Um dia a Gente Aprende Mario Quintana
O fracasso é apenas um dado, não um veredito. Se o resultado não veio, mude a variável, não a sua essência
Entre Linhas e Sorrisos
Dizem que é "coisa da sua cabeça",
que foi apenas um mal-entendido.
Pedem que você não se aborreça
com o preconceito que foi proferido.
É o racismo que veste veludo,
que joga a pedra e esconde a mão.
Um monstro polido, quase mudo,
que se disfarça de boa intenção.
"Foi só uma piada", eles vão jurar,
enquanto o silêncio cúmplice consente.
Ninguém se atreve a questionar
a estrutura que o privilégio sustenta.
Querem que você duvide do que viu,
que gaste a voz tentando provar
o que a sala inteira sentiu,
mas todos preferem ignorar.
Então, deixe que finjam não haver nada.
Não gaste sua alma com quem escolheu ser cego.
A hipocrisia deles está desenhada
no espelho quebrado do próprio ego.
Que morra a busca por validação
de quem se omite para se proteger.
Sua força não cabe na concessão
de um mundo que insiste em não te ver.
Erga o queixo, recuse o papel
de aceitar a mordaça que eles te dão.
O preconceito deles é o próprio fel;
a sua resposta é a sua libertação.
Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos diaslímpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz.
Houve um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las? Eu não era mais criança, porém a minha alma ficava completamente feliz.
Houve um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não podia ouvir, da altura da janela; e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, a às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz.
Houve um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
O Vesúvio emergiu como um pinheiro no mediterrâneo imenso, com tronco e copa que se abriam nos ventos da estratosfera; as cinzas que cobriram a cidade não foram o fim de sua vida, mas a história que moldou a eternidade de sua ausência.
Reno Fioraso
A onipresença, na verdade, seria um castigo, já que qualquer ser com essa característica estaria presente no lixão, no esgoto, no cemitério e no inferno, simultaneamente.
Quando alguém te dá um presente e diz: "Foi caríssimo esse presente!", você está diante de uma pessoa deslumbrada.
O deslumbrado tem algumas atitudes que o entregam. Ele está, na verdade, deslumbrado consigo mesmo.
Por exemplo: ao te dar um presente ele diz "Olha, custou tanto. É caríssimo, hein! É de tal marca".
Características do deslumbrado:
- Precisa mostrar o valor e a marca de tudo.
- É comum ouvir "eu posso isso, eu posso aquilo", "isto é muito valioso e eu posso comprar".
- Está sempre voltado para ele mesmo.
Já o abastado é diferente. Ele é elegante e discreto.
Ele deixa a mensagem subentendida. Quando presenteia, seja com algo caro ou barato, ele está te oferecendo um momento. Está dizendo, com carinho, que lembrou de você.
Para o abastado, o importante não é o valor. É a ação, é a atitude.
A mensagem real é: "Você é importante para mim".
_Jane Silva
15/07/2026
A sinceridade d'Ele chegou bagunçada, como um quarto que ninguém arrumou há dias. E Ela não pediu que ele arrumasse — Ela disse: "senta comigo aqui no meio da bagunça que a gente vai arrumando juntos.
E um novo capítulo se inicia para Eles.
... coisas sobre Ele e Ela
as igrejas atuais se agarram a bíblia onde não está a fé, só um código de poder antigo. Lei divina é amar.
"O ciumento necessita de um escravo; o ciumento pode amar, mas o amor é para ele apenas um sentimento extravagante; o ciumento é antes de tudo um proprietário privado."
O mar não está morto; a morte é um paradigma de vida que contempla aquilo que não foi esquecido.
Reno Fioraso
"O Julgo Invisível”
Vivemos num tempo em que o valor de um homem se mede pela pressa com que ele produz.
Se ele para, chamam-no de preguiçoso; se cansa, de fraco; se pensa, de inútil.
Mas ninguém pergunta o que o silêncio dele carrega, nem o peso invisível que sustenta quando o mundo o chama de vagabundo.
Talvez o que eles chamam de inércia seja apenas o intervalo entre o que ele foi e o que ainda vai se tornar.
Nem todo repouso é desistência — às vezes é apenas o respiro antes do próximo passo.
E quem julga de fora nunca vai entender a batalha que se trava por dentro,
onde cada dia sem trabalho é também uma luta para não perder a fé em si mesmo.
"O Silêncio de Não Ser Pai"
Não sou pai. E há nisso um espaço — não de vazio, mas de eco. Um campo onde o tempo passou, e deixou intacta uma terra que poderia ter sido semeada.
Não ser pai não é ausência de amor.
Talvez, seja amor que não precisou de nome, que não se debruçou sobre berços, mas se espalhou em gestos, em presenças sutis, em silêncios partilhados.
O mundo, com sua pressa de moldar destinos, parece esperar que todos sigam a mesma trilha: encontrar, gerar, ensinar, repetir. Mas e aqueles cujos passos desenham outro mapa? E aqueles que escutam a vida por outros ângulos, sem o riso de um filho chamando pelo corredor?
Às vezes penso: teria sido bonito... Ser chamado de pai com a voz trêmula de uma criança, encontrar meu rosto espelhado em outro pequeno rosto. Talvez um dia. Talvez nunca. E tudo bem.
Há paternidades que não vestem título.
Há frutos que não brotam do sangue, mas do cuidado que deixamos pelo caminho. Já fui abrigo, já fui raiz, mesmo sem ter dado nome a ninguém.
Não ser pai é, por vezes, um caminho mais silencioso.
Mas há sabedoria no silêncio, há paz em aceitar que a vida se desenha também nas entrelinhas. E que o que não foi, ainda assim, pertence ao que somos.
Há no silêncio…
um mundo que grita baixinho,
um espaço onde os pensamentos
ecoam mais alto que qualquer voz.
Há no silêncio…
lembranças que voltam sem aviso,
sentimentos que se revelam
quando ninguém mais está por perto.
Há no silêncio…
um refúgio e também um abismo,
onde a gente se encontra
ou se perde dentro de si mesmo.
E às vezes,
é nele que mora a verdade
que o barulho do mundo
não deixa a gente ouvir.
Por favor, querido! Não me mande sinais. Mande um textão explicando exatamente o que você está pensando e querendo, nos mínimos detalhes. Os sentimentos escapam de onde sobram dúvidas e vontades inexplicadas.
(Aline M. Abdalah)
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