Um dia a Gente Aprende Mario Quintana

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Eu me sinto um passageiro clandestino no trem da maturidade.

Dá uma raiva danada perceber o quanto de energia eu gasto só pra parecer um vivente normal aos olhos dos outros.

Eu sou um especialista em sorrir enquanto sangro por dentro.

Para qualquer outra pessoa, é lixo; para mim, era a prova material de que o que eu vivi não foi um delírio da minha cabeça.

O telefone virou só um pedaço de vidro e metal que serve pra me lembrar, em alta definição, do tamanho da minha solidão.

A liberdade só é bonita quando é uma escolha tua; quando ela é o resultado de um abandono, ela tem muito mais cara de solidão.

Não tô pronto pra dividir o mesmo aleatório com um fantasma no meio da semana.

Apaguei letra por letra. Devagar, quase com respeito, tipo quem desliga um som que já não devia ter ligado.

Aquele gosto de ‘quase’ entalado, que dói até mais que um ‘não’ de verdade, porque o ‘quase’ fica ali, mofando, esperando uma próxima brecha de fraqueza.

O compasso hoje desafinou de um jeito mais quieto, tipo quem finalmente entende que o relógio de verdade não é o meu.

Fiquei com vergonha de ter ficado bem por um tempo. Como se esquecer, nem que por meia hora, fosse uma espécie de traição — traição à dor, que já virou quase uma companhia velha.

Quase um reflexo, tipo um músculo que ainda lembra o movimento mesmo depois de parar de usar.

Setenta dias é tempo suficiente pra aprender um idioma novo, pra treinar um corpo diferente, pra plantar uma horta e já colher alguma coisa. E eu, nesse mesmo tempo, aprendi só a beber devagar e a não mandar mensagem.

O compasso hoje não desafinou nem uma vez. Ele só ficou mais lento, tipo música de final de um show longo, quando a plateia já sabe que a noite tá quase acabando, mas ainda quer mais uma música antes de ir embora.

Hoje o brinde é por reconhecer a armadilha antes de cair nela — mesmo sentindo, por um instantinho besta, vontade de cair mesmo assim.

O compasso hoje bateu descompassado de um jeito novo — não de tristeza, nem de raiva. De esperança sem fundamento nenhum, que talvez seja o tipo mais perigoso de todos.

Por um segundo, só um segundo besta, eu senti uma pontada de esperança. Uma esperança idiota, sem pé nem cabeça, do tipo que eu já devia ter aprendido a não alimentar.

"O progresso de um povo não se mede pela pressa de quem sempre teve tudo, mas pela dignidade conquistada por quem não tinha nada."⁠

Fechar-se para o conhecimento da Verdade Superior é um atestado de medo do desconhecido ou de omissão por se deixar distrair com a ilusão do espelho distorcido da mídia e se iludir com a ignorância e a hipocrisia do púlpito religioso.


Sebastian Striquer

O ego por sua natureza personificada tende a antropomorfizar Deus, o colocando em um trono de ouro, como um Rei de um reinado terreno, agindo como tal. É assim, porque é da natureza do ego sintetizar tudo ao seu nível de visão e de compreensão.


Sebastian Striquer