélida atmosfera ao meu redor
Sobre o desamor sei recitar de cor.
Aquieta-se a dor.
Silencio-me.
Um silêncio glacial de espera eterna
Sou pura resiliência ao desamor.
Solitário
Como um lobo solitário
vago pelas ruas da cidade.
As estrelas, à noite, são meu guia.
O vento, durante o dia.
Becos sem saídas.
Esquinas apontam nenhum lado.
Caminhos errados.
Um cão abandonado.
Memórias de memórias.
Sentimentos no passado afogados.
Falta-me identidade.
Este deserto em que estou não é um lugar definitivo.
Estou de passagem.
E, enquanto nele estou, aproveito a paisagem...
Mas... não só.
Nele aprendo que tudo é e não é.
Nele descubro o que é necessário
e o que desnecessário é.
Nele me vejo em miragens.
Há fantasias... e utopias.
Nele me dou o direito de transformar sonhos em realidade...
e também de vê-los como meras alegorias...
Nele me alimento de suor e lágrimas.
Nele deixo-me reflorescer como os brancos e perfumados lírios.
Nele vejo um céu mil vezes mais estrelado.
Nele misturo certo o que parece errado.
Nele o turvo é desnublado.
Dos pequenos restos que de mim restam resta quase nada.
... só o tempo de uma jornada.
Meu deserto é o tempo e espaço de uma parada... é chuva de areia que minh’alma branqueia.
Sei tão pouco
Sei tão pouco o que estou a fazer neste mundo...
qual um vagabundo
vago pelo submundo.
Sou mal vista
então, em mim não invista...
não insista.
Amo o
insano, o profano.
Sou só engano.
Baixo mundo,
imundo...
criminosa... malcheirosa
por onde passo
deixo espinhos...
roubo o perfume das rosas.
No fundo, não passo de pouca prosa.
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