Torcida da sua Vida
O pacato tem vida longa.
Para viver, deixe viver. As pessoas pacíficas não vivem apenas, reinam. Ouça e veja, mas mantenha-se calado. Um dia sem tensões significa uma noite repousante. Viver muito e com gosto é viver duplamente: é fruto da paz. Tem tudo aquele que não se preocupa com aquilo que não importa. Não há bobagem maior do que levar tudo muito à sério. Manter-se aberto àquilo que não interessa é tão tolo quanto não se envolver com aquilo que interessa.
Neste exato momento, se o livro da vida me concedesse um único desejo, eu não hesitaria: pediria para me transformar em um pequeno passarinho — discreto, de asas firmes e coração leve. Voaria pelos céus em silêncio, guiado apenas pelo desejo de pousar suavemente em sua janela. Ali, por breves segundos, eu te observaria com ternura, sem perturbar tua paz, apenas existindo na tua presença.
Mas não seria um pássaro qualquer. Carregaria comigo uma fragrância singular, sutil e envolvente — um aroma que ninguém mais poderia perceber, exceto você. Ao senti-lo, teu coração reconheceria, sem dúvida, que aquele instante, aquele voo, aquele perfume... era meu. Leoni T. Steil
Cada uma das suas iniqüidades mesquinhas lança uma luz sobre a desgraça da vida humana. Cada um dos seus atos mesquinhos diminui a esperança de que se possa melhorar seu quinhão, mesmo que só um pouco.
"Muitas vezes o ser humano, acostumado com as mazelas da vida, assusta-se com a possibilidade real de um mundo melhor."
"Se estamos juntos neste mesmo plano e compartilhamos nossa vida no presente, diante da grandeza do Universo, já é motivo para nos alegrarmos."
Não devemos desanimar se há certa monotonia na vida. Somos hoje tão solicitados para a diversidade, que toda repetição nos parece roubar uma possibilidade de novidade. No entanto, a própria novidade acaba por nos cansar, porque temos uma capacidade limitada para o sempre-novo.
A Vida do Viajante
Minha vida é andar
Por esse país
Pra ver se um dia
Descanso feliz
Guardando as recordações
Das terras por onde passei
Andando pelos sertões
E dos amigos que lá deixei.
Chuva e sol
Poeira e carvão
Longe de casa
Sigo o roteiro
Mais uma estação
E alegria no coração.
Minha vida é andar...
Mar e terra
Inverno e verão
Mostra o sorriso
Mostra a alegria
Mas eu mesmo não
E a saudade no coração
O que existe do outro lado da vida?
O que acontece quando atravessamos a última fronteira e encontramos a Deusa da Luz Imaginária? Será que ela nos recebe como quem reconhece uma alma antiga? Será que, depois do silêncio, existe uma luz capaz de explicar tudo aquilo que aqui permaneceu sem resposta?
Ninguém sabe, com certeza, o que existe depois da morte. Talvez haja um lugar. Talvez uma nova forma de existir. Talvez sejamos acolhidos por uma luz que não fere os olhos, mas acalma o coração. Talvez a morte não seja o fim, mas uma passagem para um mistério maior do que a nossa compreensão.
E eu me pergunto: haverá, do outro lado, aqueles que amamos?
Será que, quando chegar a minha hora, encontrarei novamente os rostos que a vida levou? Será que poderei abraçar quem hoje só consigo tocar pela memória? Será que a voz que se calou voltará a chamar meu nome? Ou será que o amor, de algum modo que ainda não entendemos, nunca deixou de existir?
Porque a morte é um mistério, mas a saudade é uma certeza.
Ela chega sem pedir licença. Às vezes, se esconde em uma música, em um cheiro, em uma fotografia, em um lugar vazio à mesa. Às vezes, aparece de repente e aperta o peito, como se o coração tentasse alcançar alguém que já não pode ser alcançado pelas mãos.
Talvez a saudade doa tanto porque o amor não aceita desaparecer. Talvez ela seja a prova de que algumas presenças continuam vivendo dentro de nós, mesmo quando já não caminham ao nosso lado. E talvez amar alguém seja aprender a carregá-lo para além do tempo, para além da ausência e, quem sabe, para além da própria morte.
Eu queria ter a certeza de que existe algo lindo depois daqui. Queria saber que, quando a minha caminhada terminar, não encontrarei apenas o vazio, mas uma luz. Queria acreditar que haverá reencontros, abraços interrompidos que finalmente se completarão e lágrimas que, um dia, serão transformadas em paz.
Talvez não possamos provar que existe um outro lado. Mas também não podemos provar que o amor termina quando o corpo se despede.
Então, enquanto a resposta permanece escondida no mistério, escolho guardar uma esperança: a de que ninguém que amamos desaparece por inteiro. Que, de alguma forma, aqueles que partiram continuam em nós — nas lembranças, nos gestos que herdamos, nas palavras que ainda ouvimos em silêncio e no amor que permanece, mesmo diante da ausência.
E talvez, quando eu encontrar a Deusa da Luz Imaginária, ela não me entregue todas as respostas. Talvez apenas sorria, abra os braços e me mostre que o amor nunca esteve perdido.
Talvez, do outro lado da vida, eu encontre novamente quem amo.
E talvez a saudade, finalmente, se transforme em reencontro.
benta
Existe um tipo de pessoa que não entra na vida dos outros.
Ela inaugura uma estação.
Antes dela, os dias acontecem como um inverno comprido. As árvores continuam de pé, os carros continuam passando, o relógio continua cumprindo sua obrigação de girar. Mas existe uma diferença silenciosa entre viver e apenas sobreviver. Quase ninguém percebe até encontrar alguém capaz de acender as luzes de uma casa que sempre esteve habitada por sombras.
Foi assim que conheci Benta.
Os olhos mais sinceros que já presenciei em 26 anos de vida.
Bonitas eram as coisas que aconteciam perto dela.
O café parecia mais quente.
As ruas pareciam menores.
Os silêncios deixavam de ser um lugar de abandono para se tornarem um idioma que duas pessoas podiam dividir sem medo.
Ela carregava uma estranha habilidade de fazer o mundo perder o excesso. Como se passasse as mãos sobre a realidade e retirasse todo o ruído que sobrava entre um coração e outro.
Algumas pessoas chegam oferecendo promessas.
Benta oferecia paz.
E isso era infinitamente mais perigoso.
Porque promessas quebram.
Paz vicia.
Passei tempo demais acreditando que anjos tinham asas.
Depois percebi que talvez eles apenas saibam permanecer quando ninguém mais consegue.
Ela nunca precisou salvar ninguém de incêndios, tempestades ou guerras.
Bastou existir.
Há pessoas que nos dão conselhos.
Outras nos dão coragem.
Ela me devolveu uma versão de mim que eu desconhecia.
Na presença dela, eu não precisava fingir ser forte. Não precisava vencer discussões imaginárias, provar inteligência, esconder as rachaduras ou construir personagens. Pela primeira vez, existir parecia suficiente.
E isso me assustava.
Porque quando alguém nos enxerga sem as armaduras, sobra apenas a responsabilidade de não ferir aquilo que finalmente encontrou descanso.
Nem sempre consegui.
É estranho perceber que o amor também pode carregar culpa.
Não aquela culpa dramática dos romances.
Uma culpa silenciosa.
A de olhar para trás e pensar que algumas mãos aparecem apenas uma vez na vida para nos tirar da água.
E nós, ainda aprendendo a respirar, acabamos soltando exatamente a mão que nos mantinha na superfície.
Às vezes imagino que Deus distribui milagres de maneira discreta.
Não em igrejas.
Não em profecias.
Mas em pessoas.
Pessoas que aparecem sem anunciar a própria importância.
Que entram pela porta como qualquer outra.
Que riem de coisas pequenas.
Que bagunçam os cabelos com o vento.
E só depois de irem embora revelam que sustentavam um universo inteiro sem nunca terem dito uma palavra sobre isso.
Benta era assim.
Nunca precisou dizer que era luz.
A escuridão fazia esse trabalho por comparação.
Existe uma rua dentro da memória onde ela continua caminhando.
Não envelhece.
Não se despede.
Não pede que eu a siga.
Apenas continua andando, enquanto tudo ao redor floresce com a delicadeza de quem nunca soube que estava realizando um milagre.
Talvez seja por isso que algumas lembranças doam tanto.
Não sentimos falta apenas de uma pessoa.
Sentimos falta daquilo que éramos quando alguém nos fazia acreditar que o mundo ainda tinha um lugar reservado para a esperança.
Benta nunca foi uma casa.
Casas podem ser reconstruídas.
Ela foi horizonte.
Você pode atravessar continentes inteiros, aprender novos idiomas, dormir em outras camas, conhecer outros rostos.
Ainda assim, em algum momento do dia, seus olhos procuram exatamente aquela linha distante onde o céu parecia tocar a terra.
E então você entende.
Existem pessoas que passam pela nossa vida para serem amadas.
Outras, para serem esquecidas.
Mas há uma categoria infinitamente mais rara.
Aquelas que nos libertam de nós mesmos.
Que chegam quando tudo dentro parece um labirinto sem saída e, sem perceber, derrubam uma única parede.
Não mostram o caminho.
Elas se tornam o caminho.
E mesmo quando já não estão mais ali, seguimos andando por causa da direção que deixaram.
É por isso que nunca consegui pensar em Benta como uma ausência.
Ausências pertencem ao tempo.
Ela pertence ao que existe antes das palavras.
Àquela sensação inexplicável de encontrar abrigo sem precisar entrar em lugar algum.
Se algum dia me perguntarem qual foi o melhor sentimento que experimentei, não responderei com felicidade.
Felicidade é breve.
Direi que, por um instante impossível da vida, conheci alguém cuja simples existência fazia o mundo parecer menos pesado.
E desde então passei a desconfiar que certos anjos aceitam viver entre os homens apenas para lembrá-los de que a salvação, às vezes, não desce dos céus.
Às vezes ela sorri.
E atende por um nome que ninguém mais compreenderá.
Benta.
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